UFSCar 2003 — Questões de Física comentadas — Método TEF
Universidade Federal de São Carlos
Vestibular 2003 · questões de Física (Q11-20 e Q36-40) — resolução comentada Método TEF.
Instituição UFSCar
Processo seletivo Vestibular UFSCar 2003
Prova 1ª parte: 30 questões de múltipla escolha · 2ª parte: discursivas (Biologia, Física e Geografia)
Física Questões 11–20 e 36–40
Q11
Mecânica — Cinemática — Velocidade angular e velocidade linear (asteroide)
A figura mostra a trajetória do asteroide 2002 NY40 obtida no dia 18 de agosto de 2002, no hemisfério norte.
Nesse dia, às 09:00 UT (Universal Time), o 2002 NY40 atingia a sua aproximação máxima da Terra. Sabe-se que nesse momento o asteroide passou a cerca de $5{,}3\cdot10^{8}$ m da Terra com um deslocamento angular, medido da Terra, de $4{,}0\cdot10^{-5}$ rad/s. Pode-se afirmar que, nesse momento, a velocidade do asteroide foi, em m/s, aproximadamente de
A)$7{,}5\cdot10^{-14}$.
B)$4{,}0\cdot10^{-4}$.
C)$2{,}1\cdot10^{4}$.
D)$5{,}3\cdot10^{5}$.
E)$1{,}4\cdot10^{13}$.
Gabarito
C
Resolução
Na aproximação máxima, o movimento do asteroide é perpendicular à linha que o liga à Terra. Nesse caso, a velocidade linear se relaciona com a velocidade angular medida da Terra por $v=\omega\,r$.
Com $\omega=4{,}0\cdot10^{-5}$ rad/s e $r=5{,}3\cdot10^{8}$ m: $v=4{,}0\cdot10^{-5}\times5{,}3\cdot10^{8}\approx2{,}1\cdot10^{4}$ m/s, cerca de 21 km/s.
A conta é direta; a figura apenas contextualiza o enunciado.
Q12
Mecânica — Dinâmica — Forças sobre o joão-teimoso e equilíbrio de corpo extenso
O joão-teimoso é um boneco que, deslocado de sua posição de equilíbrio, sempre volta a ficar em pé. Suponha que uma criança segure um joão-teimoso na posição da figura e logo em seguida o solte, sobre uma superfície horizontal.
Assinale a alternativa que melhor representa o esquema das forças que, com exceção das forças de atrito, atuam sobre o joão-teimoso deitado, imediatamente após ser solto pela criança.
A)
B)
C)
D)
E)
Gabarito
E
Resolução
Desprezando o atrito, só atuam o peso $\vec P$ e a normal $\vec N$, ambas verticais. Por isso as alternativas com uma seta horizontal (A e D) não servem, e a C, com duas setas para baixo e nenhuma normal, também não: o boneco está apoiado e a superfície o empurra para cima.
O peso age no centro de massa, que fica na parte esférica e pesada do boneco, à esquerda da figura. A normal age no ponto de contato com a superfície, que está mais à direita, sob a região do corpo entre a base e o pescoço. Assim, as duas forças verticais têm linhas de ação diferentes e formam um binário: a normal, aplicada à direita do centro de massa, produz um torque que gira o boneco no sentido de levantar a cabeça, e é isso que o faz voltar a ficar em pé.
A alternativa B coloca o peso deslocado para o lado do pescoço, longe do centro de massa, e inverteria o sentido do torque. Só a E mostra o peso no centro de massa (lado pesado) e a normal no ponto de contato.
Q13
Mecânica — Trabalho e energia — Potência e força motriz de quem caminha
De acordo com publicação médica especializada, uma pessoa caminhando à velocidade constante de 3,2 km/h numa pista plana horizontal consome, em média, 240 kcal em uma hora. Adotando 1,0 kcal = 4 200 J, pode-se afirmar que a potência desenvolvida pelo organismo e a força motriz exercida pelo solo, por meio do atrito, sobre os pés dessa pessoa valem, em média, aproximadamente,
A)280 W e 0 N.
