Campo de refugiados Yibo com meu iPhone5s

Campo de refugiados Yibo com meu iPhone5s
Şanlıurfa Suruç - Turquia 2014
PHOTO BY RB

Şanlıurfa Suruç - Turquia 2014

Hoje está sendo o dia mais muito triste na minha viagem, faz dois dias que estou fotografando o campo de refugiados curdo sírio Yibo. Pelo problema da língua sou obrigado a usar uma técnica que aprendi faz muito tempo : o olhar. Simplesmente estou diante das crianças mais inofensivas do mundo, estão aqui pelo destino que foram impostas pela total irresponsabilidade dos adultos, que guerrilham entre eles na certeza que o mundo pertence somente aos seus interesses. São crianças dilaceradas de uma guerra sem fim e sem escrúpulos atribuída pelo cruel Estado Islâmico.

Tive permissão para fotografar durante dois dias somente esse campo por estar mais afastado da fronteira com a Síria e também por questões de minha própria segurança. Me apresentei como fotojornalista e quando viram que se tratava de um fotojornalista brasileiro o tom da conversa mudou. Passei uma amanhã inteira indo de um quartel a outro, até conseguir a liberação do próprio governador de Estado, na condição de não fotografar militares, tanques de guerra, base militares e situações que comprometesse o Estado Turco e no final de cada dia teria que me apresentar ao comandante geral e mostrar as fotos que fiz. Por esperteza resolvi fotografar tudo com meu celular, jornalistas aqui não são bem vindos e vira isca fácil de sequestro pelos guerrilheiros.

Bom, ontem quando terminei meu trabalho fui até as autoridades turcas para mostrar as fotos que fiz e aproveitei para perguntar se podia trazer para as crianças alguns presentes como bolas de futebol para os meninos e bolas de vôlei para as meninas. Como de costume eles olharam friamente nos meus olhos e com o dedo no gatilho de suas metralhadoras e me proibiram de presentea-los. Indaguei o porque, a resposta foi simples e curta, porque eu não teria condições de presentear a todos, se trouxesse alguns presentes eu provocaria uma verdadeira batalha entre eles, pois as crianças nasceram durante a guerra e eles se matariam pelos presentes.

Nesse campo de refugiados Yabo vive cerca de oito mil pessoas, sendo que a grande maioria é de crianças. Elas vivem o dia inteiro sem nenhum tipo de recreação ou mesmo alguém para educarem, correm de lado para outro fazendo todos tipos de brincadeiras, usam brinquedos que eles mesmos constroem numa inocência de como se nada tivesse acontecido.

Num lugar mais reservado, ao fundo das barracas tem uma ala de crianças que perderam os pais mortos na guerra ou mesmo se perderam de seus responsáveis durante a fuga de suas cidades destruídas. São centenas que são identificadas por números pois chegaram muito novas sem documentos e nem sabe ao menos seus nomes de batizado e nem suas idades.

Se me perguntar como fazia para fazer as fotos das crianças respondo sem saber como tudo foi possível, onde eu ia elas iam atrás, batiam a mão no peito e apontavam os amiguinhos na tentativa de me ensinar seus nomes, da mesma maneira batiam a mão no meu peito me perguntavam qual era meu nome, dai escrevi RB no chão empoeirado e eles começaram a me chamar de RB. Foi a coisa mais sensacional que aconteceu comigo nesses últimos anos, centenas de crianças me chamavam para eu fazer as fotos, foi muito fácil fotografa-las.

Sou fotojornalista faz muito tempo, tenho experiências que mexeram com meu ser , como profissional já cobri milhares de matérias com frieza de um fotógrafo que registra e mostra seu trabalho enquanto realidade. Mas hoje me rendi ao choro de um adulto que não consegue entender tamanha maldade com essas crianças inocentes.

Fico imaginando o vai acontecer com essas crianças quando chegar o inverno, nessa região as temperaturas chegam a números negativos bem abaixo de zero grau. Quando elas chegaram aqui traziam roupas de verão, o governo solitário turco já gastou mais de 4 bilhões de euros para manter essa gente aqui e as autoridades preparam para o pior inverno de todos os tempos. Essas crianças serão dizimadas da face da terra porque não terão ajuda de ninguém e o governo turco não tem como ajudar a todos. São mais de um milhão de crianças espalhadas em 150 campos de refugiados nos 800 km da fronteira Turquia com a Síria .

Fico triste por não poder fazer nada. Peço ao nosso grande Allah que proteja essas inocentes crianças que não tem culpa de nascerem curdas. Fico por aqui com olhos cheios de lágrimas na esperança que essa maldita guerra acabe e que essas crianças possam ter oportunidade de uma vida alegre pois criança nasceu para ser feliz...