Unesp · 2009 — 2ª Fase — Questões de Física comentadas — Método TEF

Universidade Estadual Paulista

Vestibular 2009 · Prova de Conhecimentos Específicos — questões discursivas de Física.

Q11
Mecânica — Gravitação — Aceleração da gravidade em órbita

Desde maio de 2008 o IBAMA recebe imagens do ALOS (satélite de observação avançada da Terra) para monitorar o desmatamento na floresta Amazônica. O ALOS é um satélite japonês que descreve uma órbita circular a aproximadamente $700\text{ km}$ de altitude. São dados o raio e a massa da Terra, $r_T=6\,400\text{ km}$ e $M=6{,}0\cdot10^{24}\text{ kg}$, respectivamente, e a constante gravitacional, $G=6{,}7\cdot10^{-11}\text{ N}\cdot\text{m}^2/\text{kg}^2$.

Determine o módulo da aceleração da gravidade terrestre, em $\text{m/s}^2$, na altitude em que esse satélite se encontra.

Resultado esperado

Aproximadamente $8{,}0\text{ m/s}^2$.
Resolução comentada

A aceleração da gravidade a uma distância $r$ do centro da Terra é dada por:

$$g=\dfrac{GM}{r^2}$$

A distância ao centro da Terra é o raio terrestre somado à altitude:

$$r=6\,400+700=7\,100\text{ km}=7{,}1\times10^{6}\text{ m}$$

Substituindo os valores:

$$g=\dfrac{6{,}7\times10^{-11}\cdot6{,}0\times10^{24}}{(7{,}1\times10^{6})^2}=\dfrac{4{,}02\times10^{14}}{5{,}04\times10^{13}}\approx8{,}0\text{ m/s}^2$$

Q12
Mecânica — Estática — Equilíbrio de Torques

A figura mostra, em corte, um trator florestal “derrubador-amontoador” de massa $13\,000\text{ kg}$; $x$ é a abscissa de seu centro de gravidade (CG). A distância entre seus eixos, traseiro e dianteiro, é $DE=2{,}5\text{ m}$.

Trator florestal visto de lado, com o centro de gravidade CG; o ponto 1 está no contato do pneu traseiro com o solo, o ponto 2 no do pneu dianteiro, x é a distância de 1 até a vertical que passa por CG e DE é a distância entre 1 e 2.

Admita que $55\%$ do peso total do trator são exercidos sobre os pontos de contato dos pneus dianteiros com o solo (2) e o restante sobre os pontos de contato dos pneus traseiros com o solo (1). Determine a abscissa $x$ do centro de gravidade desse trator, em relação ao ponto 1.

Adote $g=10\text{ m/s}^2$ e dê a resposta com dois algarismos significativos.

Resultado esperado

$x\approx1{,}4\text{ m}$.
Resolução comentada

O peso do trator é $P=mg=13\,000\cdot10=1{,}3\times10^{5}\text{ N}$, e a normal nos pneus dianteiros (ponto 2) vale $N_2=0{,}55\,P$.

Como o trator está em equilíbrio, o torque resultante em relação a qualquer ponto é nulo. Tomando o ponto 1 como polo, a normal em 1 não produz torque:

$$N_2\cdot DE=P\cdot x$$

$$0{,}55\,P\cdot2{,}5=P\cdot x$$

$$x=0{,}55\cdot2{,}5\approx1{,}4\text{ m}$$

Observe que o resultado não depende da massa do trator, apenas da fração do peso sobre cada eixo.

Q13
Mecânica — Quantidade de Movimento — Impulso e força média

Buriti é uma palmeira alta, comum no Brasil central e no sul da planície amazônica. Um fruto do buriti – eles são pequenos e têm em média massa de $30\text{ g}$ − cai de uma altura de $20\text{ m}$ e pára, amortecido pelo solo (o buriti dá em solos fofos e úmidos). Suponha que na interação do fruto com o solo, sua velocidade se reduza até o repouso durante o tempo $\Delta t=0{,}060\text{ s}$. Considerando desprezível a resistência do ar, determine o módulo da força resultante média exercida sobre o fruto durante a sua interação com o solo.

Adote $g=10\text{ m/s}^2$.

