OBF 2007

2ª fase · 3ª série

Olimpíada Brasileira de Física · 8 questões discursivas · arquivo histórico.

Q01
Bloco sobre tábua — Limiar de deslizamento e queda

Um bloco de massa m encontra-se sobre uma tábua de massa M e comprimento ℓ que repousa sobre uma superfície horizontal. Despreze o atrito entre a tábua e a superfície e considere que existe atrito entre o bloco e a tábua, com coeficientes de atrito estático e cinético, respectivamente iguais a μₑ e μc. Em um determinado instante é aplicada uma força horizontal F, sobre a tábua, conforme mostra a figura 1.

a) Qual deve ser o valor de F para que o bloco comece a deslizar sobre a tábua?

b) Encontre o tempo t que o bloco levará para cair da tábua.

Bloco m inicialmente junto da extremidade direita da tábua de comprimento ℓ, puxada para a direita por F.

Resposta TEF: a) Desliza para F > μe(M+m)g. b) t = √{2Mℓ/[F−μc(M+m)g]}, no modelo de bloco puntiforme.

Resolução comentada · Método TEF

Enquanto não há deslizamento, o conjunto acelera a F/(M+m), e o atrito deve fornecer ma ao bloco.

$$\frac{mF}{M+m}\leq\mu_e mg$$

$$F_{lim}=\mu_e(M+m)g$$

Para F maior que esse limiar, o bloco desliza e as acelerações são:

$$a_m=\mu_cg$$

$$a_M=\frac{F-\mu_cmg}{M}$$

$$a_{rel}=a_M-a_m=\frac{F-\mu_c(M+m)g}{M}$$

Na aproximação de bloco puntiforme inicialmente na extremidade indicada, a tábua avança ℓ relativamente a ele antes da queda.

$$t=\sqrt{\frac{2M\ell}{F-\mu_c(M+m)g}}$$

Se a distância efetiva até a borda for diferente de ℓ por causa do tamanho do bloco, deve-se substituí-la por essa distância.

Q02
Pêndulo lançado da horizontal — Componente vertical da aceleração

Um corpo de massa m, preso a uma corda de comprimento ℓ e de massa desprezível, é abandonado da posição horizontal A, como mostra a figura 2. Desprezando forças dissipativas e considerando que o sistema encontra-se num campo gravitacional de módulo g, pergunta-se:

a) Em quais pontos da trajetória o vetor aceleração do corpo terá componente vertical com sentido para baixo? E com sentido para cima?

b) Determine o ângulo θ para o qual o vetor aceleração estará na direção horizontal.

Pêndulo abandonado da horizontal A, passa pelo fundo B e sobe até C; θ contado desde a vertical.

Resposta TEF: Para baixo se |θ| > 54,7°; para cima se |θ| < 54,7°. Horizontal nos dois pontos |θ| = arccos(1/√3).

Resolução comentada · Método TEF

Meça θ em relação à vertical para baixo e adote y positivo para cima. A conservação de energia dá:

$$v^2=2g\ell\cos\theta$$

Na direção radial:

$$T_f-mg\cos\theta=\frac{mv^2}{\ell}$$

$$T_f=3mg\cos\theta$$

Logo a componente vertical da aceleração é:

$$a_y=\frac{T_f\cos\theta-mg}{m}=g(3\cos^2\theta-1)$$

Ela aponta para baixo nas partes superiores, |θ| > arccos(1/√3), e para cima perto do fundo, |θ| < arccos(1/√3). O limite de aceleração horizontal é:

$$|\theta|=\arccos\frac1{\sqrt3}\approx54{,}7^\circ$$

Há dois pontos simétricos da trajetória com essa condição.

Q03
Conversão de diagrama VT para PV — Ciclo de gás ideal

N moles de um gás ideal realiza um processo cíclico 1 → 2 → 3 → 1 mostrado no diagrama Volume (V) contra Temperatura (T) da figura 3.

a) Esboce o desenho de um diagrama equivalente da Pressão (P) contra Volume (V).

b) Descreva e explique as situações em que o sistema absorve calor ou perde calor.

Ciclo VT com expansão isobárica 1→2, resfriamento isocórico 2→3 e compressão isotérmica 3→1.

Resposta TEF: a) Expansão isobárica, resfriamento isocórico e compressão isotérmica no plano PV. b) Recebe calor em 1→2; perde em 2→3 e 3→1.

Resolução comentada · Método TEF

No trecho 1→2, V/T é constante, pois a reta passa pela origem: trata-se de expansão isobárica. No trecho 2→3, V é constante e T diminui: resfriamento isocórico. No trecho 3→1, T = T₁: compressão isotérmica.