B)280 W e 315 N.
C)1 400 W e 175 N.
D)1 400 W e 300 N.
E)2 000 W e 300 N.
Gabarito
B
Resolução
Potência: energia dividida pelo tempo. $P=\dfrac{240\times4\,200\ \text{J}}{3\,600\ \text{s}}=280$ W.
A velocidade é $v=3{,}2$ km/h $=\dfrac{3{,}2}{3{,}6}\approx0{,}89$ m/s. Como $P=F\,v$, a força motriz é $F=\dfrac{280}{0{,}89}\approx315$ N.
O resultado de 280 W já elimina as opções com potências de 1 400 W e 2 000 W. A força não pode ser nula, pois o solo é quem empurra a pessoa para a frente por atrito.
Q14
Hidrostática — Pressão — Garrafão invertido de bebedouro
No bebedouro doméstico representado na figura, a água do garrafão virado para baixo, de boca aberta, não vaza para o recipiente onde ele se apoia, devido à pressão atmosférica.
Cada vez que a torneirinha desse recipiente é aberta, há um momentâneo desequilíbrio de pressões, que permite a saída de água do bebedouro e a entrada de ar no garrafão, mas que logo se restabelece, assim que a torneirinha é fechada. Supondo constante a pressão atmosférica, pode-se afirmar que entre duas situações de equilíbrio em que o nível da água no garrafão diminui, a pressão do ar nele aprisionado
A)aumenta, porque a altura da água contida no garrafão diminui.
B)aumenta, porque o volume do ar contido no garrafão aumenta.
C)permanece constante, porque ela deve se igualar sempre à pressão atmosférica externa.
D)diminui, porque a altura da água contida no garrafão diminui.
E)diminui, porque o volume do ar contido no garrafão aumenta.
Gabarito
A
Resolução
Em equilíbrio, a pressão no nível da boca do garrafão (superfície livre da água no recipiente de baixo) é a atmosférica. Subindo até a superfície da água dentro do garrafão, essa pressão cai de $\rho g h$ (Stevin): $p_{ar}+\rho g h=p_{atm}$, onde $h$ é a altura da coluna de água dentro do garrafão acima do nível do recipiente.
Logo $p_{ar}=p_{atm}-\rho g h$. Quando o nível no garrafão diminui, $h$ diminui, e a pressão do ar aprisionado, que fica abaixo da atmosférica, se aproxima da atmosférica: aumenta.
A pressão do ar não é igual à atmosférica durante todo o processo: se fosse, a água escoaria livremente. Aumento de volume do ar não é a causa: entra ar novo no garrafão a cada abertura da torneira, e o argumento de Boyle não se aplica a uma massa de gás que muda.
Q15
Termologia — Propagação do calor — Irradiação solar e equilíbrio térmico
Quando se coloca ao sol um copo com água fria, as temperaturas da água e do copo aumentam. Isso ocorre principalmente por causa do calor proveniente do Sol, que é transmitido à água e ao copo, por
A)condução, e as temperaturas de ambos sobem até que a água entre em ebulição.
B)condução, e as temperaturas de ambos sobem continuamente enquanto a água e o copo continuarem ao sol.
C)convecção, e as temperaturas de ambos sobem até que o copo e a água entrem em equilíbrio térmico com o ambiente.
D)irradiação, e as temperaturas de ambos sobem até que o calor absorvido seja igual ao calor por eles emitido.
E)irradiação, e as temperaturas de ambos sobem continuamente enquanto a água e o copo continuarem a absorver calor proveniente do sol.
Gabarito
D
Resolução
Entre o Sol e a Terra há vácuo: só a radiação eletromagnética (irradiação) transporta energia. Condução e convecção exigem meio material.