Resultado esperado

$F_R=10\text{ N}$.
Resolução comentada

Na queda, a conservação da energia mecânica dá a velocidade com que o fruto atinge o solo:

$$mgh=\dfrac{mv^2}{2}\Rightarrow v=\sqrt{2gh}=\sqrt{2\cdot10\cdot20}=20\text{ m/s}$$

Na interação com o solo, o impulso da força resultante média é igual à variação da quantidade de movimento. Como o fruto para, a variação vale $0-mv$ e o módulo da resultante média é:

$$F_R\,\Delta t=m\,v\Rightarrow F_R=\dfrac{0{,}030\cdot20}{0{,}060}=10\text{ N}$$

Q14
Mecânica — Hidrostática — Empuxo e transformação isotérmica

As figuras mostram uma versão de um experimento – imaginado pelo filósofo francês René Descartes e bastante explorado em feiras de ciências – conhecido como ludião: um tubinho de vidro fechado na parte superior e aberto na inferior, emborcado na água contida em uma garrafa PET, fechada e em repouso. O tubinho afunda e desce quando a garrafa é comprimida e sobe quando ela é solta.

Figura 1: garrafa PET fechada cheia de água, com o tubinho de vidro emborcado em equilíbrio perto da superfície.

Na figura 1, o ludião está em equilíbrio estático, com um volume aprisionado de ar de $2{,}1\text{ cm}^3$, à pressão atmosférica $p_0=1{,}0\cdot10^{5}\text{ Pa}$. Com a garrafa fechada e comprimida, é possível mantê-lo em equilíbrio estático dentro d’água, com um volume de ar aprisionado de $1{,}5\text{ cm}^3$ (figura 2).

Figura 2: a mesma garrafa sendo comprimida pelas mãos; o tubinho está em equilíbrio mais abaixo, dentro da água.

Determine a massa do tubinho e a pressão do ar contido no ludião na situação da figura 2. Despreze o volume deslocado pelas paredes do tubinho; supõe-se que a temperatura ambiente permaneça constante.

Adote, para a densidade da água, $\rho_{\text{água}}=1{,}0\text{ g/cm}^3$.

Resultado esperado

Massa do tubinho: $2{,}1\text{ g}$; pressão do ar na figura 2: $1{,}4\times10^{5}\text{ Pa}$.
Resolução comentada

Massa do tubinho. Na figura 1 o conjunto está em equilíbrio, logo o peso é igual ao empuxo. Como o volume das paredes é desprezível, o volume de água deslocado é o do ar aprisionado, $V_1=2{,}1\text{ cm}^3$:

$$m\,g=\rho_{\text{água}}\,V_1\,g\Rightarrow m=1{,}0\cdot2{,}1=2{,}1\text{ g}$$

Pressão do ar na figura 2. A temperatura é constante, então vale a lei de Boyle para o ar aprisionado:

$$p_0V_1=p_2V_2\Rightarrow p_2=\dfrac{1{,}0\times10^{5}\cdot2{,}1}{1{,}5}=1{,}4\times10^{5}\text{ Pa}$$

Nota de fidelidade: o enunciado diz que o ludião permanece em equilíbrio com $1{,}5\text{ cm}^3$ de ar, mas só a massa e a lei de Boyle são pedidas; o item é resolvido exatamente como formulado, sem discutir o equilíbrio na figura 2.

Q15
Termologia — Calorimetria — Calorimetria e vaporização

Em um acampamento, um grupo de estudantes coloca $0{,}50\text{ L}$ de água, à temperatura ambiente de $20\,{}^{\circ}\mathrm{C}$, para ferver, em um lugar onde a pressão atmosférica é normal. Depois de $5{,}0\text{ min}$, observam que a água começa a ferver, mas distraem-se, e só tiram a panela do fogão depois de mais $10\text{ min}$, durante os quais a água continuou fervendo. Qual a potência calorífica do fogão e o volume de água contido na panela ao final desses $15\text{ min}$ de aquecimento?

Despreze o calor perdido para o ambiente e o calor absorvido pelo material de que é feita a panela; suponha que o fogão forneça calor com potência constante durante todo tempo. Adote para a densidade da água: $\rho_{\text{água}}=1{,}0\text{ kg/L}$.

São dados: calor específico da água: $c_{\text{água}}=4{,}2\cdot10^{3}\text{ J/(kg}\cdot{}^{\circ}\mathrm{C})$; calor latente de vaporização da água: $L_{\text{água}}=2{,}3\cdot10^{6}\text{ J/kg}$.