No plano PV, 1→2 é uma horizontal para a direita; 2→3 é uma vertical para baixo; 3→1 é uma hipérbole que sobe para a esquerda.

$$P_1=P_2=\frac{NRT_1}{V_1}=\frac{NRT_2}{V_2}$$

$$P_3=\frac{NRT_1}{V_2}

Na expansão isobárica o gás recebe calor (ΔU > 0 e W > 0). No resfriamento isocórico perde calor (W = 0, ΔU < 0). Na compressão isotérmica de gás ideal perde calor (ΔU = 0 e W < 0, logo Q < 0).

Ciclo no plano PV: expansão isobárica, resfriamento isocórico e retorno isotérmico. Esboço sem escala.
Ciclo no plano PV: expansão isobárica, resfriamento isocórico e retorno isotérmico. Esboço sem escala.
Q04
Compressão adiabática — Lei de Poisson e temperatura absoluta

Um gás ideal sob pressão de 3 atm, temperatura de 327 °C e ocupando um volume de 9 litros, sofre um processo adiabático, atingindo um volume de 1 litro. Considere que o expoente de Poisson para este gás é γ = 1,5. Determine a pressão e a temperatura do gás após o processo.

Resposta TEF: 81 atm e 1800 K (1527 °C).

Resolução comentada · Método TEF

A temperatura inicial é 600 K. Em uma adiabática de gás ideal com γ constante:

$$p_f=p_i\left(\frac{V_i}{V_f}\right)^\gamma$$

$$p_f=3(9)^{1{,}5}=81\ \mathrm{atm}$$

$$T_f=T_i\left(\frac{V_i}{V_f}\right)^{\gamma-1}$$

$$T_f=600\sqrt9=1800\ \mathrm K$$

$$T_f=1527\ ^\circ\mathrm C$$

A redução de volume é uma compressão; pressão e temperatura aumentam mesmo sem calor trocado.

Q05
Onda em corda tensa — Velocidade, comprimento de onda e nova frequência

Uma corda tem uma das extremidades fixa enquanto a outra apresenta um movimento transversal de freqüência 5 Hz. A corda tem 20 m de comprimento, massa total de 0,5 kg e está esticada com uma tensão de 1000 N.

a) Qual a velocidade da onda e o seu comprimento de onda?

b) Se a tensão na corda for duplicada, qual deverá ser a nova freqüência do movimento para que o comprimento de onda permaneça constante?

Resposta TEF: a) 200 m/s e 40 m. b) 5√2 Hz ≈ 7,07 Hz.

Resolução comentada · Método TEF

A densidade linear da corda é:

$$\mu=\frac{0{,}5}{20}=0{,}025\ \mathrm{kg/m}$$

$$v=\sqrt{\frac{1000}{0{,}025}}=200\ \mathrm{m/s}$$

$$\lambda=\frac{200}{5}=40\ \mathrm m$$

Duplicar a tensão multiplica a rapidez por √2. Para conservar λ, a frequência precisa mudar pelo mesmo fator.

$$f'=5\sqrt2\ \mathrm{Hz}\approx7{,}07\ \mathrm{Hz}$$

A frequência é determinada pelo movimento da extremidade; ela não muda espontaneamente quando a tensão muda, devendo ser ajustada como pede o item.

Q06
Lente composta — Índices por comprimento de onda e velocidade

Um feixe de luz, cujo comprimento de onda no ar vale λ = 600 nm , ao penetrar em um material 1 tem seu comprimento de onda alterado para 400 nm . Esse mesmo feixe, ao penetrar no material 2, tem sua velocidade alterada para v₂ = 1,5 × 10⁸ m/s. Com o material 1 constróise uma lente plano-convexa de raio de curvatura igual a 40 cm, enquanto que com o material 2 é construída uma lente plano-côncava com raio de mesma magnitude. Em seguida, as partes planas das duas lentes são coladas uma na outra, formando uma única lente. Considerando que o índice de refração do ar seja n = 1 e que a velocidade da luz no vácuo seja c = 3 × 10⁸ m/s, determine:

a) A distância focal desta lente.

b) Se um objeto de 5 cm de altura estiver a 20 cm da lente, qual será a altura da imagem? Ela será real ou virtual?

Resposta TEF: a) −80 cm. b) Imagem de 4 cm, virtual e direita.