O copo e a água também emitem radiação, e a taxa de emissão cresce com a temperatura. Eles esquentam enquanto absorvem mais do que emitem. Quando as duas taxas se igualam, a temperatura para de subir, e isso ocorre bem antes da ebulição da água.
Por isso, a temperatura não cresce indefinidamente: estabiliza num valor de equilíbrio dinâmico.
Q16
Óptica — Espelhos planos — Imagem em periscópio
Uma criança observa um passarinho com um periscópio composto de dois espelhos planos E, paralelos e inclinados de 45°, como está representado na figura. O ponto O representa o olho da criança e P o passarinho.
Pode-se afirmar que a imagem do passarinho vista pela criança, por meio desse periscópio, está localizada no ponto
A)P.
B)Q.
C)R.
D)S.
E)T.
Gabarito
C
Resolução
A luz de P reflete primeiro no espelho superior e depois no inferior, até chegar a O. Cada espelho forma uma imagem simétrica do objeto em relação ao seu plano.
A composição de duas reflexões em planos paralelos resulta numa translação do objeto, de módulo igual ao dobro da distância entre os planos e direção perpendicular a eles. Aqui os planos fazem 45° e os centros dos espelhos estão separados por 10 quadrados na vertical, o que dá uma distância de $10/\sqrt2$ quadrados entre os planos. A translação vale $2\times10/\sqrt2=10\sqrt2$ quadrados, na direção perpendicular aos espelhos.
Em componentes, isso equivale a deslocar a imagem 10 quadrados para a direita e 10 para baixo em relação a P. O ponto da figura nessa posição é onde o olho de O vê a imagem.
Q17
Ondulatória — Difração e interferência — CD como rede de difração
Quando se olha a luz branca de uma lâmpada incandescente ou fluorescente, refletida por um CD, pode-se ver o espectro contínuo de cores que compõem essa luz. Esse efeito ocorre nos CDs devido à
A)difração dos raios refratados nos sulcos do CD, que funcionam como uma rede de interferência.
B)polarização dos raios refletidos nos sulcos do CD, que funcionam como um polarizador.
C)reflexão dos raios refratados nos sulcos do CD, que funcionam como um prisma.
D)interferência dos raios refletidos nos sulcos do CD, que funcionam como uma rede de difração.
E)refração dos raios refletidos nos sulcos do CD, que funcionam como uma rede de prismas.
Gabarito
D
Resolução
Os sulcos do CD são trilhas muito próximas, com espaçamento da ordem do comprimento de onda da luz visível. Funcionam como uma rede de difração por reflexão.
A luz refletida por trilhas vizinhas interfere. Para cada comprimento de onda há direções de interferência construtiva, dadas por $d\,\text{sen}\,\theta=m\lambda$. Como $\theta$ depende de $\lambda$, as cores se separam e aparece o espectro.
Não há prisma (que separa por refração) nem polarização envolvida, e o efeito é visto na luz refletida, não refratada.
Q18
Óptica — Lentes — Vergência de lente líquida plano-convexa
Um livro de ciências ensina a fazer um microscópio simples com uma lente de glicerina. Para isso, com um furador de papel, faz-se um furo circular num pedaço de folha fina de plástico que, em seguida, é apoiada sobre uma lâmina de vidro. Depois, pingam-se uma ou mais gotas de glicerina, que preenchem a cavidade formada pelo furo, que se torna a base de uma lente líquida praticamente semi-esférica. Sabendo que o índice de refração absoluto da glicerina é 1,5 e que o diâmetro do furo é 5,0 mm, pode-se afirmar que a vergência dessa lente é de, aproximadamente,
A)+10 di.
B)–20 di.
C)+50 di.
D)–150 di.
E)+200 di.
Gabarito
E
Resolução
A gota é praticamente uma semiesfera: uma face plana (apoiada na lâmina) e outra convexa, de raio igual ao raio do furo, $R=\dfrac{5{,}0}{2}=2{,}5$ mm $=2{,}5\cdot10^{-3}$ m.
