Paths that take me to the backcountry

#vale_jequitinhonha
Médio Jequitinhonha
Itinga/Jenipapo  MG Brazil 2015
PHOTOS BY RB
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Chego bem cedo na cidade de Itinga, desço no ponto do ônibus na beira do asfalto. Pergunto ao motorista onde fica a cidade, ele aponta a direção e diz que fica logo abaixo. Curioso, caminho na manhã serena, busco um lugar para ficar. A cidade, pacata nas primeiras horas do dia, reserva uma infinidade de atividades  em busca da melhor foto que possa representar tudo aquilo que eu iria viver, nesses dois dias, encravado no sertão das Minas Gerais.

A paisagem seca do Vale do Jequitinhonha enaltece meu olhar e contrasta com meu estado de ansiedade. Logo que encontro uma pousada, começo a planejar meu dia, conversando com algumas pessoas que se encontram no salão do café da manhã.

Estradas viscerais cortam o sertão. Os caminhos apresentam uma areia branquinha, bem fina, em tons claros. Percebe-se as marcas de pegadas de gente, animais e de pneus na areia. Esses caminhos   ajudam o vai e vem de uma população, que sofre com clima seco e abafado, em rumo aos seus destinos no mundão do sertão.

Sentado à beira da estrada, observo a paisagem. Avisto um ônibus escolar, a princípio, pensei que seria um meio de locomoção de estudantes. Me enganei, nas manhãs, ele é usado para levar as crianças para escola e, à tarde, é um transporte para todos. Dentro do ônibus, passageiros mal acomodados sacolejam a cada buraco e curva e a poeira faz parte do pacote da passagem.

O silêncio da caatinga é exagerado, não se ouve nada. Uma mata fechada de espinhos. Os meninos, com seus bodoques, caçam sem piedade. Senhor Moço: aqui a gente caça o que tem”. A caatinga é dura, não tem fruto nem tão pouco sementes. Daí, não se vê passarinhos e o jeito é caçar Tiú.

Debaixo de uma bouganville, na entrada de acesso a Itinga, fico imaginando qual será a próxima imagem que aparecerá no vazio da estrada. Acerto o diagrama e o obturador e fico na expectativa. De repente surge um homem pedalando sua bicicleta e logo fica desconfiado com minha presença agachado no barraco. Curioso ele chega mais perto e abre um sorriso. Imagino que em sua total inocência poderia tudo menos um fotógrafo.

Dois dias na estrada para fotografar cenas de locomoção nas estradas do sertão no Médio Vale de Jequitinhonha

Fotografar em preto e branco resulta em um ensaio mais realístico, que nos remete a um tempo em que a produção de imagens era mais elaborada e ficava registrada por mais tempo em nossa lembrança.

Seu Antero, sertanejo com seus 103 anos de idade, me olha com uma carinha de curiosidade. Apesar da idade, ele ainda trabalha com um entusiasmo frenético de um senhor que viveu toda vida nos sertões de Minas Gerais.

Seu Antero observava meus movimentos enquanto fotografava um sujeito carregando toras de árvores, seguido por sua cadelinha; a cena me lembrava "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, no momento em que a obra descreve o  convívio entre Juliano e sua cadela Baleia. Começo a entender o quanto essa gente sofre com a seca, as expressões em sua face me intrigam. Seu Antero se aproxima curioso e não tira os olhos de minha câmera analógica, Nikon FM2. Brinco com o senhor, dizendo que ele e a fotografia tem pouco mais que um século de vida.

Aquela tarde parecia que ia refrescar, o sol batia no lombo do animal e a ferida não sarava. Mas o calor continuava intenso e impiedoso. O sol não dava trégua. Ele seguia meus personagens onde eles estivessem indo, tudo faz parte do ambiente da caatinga, árvores curtas, espinhosas e uma luz intensa fere o céu do sertão.

Na estrada, me escondo atrás de galhos secos na espera de mais um personagem para meu ensaio. Avisto ao longe um cachorro magro e sedento, que se aproxima e rapidamente começo a registrar o momento único. Fotografar com câmera analogica é simplesmente sensacional. O momento exato de clicar só depende de minha experiência: cálculo a abertura do diafragma, a velocidade do obturador, que são fundamentais para o definir o campo de profundidade.

Tiro conclusões a respeito disso tudo, os animais foram substituídas pelas motos, é raro ver pessoas caminhando a pé, substituíram por automóveis e caminhões. Já não é a mesma coisa de antigamente. A facilidade de adquirir um bem móvel ficou mais fácil depois que o progresso capitalista aportou nessa região. A modernidade da vida cotidiano chegou para ficar, a energia elétrica faz parte de um momento de avanço sistemático na vida dessa gente que se acostumou como com o conforto oferecido por ela.

Ricardo Ferraz Bastos