OBF 2004

3ª fase · 3ª série

Olimpíada Brasileira de Física · 8 questões discursivas · arquivo histórico.

Q01
Pêndulo cônico em contato — Normal na superfície cônica

Um pêndulo cônico de comprimento L e massa m realiza um movimento circular uniforme no interior de uma superfície cônica, que não apresenta atrito quando tocada pela massa, como representado na figura. A geratriz do cone da superfície forma um ângulo θo com a vertical. (a) Qual a menor velocidade da massa do pêndulo que a faz tocar a superfície? (b) Calcule a força que a superfície exerce sobre a massa do pêndulo se a sua velocidade for maior que aquela mínima.

Pêndulo de comprimento L no interior de cone invertido; geratriz faz θ₀ com a vertical e fio faz θ antes de tocar a superfície.

Resposta TEF: a) vmin = √(gL sen²θ₀/cosθ₀). b) N = m cosθ₀(v² − vmin²)/(L senθ₀).

Resolução comentada · Método TEF

Antes do contato, o pêndulo descreve uma circunferência de raio L senθ. No primeiro contato, θ = θ₀ e a normal ainda é zero.

$$T\cos\theta_0=mg$$

$$T\sin\theta_0=\frac{mv_{min}^2}{L\sin\theta_0}$$

$$v_{min}=\sqrt{\frac{gL\sin^2\theta_0}{\cos\theta_0}}$$

Em contato com a face interna do cone invertido, a normal aponta para dentro e para baixo. Projete as forças radial e verticalmente:

$$T\sin\theta_0+N\cos\theta_0=\frac{mv^2}{L\sin\theta_0}$$

$$T\cos\theta_0-N\sin\theta_0=mg$$

Eliminando T:

$$N=\frac{mv^2\cos\theta_0}{L\sin\theta_0}-mg\sin\theta_0$$

$$N=\frac{m\cos\theta_0}{L\sin\theta_0}(v^2-v_{min}^2)$$

A expressão fica positiva precisamente para v maior que o limiar, como exige uma força de contato repulsiva.

Q02
Cunha móvel — Tempo de deslizamento de bloco finito

Um bloco em forma de paralelepípedo de arestas d, d e d/2 é colocado na parte superior de um outro bloco em forma de cunha, de arestas d, 3d e 4d, feito do mesmo material, como representado na figura. Na ausência de atrito entre as superfícies dos blocos e entre a base da cunha e o plano horizontal, encontre o tempo de queda do paralelepípedo até tocar o plano horizontal na forma √(id/jg), onde i e j são números inteiros e g é a aceleração da gravidade.

Cunha triangular de largura d, altura 3d e base 4d; bloco de comprimento d sobre a rampa, largura d e espessura d/2, com aresta traseira inicialmente no topo.

Resposta TEF: t = √(824d/65g), para a posição e as dimensões da figura.

Resolução comentada · Método TEF

Os dois sólidos têm a mesma densidade ρ. O volume do bloco é d³/2 e o da cunha triangular é 6d³.

$$m=\frac12\rho d^3$$

$$M=6\rho d^3=12m$$

$$\sin\theta=\frac35$$

$$\cos\theta=\frac45$$

Se s é o deslocamento do bloco relativo à cunha e X é o deslocamento horizontal da cunha, a conservação do momento horizontal fornece:

$$(M+m)\ddot X+m\ddot s\cos\theta=0$$

Projetando a segunda lei no plano inclinado:

$$\ddot s+\ddot X\cos\theta=g\sin\theta$$

$$\ddot s=\frac{(M+m)g\sin\theta}{M+m\sin^2\theta}=\frac{65}{103}g$$

O comprimento da rampa é 5d. Pela posição inicial desenhada, a aresta traseira do bloco coincide com o topo e a dianteira já está d abaixo ao longo da rampa; faltam 4d para a dianteira tocar o chão.

$$4d=\frac12\frac{65g}{103}t^2$$

$$t=\sqrt{\frac{824d}{65g}}$$

O bloco parte do repouso, permanece orientado como na figura e se translada até o primeiro contato com o plano horizontal. Tratá-lo como um ponto situado no topo mudaria a distância e o tempo.