Dê a resposta com dois algarismos significativos.

Resultado esperado

Potência: $5{,}6\times10^{2}\text{ W}$; volume final: $0{,}35\text{ L}$.
Resolução comentada

A massa inicial de água é $m=\rho V=1{,}0\cdot0{,}50=0{,}50\text{ kg}$.

Potência. Nos primeiros $5{,}0\text{ min}$ ($300\text{ s}$) a água é aquecida de $20\,{}^{\circ}\mathrm{C}$ até $100\,{}^{\circ}\mathrm{C}$ (pressão normal):

$$Q_1=m\,c\,\Delta\theta=0{,}50\cdot4{,}2\times10^{3}\cdot80=1{,}68\times10^{5}\text{ J}$$

$$P=\dfrac{Q_1}{\Delta t_1}=\dfrac{1{,}68\times10^{5}}{300}=5{,}6\times10^{2}\text{ W}$$

Volume final. Nos $10\text{ min}$ ($600\text{ s}$) seguintes a água ferve, e todo o calor fornecido vaporiza parte dela:

$$Q_2=P\,\Delta t_2=560\cdot600=3{,}36\times10^{5}\text{ J}$$

$$m_{\text{vap}}=\dfrac{Q_2}{L}=\dfrac{3{,}36\times10^{5}}{2{,}3\times10^{6}}\approx0{,}15\text{ kg}$$

Restam $0{,}50-0{,}15=0{,}35\text{ kg}$ de água, ou seja, $0{,}35\text{ L}$.

Q16
Óptica — Refração — Prisma e desvio mínimo

A figura representa o gráfico do desvio ($\delta$) sofrido por um raio de luz monocromática que atravessa um prisma de vidro imerso no ar, de ângulo de refringência $A=50^{\circ}$, em função do ângulo de incidência $\theta_1$.

Gráfico do desvio delta em graus em função do ângulo de incidência theta 1: curva com mínimo em delta igual a 30 graus; para um mesmo desvio delta maior há dois ângulos de incidência, theta 1 e theta 2.

É dada a relação $\delta=\theta_1+\theta_2-A$, em que $\theta_1$ e $\theta_2$ são, respectivamente, os ângulos de incidência e de emergência do raio de luz ao atravessar o prisma (pelo princípio da reversibilidade dos raios de luz, é indiferente qual desses ângulos é de incidência ou de emergência, por isso há no gráfico dois ângulos de incidência para o mesmo desvio $\delta$).

Determine os ângulos de incidência ($\theta_1$) e de emergência ($\theta_2$) do prisma na situação de desvio mínimo, em que $\delta_{\text{mín}}=30^{\circ}$.

Resultado esperado

$\theta_1=\theta_2=40^{\circ}$.
Resolução comentada

No gráfico, o desvio mínimo ocorre no vértice da curva, onde os dois ângulos de incidência que dão o mesmo desvio se encontram. Portanto, nessa situação, o ângulo de incidência e o de emergência são iguais:

$$\theta_1=\theta_2=\theta$$

Usando a relação dada com $\delta_{\text{mín}}=30^{\circ}$ e $A=50^{\circ}$:

$$30^{\circ}=2\theta-50^{\circ}\Rightarrow\theta=40^{\circ}$$

Assim, tanto o ângulo de incidência quanto o de emergência valem $40^{\circ}$.

Q17
Óptica — Lentes — Câmera fotográfica e ampliação

O Landsat 7 é um satélite de sensoriamento remoto que orbita a $700\text{ km}$ da superfície da Terra. Suponha que a menor área da superfície que pode ser fotografada por esse satélite é de $30\text{ m}\times30\text{ m}$, correspondente a um pixel, elemento unitário da imagem conjugada no sensor óptico da sua câmara fotográfica. A lente dessa câmara tem distância focal $f=5{,}0\text{ cm}$. Supondo que os pixels sejam quadrados, qual o comprimento dos lados de cada quadrado?