Pela equação dos fabricantes de lentes, no ar ($n_{ar}\approx1$): $V=(n-1)\left(\dfrac1{R_1}+\dfrac1{R_2}\right)$, com $R_1=R$ e $R_2\to\infty$ (face plana).
$V=0{,}5\times\dfrac{1}{2{,}5\cdot10^{-3}}=200$ di, positiva, pois a lente é convergente (bordas mais finas).
Q19
Eletricidade — Eletrodinâmica — Brilho em associação mista de lâmpadas
Na associação da figura, L1, L2 e L3 são lâmpadas idênticas de valores nominais 5,0 W; 12 V. A fonte de tensão contínua tem valores nominais 20 W; 12 V.
Ao ligar a chave C, observa-se que
A)todas as lâmpadas brilham com a mesma intensidade.
B)L2 e L3 têm o mesmo brilho, menos intenso do que o brilho de L1.
C)L2 e L3 têm o mesmo brilho, mais intenso do que o brilho de L1.
D)L1, L2 e L3 têm brilhos de intensidades decrescentes, nessa ordem.
E)L1, L2 e L3 têm brilhos de intensidades crescentes, nessa ordem.
Gabarito
B
Resolução
L2 e L3 estão em paralelo entre si, e esse conjunto está em série com L1. Sendo $R$ a resistência de cada lâmpada, a resistência total é $R+\dfrac R2=\dfrac{3R}{2}$.
Por L1 passa a corrente total $i$. Como L2 e L3 são idênticas e estão sob a mesma tensão, a corrente se divide em partes iguais: cada uma recebe $i/2$.
O brilho depende da potência dissipada, $P=R\,i^2$. Para L1: $P_1=Ri^2$. Para L2 e L3: $P=R\left(\dfrac i2\right)^2=\dfrac{Ri^2}{4}$, ou seja, um quarto de $P_1$ e iguais entre si.
Os valores nominais da fonte (20 W, 12 V) são suficientes para alimentar o circuito, de modo que não afetam essa comparação.
Q20
Magnetismo — Ímã e campo magnético — Solenoide e ímã sobre carrinho
A figura representa um solenoide, sem núcleo, fixo a uma mesa horizontal. Em frente a esse solenoide está colocado um ímã preso a um carrinho que pode se mover facilmente sobre essa mesa, em qualquer direção.
Estando o carrinho em repouso, o solenoide é ligado a uma fonte de tensão e passa a ser percorrido por uma corrente contínua cujo sentido está indicado pelas setas na figura. Assim, é gerado no solenoide um campo magnético que atua sobre o ímã e tende a mover o carrinho
A)aproximando-o do solenoide.
B)afastando-o do solenoide.
C)de forma oscilante, aproximando-o e afastando-o do solenoide.
D)lateralmente, para dentro do plano da figura.
E)lateralmente, para fora do plano da figura.
Gabarito
A
Resolução
Pela regra da mão direita aplicada ao sentido da corrente indicado, a extremidade do solenoide voltada para o ímã se comporta como um polo sul.
O ímã apresenta ao solenoide o seu polo norte. Polos diferentes se atraem, e a força é dirigida ao longo do eixo comum, que é a linha do movimento possível do carrinho.
A corrente é contínua, então a polaridade é fixa e não há oscilação. Também não há componente lateral: a força está sobre o eixo do solenoide, e o carrinho se desloca nessa direção.
Q36
Mecânica — Dinâmica — Caixote que escorrega na carroceria
Um caixote está em repouso, apoiado sobre a carroceria de um caminhão que percorre com velocidade constante um trecho plano, retilíneo e horizontal de uma estrada. Por alguns instantes, ainda nesse trecho de estrada, devido a uma alteração no movimento do caminhão, o caixote, apesar do atrito com a carroceria, escorrega para trás, mantendo-se porém na mesma direção da estrada.
a)
O que mudou no movimento do caminhão durante o escorregamento do caixote: acelerou, freou ou mudou de direção? Justifique.