Q03
Dilatação e empuxo — Deslocamento de esfera presa a mola

Uma bola de chumbo de volume Vo = 1000 cm³ a 25 °C está em equilíbrio submersa em uma cuba cheia de mercúrio e presa ao seu fundo por uma mola de constante elástica k = 250 N/m, como representado na figura. A densidade do mercúrio a 25 °C é de 13,6 g/cm³. A temperatura do conjunto é, então, elevada de 200 °C. Sabendo-se que o coeficiente de dilatação linear do chumbo é 2,9 × 10⁻⁵ °C⁻¹ e que o coeficiente de dilatação volumétrica do mercúrio é 1,8 × 10⁻⁴ °C⁻¹, qual o valor do deslocamento da bola de chumbo e em que sentido ela se desloca?

Esfera de chumbo totalmente mergulhada em mercúrio e presa por mola de constante 250 N/m ao fundo da cuba.

Resposta TEF: Aproximadamente 9,8 mm para baixo; cerca de 1,0 cm na aproximação de primeira ordem.

Resolução comentada · Método TEF

Resolução TEF: os dados fornecem aproximadamente 9,8 mm para baixo. O comentário de questão idêntica na prova da 1ª e 2ª séries publica 1,0 mm, valor dez vezes menor.

O volume inicial é 10⁻³ m³ e a densidade inicial do mercúrio é 13600 kg/m³. O coeficiente volumétrico do chumbo é aproximadamente três vezes o linear.

$$\beta_{Pb}=3\alpha_{Pb}=8{,}7\times10^{-5}\ \mathrm{^{\circ}C^{-1}}$$

$$E_0=13600(10)(10^{-3})=136\ \mathrm N$$

Ao aquecer 200 °C, o volume da esfera aumenta e a densidade do mercúrio diminui.

$$E_f=E_0\frac{1+\beta_{Pb}\Delta T}{1+\beta_{Hg}\Delta T}$$

$$E_f=136\frac{1{,}0174}{1{,}036}\approx133{,}56\ \mathrm N$$

O peso permanece constante. A variação da tração da mola é a própria variação do empuxo.

$$\Delta x=\frac{E_f-E_0}{250}\approx-9{,}77\times10^{-3}\ \mathrm m$$

A esfera desce aproximadamente 9,8 mm. Na aproximação de primeira ordem, obtém-se cerca de 10,1 mm. Desprezam-se mudanças térmicas da mola e da geometria de sua fixação.

Q04
Refração em esfera — Índice e convergência de feixe

Um feixe luminoso de raios paralelos e seção reta circular incide horizontalmente sobre um recipiente de vidro esférico de 20 cm de raio e de paredes bem finas, cheio de um líquido transparente, de maneira que as retas que ligam os pontos do contorno da calota iluminada por ele ao centro do vaso formam um cone, cuja geratriz faz com a horizontal um ângulo de 45°, como mostrado na figura. Sabendo que quando o feixe atinge o lado oposto do receptáculo este ângulo é de 15°, calcule:

a) o coeficiente de refração do líquido;

b) a que distância do recipiente os raios luminosos vão se encontrar. Desconsidere no cone de 15° a curvatura do vaso. A sua resposta pode ser dada em termos de funções trigonométricas.

Feixe paralelo entra na esfera de raio 20 cm; normais nos limites da calota de entrada fazem 45° com o eixo e as da saída fazem 15°.

Resposta TEF: a) n = √2. b) 20√3 sen15° cm ≈ 8,97 cm do plano da calota de saída, na aproximação pedida.

Resolução comentada · Método TEF

Considere um raio na borda superior do feixe. As posições radiais de entrada e saída fazem 135° e 15° com o eixo horizontal positivo. A corda que as une faz −15° com esse eixo. Assim, o ângulo de incidência na entrada é 45° e o de refração é 30°.

$$n=\frac{\sin45^\circ}{\sin30^\circ}=\sqrt2$$

Na saída, a incidência interna também é 30°. Pela reversibilidade e pela lei de Snell, a refração no ar é de 45° com a normal, e o raio emergente faz 30° abaixo da horizontal.

$$h=R\sin15^\circ$$

$$\ell=\frac{h}{\tan30^\circ}$$

Desprezando a curvatura da calota de saída, conforme a aproximação pedida, a distância ao plano de saída é:

$$\ell=20\sqrt3\sin15^\circ\ \mathrm{cm}\approx8{,}97\ \mathrm{cm}$$

Se a superfície esférica for conservada e a distância for medida a partir do vértice mais à direita do recipiente, subtraia a flecha da calota:

$$\ell_{vert}=R\left(\cos15^\circ-1+\frac{\sin15^\circ}{\tan30^\circ}\right)\approx8{,}28\ \mathrm{cm}$$

As duas distâncias usam referências geométricas diferentes; a primeira corresponde ao plano de saída adotado na aproximação do enunciado.