Resultado esperado

Aproximadamente $2{,}1\times10^{-6}\text{ m}$ (cerca de $2\,\mu\text{m}$).
Resolução comentada

A distância do objeto à lente é $p=700\text{ km}=7{,}0\times10^{5}\text{ m}$, muito maior que a distância focal $f=5{,}0\times10^{-2}\text{ m}$. Pela equação de Gauss:

$$\dfrac1f=\dfrac1p+\dfrac1{p_i}\Rightarrow p_i=\dfrac{pf}{p-f}\approx f$$

Ou seja, a imagem se forma praticamente sobre o plano focal. Pela proporção entre imagem e objeto:

$$\dfrac{i}{o}=\dfrac{p_i}{p}\Rightarrow i=30\cdot\dfrac{5{,}0\times10^{-2}}{7{,}0\times10^{5}}\approx2{,}1\times10^{-6}\text{ m}$$

Cada lado do pixel no sensor mede cerca de $2{,}1\ \mu\text{m}$.

Q18
Eletricidade — Eletrodinâmica — Rigidez dielétrica e resistência elétrica

As constantes físicas da madeira são muito variáveis e dependem de inúmeros fatores. No caso da rigidez dielétrica ($E$) e da resistividade elétrica ($\rho$), são valores aceitáveis $E=5{,}0\cdot10^{5}\text{ V/m}$ e $\rho=5{,}0\cdot10^{4}\ \Omega\cdot\text{m}$, respectivamente, para madeiras com cerca de $20\%$ de umidade.

Considere um palito de madeira de $6{,}0\text{ cm}$ de comprimento e uma tora de madeira aproximadamente cilíndrica, de $4{,}0\text{ m}$ de comprimento e área média de seção normal $S=0{,}20\text{ m}^2$. Calcule a diferença de potencial mínima necessária para que esse palito se torne condutor e a resistência elétrica dessa tora de madeira, quando percorrida por uma corrente ao longo do seu comprimento.

Resultado esperado

Diferença de potencial mínima: $3{,}0\times10^{4}\text{ V}$; resistência da tora: $1{,}0\times10^{6}\ \Omega$.
Resolução comentada

Diferença de potencial no palito. A madeira passa a conduzir quando o campo elétrico atinge a rigidez dielétrica. Com campo uniforme, $U=E\,d$:

$$U=5{,}0\times10^{5}\cdot0{,}060=3{,}0\times10^{4}\text{ V}$$

Resistência da tora. Pela segunda lei de Ohm:

$$R=\rho\,\dfrac{L}{S}=5{,}0\times10^{4}\cdot\dfrac{4{,}0}{0{,}20}=1{,}0\times10^{6}\ \Omega$$

Q19
Eletromagnetismo — Força Magnética — Efeito Hall

Na figura, uma placa quadrada de lado $L=2{,}0\text{ cm}$, de material condutor, é percorrida por uma corrente elétrica no sentido $y$ crescente. Ao aplicarmos um campo magnético constante de módulo $B=0{,}80\text{ T}$, os portadores de carga em movimento, que originam a corrente de intensidade $i$, são deslocados provocando um acúmulo de cargas positivas na borda de trás e negativas na da frente, até que a diferença de potencial entre essas bordas se estabilize com valor $\Delta V=4{,}0\cdot10^{-7}\text{ V}$, o que resulta em um campo elétrico uniforme na direção $x$, decorrente dessa separação de cargas, que compensa o efeito defletor do campo magnético. Esse fenômeno é conhecido como efeito Hall.

Placa condutora quadrada de lado 2,0 cm percorrida por corrente i no sentido y; campo magnético B na direção z, perpendicular à placa; cargas positivas acumuladas na borda de trás, negativas na da frente, com a tensão delta V entre elas; eixos x, y e z indicados.

Determine o módulo do vetor campo elétrico $\vec E$, gerado na direção $x$, e o módulo da média das velocidades dos portadores de carga na direção $y$.

Resultado esperado

$E=2{,}0\times10^{-5}\text{ V/m}$; $v=2{,}5\times10^{-5}\text{ m/s}$.
Resolução comentada

Campo elétrico. A tensão $\Delta V$ está entre as bordas separadas pela largura $L$ da placa, na direção $x$. Para campo uniforme:

$$E=\dfrac{\Delta V}{L}=\dfrac{4{,}0\times10^{-7}}{2{,}0\times10^{-2}}=2{,}0\times10^{-5}\text{ V/m}$$

Velocidade dos portadores. Quando a tensão se estabiliza, a força elétrica compensa a força magnética sobre cada portador de carga $q$:

$$qE=qvB\Rightarrow v=\dfrac{E}{B}=\dfrac{2{,}0\times10^{-5}}{0{,}80}=2{,}5\times10^{-5}\text{ m/s}$$

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