Resposta O caminhão acelerou. Pela inércia, o caixote tende a manter a velocidade que tinha; para escorregar para trás em relação à carroceria, o caminhão precisa ter ganhado velocidade mais rápido do que o caixote.
b)
Represente esquematicamente, no caderno de respostas, o caixote apoiado na carroceria e as forças que atuam sobre o caixote antes (I) e durante (II) o seu escorregamento, considerando um referencial inercial fixado na estrada. Em cada esquema, indique com uma seta o sentido do movimento do caminhão e nomeie todas as forças representadas.
Resposta (I) Peso (para baixo) e normal (para cima), de mesmo módulo; sem atrito, pois a velocidade é constante. (II) Peso, normal e força de atrito cinético da carroceria sobre o caixote, horizontal e para a frente (no sentido do movimento do caminhão).
Resolução
a) No referencial da estrada, o caixote só recebe da carroceria o atrito horizontal. Se o caminhão se mantivesse com velocidade constante, o caixote não teria motivo para escorregar. Se o caminhão freasse, o caixote tenderia a escorregar para a frente. Escorregar para trás significa que a carroceria avançou mais do que o caixote: o caminhão acelerou. Mudar de direção está excluído, já que o movimento continua na mesma direção da estrada.
b) Em (I), velocidade constante e resultante nula: só atuam o peso $\vec P$ (vertical, para baixo) e a normal $\vec N$ (vertical, para cima), com $N=P$. Não há força de atrito, nem horizontal alguma.
Em (II), o caixote desliza para trás em relação à carroceria, então o atrito cinético $\vec F_{at}$ sobre ele aponta para a frente, oposto ao deslizamento relativo. Esse atrito é a única força horizontal e acelera o caixote para a frente, menos intensamente que o caminhão. Atuam, portanto, $\vec P$, $\vec N$ e $\vec F_{at}$, com $\vec F_{at}$ no mesmo sentido do movimento do caminhão.
Resposta: a) O caminhão acelerou. Pela inércia, o caixote tende a manter a velocidade que tinha; para escorregar para trás em relação à carroceria, o caminhão precisa ter ganhado velocidade mais rápido do que o caixote.; b) (I) Peso (para baixo) e normal (para cima), de mesmo módulo; sem atrito, pois a velocidade é constante. (II) Peso, normal e força de atrito cinético da carroceria sobre o caixote, horizontal e para a frente (no sentido do movimento do caminhão).
Q37
Mecânica — Gravitação — Gravidade em asteroide e energia da explosão
No filme Armageddon, para salvar a Terra do impacto de um gigantesco asteroide, a NASA envia a esse asteroide um grupo de perfuradores de petróleo. Lá, sem nenhuma experiência em atividades no espaço, trabalhando na superfície do asteroide como se estivessem na superfície da Terra, esses trabalhadores perfuram um poço no fundo do qual colocam um artefato nuclear de 9,0 megatons (cerca de $4{,}0\cdot10^{14}$ J). A explosão desse artefato dividiu o asteroide em duas metades de igual massa que, em relação ao asteroide, se deslocaram perpendicularmente à trajetória inicial de colisão, livrando a Terra do catastrófico impacto. A partir de outras informações fornecidas no filme e admitindo-se o asteroide esférico, é possível concluir que o seu raio seria de $6{,}5\cdot10^{5}$ m, a sua massa de $6{,}0\cdot10^{21}$ kg e cada uma das metades em que ele se dividiu na explosão deveria ter adquirido velocidade inicial mínima de $2{,}1\cdot10^{3}$ m/s, em relação ao centro de massa do asteroide, para que elas também não atingissem a Terra.
a)
Qual seria a aceleração da gravidade na superfície desse asteroide? O valor obtido está de acordo com o que descrevemos do filme? Justifique. Dado: constante da gravitação universal, $G = 6{,}7\cdot10^{-11}$ N·m²/kg².