Q05
Interferômetro de Michelson — Comprimento de onda por deslocamento de franjas

Um interferômetro de Michelson, diagramado simplificadamente abaixo, é ajustado até que se possa observar franjas de interferência, produzidas com luz monocromática. A luz sai da fonte e atinge a lâmina semi-espelhada, parte dela prossegue em direção ao espelho E2 e parte é refletida em direção ao espelho E1. Ambos os feixes são refletidos pelos espelhos e retornam à lâmina semiespelhada. Parte da luz proveniente de E1 atravessa a lâmina em direção ao observador e parte da luz oriunda de E2 é refletida, também em direção ao observador. Da superposição dos dois feixes de luz é que se originam as franjas de interferência, como ilustrado no diagrama abaixo: Movendo-se o espelho E1, observa-se uma sucessão de deslocamentos das franjas (cada deslocamento correspondendo a um ciclo claro-escuro-claro, por exemplo). Se o espelho móvel moveu-se 0,010mm e observaram-se 40 deslocamentos das franjas, qual é o comprimento de onda da luz?

Interferômetro de Michelson: lâmina semiespelhada divide o feixe entre espelho móvel E₁ e fixo E₂, recombinando os retornos para o observador; franjas concêntricas.
Interferômetro de Michelson: lâmina semiespelhada divide o feixe entre espelho móvel E₁ e fixo E₂, recombinando os retornos para o observador; franjas concêntricas.

Resposta TEF: 500 nm.

Resolução comentada · Método TEF

Deslocar um espelho de Δx muda o caminho de ida e volta em 2Δx. Cada ciclo completo das franjas corresponde a uma variação de caminho igual a um comprimento de onda.

$$N\lambda=2\Delta x$$

$$\lambda=\frac{2(0{,}010)}{40}\ \mathrm{mm}$$

$$\lambda=0{,}00050\ \mathrm{mm}=500\ \mathrm{nm}$$

O fator dois decorre da reflexão no espelho móvel, não do número de feixes na recombinação.

Q06
Circuito RC — Tempos, carga e energia do capacitor

Um circuito RC é um caso particular de um circuito elétrico contendo apenas uma resistência e um capacitor. Considere um desses circuitos em que os dois componentes são ligados a uma fonte e a duas chaves que podem permitir ou não a passagem de corrente nos ramos do circuito. No caso do capacitor totalmente descarregado, ao fecharmos somente a chave A, este começará a se carregar. A função que rege o carregamento do capacitor, nessa circunstância, é Q(t) = CV (1 – e–t/RC). Quando o capacitor estiver completamente carregado com uma determinada carga Qo, abre-se a chave A e fecha-se chave B, iniciando-se a descarga do capacitor. Nesse caso, a relação entre a carga Q no capacitor e o tempo é dada pela função: Q(t) = Q0 e-t/RC. Sendo assim:

a) Qual a relação entre os tempos para se carregar o capacitor até metade de sua carga máxima e o tempo para descarregar o mesmo capacitor a partir de sua carga máxima até metade da mesma?

b) Em que instante ocorre o maior valor de corrente no circuito quando o capacitor está sendo carregado? Considerando V = 20 V, R = 50 Ω e C = 5 µF, qual a carga armazenada no capacitor quando a corrente no circuito for i = 0,1 A?

c) Para os valores do item

b) qual a energia máxima liberada na descarga desse capacitor?

Fonte V, resistor R e capacitor C; chave A permite carga pela fonte e chave B fecha o circuito de descarga pelo resistor.

Resposta TEF: a) Razão 1. b) Corrente máxima em t = 0; Q = 75 µC quando i = 0,10 A. c) 1,0 mJ.