Resolução comentada · Método TEF

A frequência da luz não muda ao atravessar os materiais.

$$n_1=\frac{600}{400}=1{,}5$$

$$n_2=\frac{3\times10^8}{1{,}5\times10^8}=2$$

Para raio de 40 cm e lentes delgadas no ar:

$$f_1=\frac{40}{1{,}5-1}=80\ \mathrm{cm}$$

$$f_2=-\frac{40}{2-1}=-40\ \mathrm{cm}$$

$$\frac1f=\frac1{80}-\frac1{40}=-\frac1{80}$$

$$f=-80\ \mathrm{cm}$$

Com p = 20 cm:

$$q=\frac{fp}{p-f}=-16\ \mathrm{cm}$$

$$h'=-\frac qp h=\frac{16}{20}(5)=4\ \mathrm{cm}$$

A imagem é virtual, direita e reduzida.

Q07
Resistências por custo de energia — Associações série e paralelo

Duas lâmpadas incandescentes são ligadas em série e, ao submeter a associação a uma tensão de 250 V durante 1000 horas, a empresa concessionária irá cobrar R$150,00 pelo uso. Associando as lâmpadas em paralelo e submetendo-as à tensão de 120 V, o custo pelas mesmas 1000 horas será de R$144,00. Sabendo que a empresa cobra R$0,60 por kW h (impostos e taxas incluídos), determine:

a) O valor das resistências.

b) As potências dissipadas em cada lâmpada, para cada associação.

Resposta TEF: a) 100 Ω e 150 Ω. b) Série: 100 W e 150 W; paralelo: 144 W e 96 W, respectivamente.

Resolução comentada · Método TEF

O preço e a duração permitem recuperar as potências totais.

$$P_s=\frac{150/0{,}60}{1000}=0{,}250\ \mathrm{kW}=250\ \mathrm W$$

$$R_1+R_2=\frac{250^2}{250}=250\ \Omega$$

$$P_p=\frac{144/0{,}60}{1000}=0{,}240\ \mathrm{kW}=240\ \mathrm W$$

$$R_p=\frac{120^2}{240}=60\ \Omega$$

$$R_1R_2=60(250)=15000\ \Omega^2$$

As raízes de R²−250R+15000 = 0 são 100 Ω e 150 Ω. Em série a corrente é 1 A, dando potências 100 W e 150 W. Em paralelo:

$$P_{100}=\frac{120^2}{100}=144\ \mathrm W$$

$$P_{150}=\frac{120^2}{150}=96\ \mathrm W$$

O caderno trata as resistências como constantes; filamentos incandescentes reais variam com a temperatura.

Q08
Carga e mola — Equilíbrio imposto e oscilação após remoção da carga

Sobre um plano horizontal sem atrito há, no ponto O, uma pequena esfera de massa m e carga q, presa a uma mola ideal de constante elástica desconhecida k e não distendida (). Colocando uma carga puntiforme q2 = –12 q fixa, a uma distância 4 d de O, a esfera se desloca para o ponto A, que está à distância 3 d de O, ficando o sistema em equilíbrio. Considerando que a mola obedece a lei de Hooke, determine:

a) A constante da mola k.

b) A energia potencial eletrostática do sistema de cargas nesta situação de equilíbrio.

c) Após certo tempo retira-se subitamente a carga q2 e, devido à força de restituição da mola, a esfera passa a oscilar. Determine o período de oscilação da esfera.

d) Calcule a energia mecânica total do sistema esfera – mola.

Mola inicialmente sem deformação com esfera em O; carga fixa −12q está a 4d e A está a 3d de O.

Resposta TEF: a) k = 4keq²/d³. b) Ue = −12keq²/d. c) T = π√[md³/(keq²)]. d) Em = 18keq²/d.

Resolução comentada · Método TEF

No ponto A, a mola está alongada de 3d e as cargas estão separadas por d. Igualando os módulos das forças:

$$k(3d)=\frac{12k_e q^2}{d^2}$$

$$k=\frac{4k_e q^2}{d^3}$$

$$U_e=-\frac{12k_e q^2}{d}$$

Retirada a carga fixa e supondo que a esfera esteja em repouso em A, a amplitude é 3d.

$$T=2\pi\sqrt{\frac mk}=\pi\sqrt{\frac{md^3}{k_e q^2}}$$

$$E_m=\frac12k(3d)^2=\frac{18k_e q^2}{d}$$

O equilíbrio eletrostático em A é instável: a atração cresce mais rapidamente que a restauração para um pequeno avanço. A frase se desloca e fica em equilíbrio deve ser entendida como estado preparado, não como chegada espontânea e repouso a partir de O sem dissipação ou intervenção.

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