Resposta $g=\dfrac{GM}{R^2}\approx0{,}95$ m/s², cerca de um décimo da gravidade da Terra. Não está de acordo com o filme, em que os trabalhadores se movem como se estivessem na Terra.
b)
A energia do artefato nuclear utilizado tinha o valor suficiente para separar o asteroide em duas metades e dar a elas a velocidade inicial necessária para livrar a Terra do choque? Justifique.
Resposta Não. Só a energia cinética das duas metades vale cerca de $1{,}3\cdot10^{28}$ J, muitas ordens de grandeza acima dos $4{,}0\cdot10^{14}$ J do artefato.
Resolução
a) Na superfície, o peso é a força gravitacional: $mg=\dfrac{GMm}{R^2}$, logo $g=\dfrac{GM}{R^2}=\dfrac{6{,}7\cdot10^{-11}\times6{,}0\cdot10^{21}}{(6{,}5\cdot10^{5})^2}=\dfrac{4{,}0\cdot10^{11}}{4{,}2\cdot10^{11}}\approx0{,}95$ m/s².
No filme, os personagens andam e trabalham "como se estivessem na superfície da Terra", com $g\approx10$ m/s². O valor obtido é cerca de dez vezes menor, então a descrição não é coerente: ali, um passo daria um impulso muito maior e seria fácil se desprender do solo.
b) Cada metade tem massa $m=3{,}0\cdot10^{21}$ kg e velocidade $2{,}1\cdot10^{3}$ m/s em relação ao centro de massa. A energia cinética total das duas é $E_c=2\cdot\dfrac12\,m v^2=3{,}0\cdot10^{21}\times(2{,}1\cdot10^{3})^2\approx1{,}3\cdot10^{28}$ J.
Além disso, seria preciso vencer a energia de ligação gravitacional que mantém o asteroide inteiro, da ordem de $\dfrac{3GM^2}{5R}\approx2\cdot10^{27}$ J. O total supera em cerca de 13 ordens de grandeza os $4{,}0\cdot10^{14}$ J do artefato. A energia é insuficiente.
Resposta: a) $g=\dfrac{GM}{R^2}\approx0{,}95$ m/s², cerca de um décimo da gravidade da Terra. Não está de acordo com o filme, em que os trabalhadores se movem como se estivessem na Terra.; b) Não. Só a energia cinética das duas metades vale cerca de $1{,}3\cdot10^{28}$ J, muitas ordens de grandeza acima dos $4{,}0\cdot10^{14}$ J do artefato.
Q38
Termodinâmica — Frequência de onda e transformação adiabática (sonoluminescência)
O gráfico mostra um ciclo de um fascinante fenômeno cuja explicação ainda desafia a física, a sonoluminescência: o volume de uma bolha de gás imersa num fluido é drasticamente reduzido devido à ação de uma onda sonora que se propaga nesse fluido e, ao atingir seu valor mínimo, a bolha emite um flash de luz. Logo em seguida, o volume da bolha oscila ligeiramente e o ciclo recomeça. Cada ciclo dá origem a um flash de alguns picossegundos – os ciclos podem se repetir muitas vezes, permitindo a observação do fenômeno durante alguns minutos.
a)
Determine, aproximadamente, a freqüência da onda sonora que se propaga no fluido.
Resposta Pelo gráfico, o período da onda sonora é de cerca de $40\cdot10^{-6}$ s, logo $f\approx2{,}5\cdot10^{4}$ Hz.
b)
Durante a contração de volume, a pressão interna do gás contido na bolha aumenta de $1{,}0\cdot10^{3}$ Pa para $2{,}0\cdot10^{8}$ Pa, quando o volume da bolha chega a seu valor mínimo, de cerca de $1{,}0\cdot10^{-12}$ m³. Essa contração é adiabática ou isotérmica? Justifique.