Resolução comentada · Método TEF

Na carga até metade do valor máximo, a função dada fornece:

$$\frac12=1-e^{-t_c/(RC)}$$

$$t_c=RC\ln2$$

Na descarga da carga máxima até a metade:

$$\frac12=e^{-t_d/(RC)}$$

$$t_d=RC\ln2$$

$$\frac{t_c}{t_d}=1$$

A maior corrente de carga ocorre no instante inicial, quando a tensão do capacitor é nula.

$$i_{max}=\frac VR=\frac{20}{50}=0{,}40\ \mathrm A$$

Quando i = 0,10 A, a queda no resistor vale 5 V e restam 15 V no capacitor.

$$U_C=V-Ri=20-50(0{,}10)=15\ \mathrm V$$

$$Q=CU_C=5(15)=75\ \mathrm{\mu C}$$

A energia máxima armazenada, liberada na descarga completa ideal pelo resistor, é:

$$E_{max}=\frac12CV^2=\frac12(5\times10^{-6})(20)^2=1{,}0\times10^{-3}\ \mathrm J$$

O capacitor só chega à carga máxima exatamente no limite de tempo infinito do modelo exponencial.

Q07
Indução e lei de Lenz — Anel que salta ao ligar eletroímã

Um anel de alumínio é colocado em torno do núcleo de ferro de um eletromagneto, como ilustrado no desenho. Ao se ligar a chave, o anel pula a uma certa altura. Explique esse fenômeno.

Anel de alumínio ao redor da extremidade superior do núcleo de eletroímã ligado a bateria por uma chave.

Resposta TEF: A variação do fluxo na ligação induz corrente no anel; a força magnética repulsiva dá o impulso que o faz saltar.

Resolução comentada · Método TEF

Ao fechar a chave, a corrente no eletroímã cresce e aumenta o fluxo magnético através do anel condutor. A variação do fluxo induz uma corrente no alumínio.

Pela lei de Lenz, essa corrente cria um campo que se opõe ao aumento do fluxo imposto. A interação entre a corrente induzida e o campo não uniforme próximo à extremidade do núcleo exerce uma força para cima, afastando o anel da região de campo mais intenso.

Durante o transitório de ligação, o impulso pode superar o efeito do peso e lançar o anel. A energia mecânica vem da fonte elétrica. Com corrente contínua já estabilizada e anel parado, o fluxo não varia e a corrente induzida desaparece; o salto não implica levitação permanente.

Q08
Movimento em campos cruzados — Velocidade mínima entre placas

Na experiência de Thompson, um campo elétrico e um campo magnético uniformes são acoplados perpendicularmente de forma que um feixe de elétrons com velocidade v passa pela linha média das duas placas sem sofrer deflexão, como ilustrado na figura. Considere a seguinte situação: fixa-se a intensidade do campo elétrico e o valor do campo magnético é ajustado para que o feixe de elétrons ao passar pelas placas não sofra deflexão. Mantido então o campo magnético nessa magnitude, desliga-se o campo elétrico. Qual deve ser o valor mínimo da velocidade para que o feixe emerja do outro lado das placas?

Feixe entra horizontalmente na linha média de placas de comprimento L e separação d; campo elétrico para baixo e magnético entrando na página.

Resposta TEF: Para d ≤ 2L: vmin = (eB/m)(L²/d + d/4); limite aproximado eBL²/(md) se d ≪ L.

Resolução comentada · Método TEF

Com os dois campos ligados e forças canceladas, o feixe selecionado tem velocidade E/B. Ao desligar somente o campo elétrico, a força magnética curva o movimento sem mudar a rapidez.

$$v_{sel}=\frac EB$$

$$r=\frac{mv}{eB}$$

O elétron entra na linha média, a d/2 de cada placa. No arco que avança ao longo das placas, a deflexão após percorrer a projeção horizontal L é:

$$y(L)=r-\sqrt{r^2-L^2}$$

Na configuração usual, d ≤ 2L. O limiar corresponde a tangenciar a borda de saída:

$$r-\sqrt{r^2-L^2}=\frac d2$$

$$r_{min}=\frac{L^2}{d}+\frac d4$$

$$v_{min}=\frac{eB}{m}\left(\frac{L^2}{d}+\frac d4\right)$$

Se d for muito menor que L, pode-se desprezar d/4. Para não tocar a borda, a rapidez deve superar estritamente o limiar. O feixe originalmente selecionado emerge se E/B satisfizer essa condição.

Para a geometria menos usual d > 2L, a condição de alcançar x = L domina: r deve ser ao menos L, dando limiar eBL/m. Aqui e é o módulo da carga e m é a massa do elétron.

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