Resposta Adiabática. O produto $pV$ aumenta muito, o que só ocorre com aumento de temperatura, e a contração é rápida demais para trocar calor.
Resolução
a) A curva da onda sonora tem um mínimo em torno de $t\approx10\cdot10^{-6}$ s e um máximo em $t\approx30\cdot10^{-6}$ s. Do mínimo ao máximo passa meio período, de cerca de $20\cdot10^{-6}$ s. O período é $T\approx40\cdot10^{-6}$ s e $f=\dfrac1T\approx\dfrac{1}{4\cdot10^{-5}}=2{,}5\cdot10^{4}$ Hz (25 kHz, ultrassom).
b) Numa transformação isotérmica de gás ideal, $pV$ é constante. Aqui, ao fim da contração, $p_2V_2=2{,}0\cdot10^{8}\times1{,}0\cdot10^{-12}=2{,}0\cdot10^{-4}$ J. No início, o volume da bolha, lido do gráfico (raio de até $45\cdot10^{-6}$ m), é no máximo $V_1=\dfrac43\pi r^3\approx4\cdot10^{-13}$ m³, de modo que $p_1V_1\lesssim4\cdot10^{-10}$ J. O produto $pV$ cresce por um fator de cerca de $5\cdot10^{5}$, o que implica elevação enorme da temperatura ($pV=nRT$). Dito de outra forma, se a contração fosse isotérmica, o volume inicial seria $V_1=\dfrac{p_2V_2}{p_1}=\dfrac{2{,}0\cdot10^{-4}}{1{,}0\cdot10^{3}}=2{,}0\cdot10^{-7}$ m³, cerca de $10^{6}$ vezes maior que o máximo lido no gráfico. O processo não é isotérmico.
Além disso, a contração dura microssegundos e o gás não tem tempo de trocar calor com o líquido: $Q\approx0$. O gás é aquecido pelo trabalho da compressão, o que explica o flash. A transformação é adiabática.
Resposta: a) Pelo gráfico, o período da onda sonora é de cerca de $40\cdot10^{-6}$ s, logo $f\approx2{,}5\cdot10^{4}$ Hz.; b) Adiabática. O produto $pV$ aumenta muito, o que só ocorre com aumento de temperatura, e a contração é rápida demais para trocar calor.
Q39
Óptica — Lentes — Duas posições de imagem nítida
No quarto de um estudante há uma lâmpada incandescente localizada no teto, sobre a sua mesa. Deslocando uma lente convergente ao longo da vertical que passa pelo filamento da lâmpada, do tampo da mesa para cima, o estudante observa que é possível obter a imagem nítida desse filamento, projetada sobre a mesa, em duas alturas distintas. Sabendo que a distância do filamento da lâmpada ao tampo da mesa é de 1,5 m, que a distância focal da lente é de 0,24 m e que o comprimento do filamento é de 12 mm, determine:
a)
as alturas da lente em relação à mesa, nas quais essas duas imagens nítidas são obtidas.
Resposta A lente está a 0,30 m ou a 1,20 m acima da mesa.
b)
os comprimentos e as características das imagens do filamento obtidas.
Resposta Ambas são reais e invertidas: com a lente a 0,30 m da mesa, a imagem mede 48 mm (ampliada); com a lente a 1,20 m da mesa, mede 3 mm (reduzida).
Resolução
a) Sejam $p$ a distância da lâmpada à lente e $p'$ a da lente à mesa (a imagem se forma na mesa). Então $p+p'=1{,}5$ m, e pela equação de Gauss $\dfrac1p+\dfrac1{p'}=\dfrac1f$, isto é, $\dfrac{p+p'}{pp'}=\dfrac1{0{,}24}$.
Disso: $pp'=0{,}24\times1{,}5=0{,}36$ m². Os valores $p$ e $p'$ são raízes de $x^2-1{,}5x+0{,}36=0$, cujo discriminante é $2{,}25-1{,}44=0{,}81$: $x=\dfrac{1{,}5\pm0{,}9}{2}$, ou seja, $1{,}2$ m e $0{,}3$ m.
Como a imagem se forma na mesa, a altura da lente em relação à mesa é $p'$: 0,30 m (com $p=1{,}2$ m) ou 1,20 m (com $p=0{,}3$ m).
b) O aumento é $\dfrac{i}{o}=-\dfrac{p'}{p}$. Para $p'=1{,}2$ m e $p=0{,}3$ m: $i=-4\times12=-48$ mm, imagem real, invertida e ampliada. Para $p'=0{,}3$ m e $p=1{,}2$ m: $i=-0{,}25\times12=-3$ mm, imagem real, invertida e reduzida.
Resposta: a) A lente está a 0,30 m ou a 1,20 m acima da mesa.; b) Ambas são reais e invertidas: com a lente a 0,30 m da mesa, a imagem mede 48 mm (ampliada); com a lente a 1,20 m da mesa, mede 3 mm (reduzida).
Q40
Magnetismo — Campo magnético de corrente — Bússola sobre fio retilíneo
A figura representa uma bússola situada 2,0 cm acima de um fio condutor retilíneo, $\ell$, muito comprido. A agulha está orientada na direção do campo magnético terrestre local e ambos, agulha e fio, são paralelos e estão dispostos horizontalmente.
O fio é ligado a uma fonte de tensão contínua e passa a ser percorrido por uma corrente elétrica contínua de intensidade 3,0 A, no sentido sul-norte da Terra. Em conseqüência, a agulha da bússola gira de um ângulo $\theta$ em relação à direção inicial representada na figura.
a)
Qual a intensidade do campo magnético gerado pelo condutor, na altura onde se encontra a bússola e em que sentido ocorre o deslocamento angular da agulha: horário ou anti-horário? Justifique. Dado: permeabilidade magnética do ar, $\mu_0 = 4\pi\cdot10^{-7}$ T·m/A.
Resposta $B=3{,}0\cdot10^{-5}$ T. A agulha gira no sentido horário (visto de cima), pois o campo do fio aponta para o leste.
b)
Sabendo que a intensidade do campo magnético terrestre no local é $6{,}0\cdot10^{-5}$ T, determine a tangente do ângulo $\theta$.
Resposta $\operatorname{tg}\theta=0{,}5$.
Resolução
a) Para um fio retilíneo longo, $B=\dfrac{\mu_0 i}{2\pi d}=\dfrac{4\pi\cdot10^{-7}\times3{,}0}{2\pi\times2{,}0\cdot10^{-2}}=3{,}0\cdot10^{-5}$ T.
Pela regra da mão direita, com o polegar no sentido da corrente (sul→norte), os dedos indicam o sentido das linhas de campo. Num ponto acima do fio, o campo é horizontal e perpendicular ao fio, apontando para o leste. A agulha tende a se alinhar com o campo resultante, soma do campo terrestre (para o norte) com o do fio (para o leste), logo aponta para o nordeste. Visto de cima, com o norte na parte superior da figura, ela gira do norte para o leste: sentido horário.
b) Os dois campos são perpendiculares. A tangente do desvio é a razão entre o campo do fio e o terrestre: $\operatorname{tg}\theta=\dfrac{B_{fio}}{B_T}=\dfrac{3{,}0\cdot10^{-5}}{6{,}0\cdot10^{-5}}=0{,}5$.
Resposta: a) $B=3{,}0\cdot10^{-5}$ T. A agulha gira no sentido horário (visto de cima), pois o campo do fio aponta para o leste.; b) $\operatorname{tg}\theta=0{,}5$.