OBF 2007

3ª fase · 1ª e 2ª séries

Olimpíada Brasileira de Física · 20 questões discursivas · arquivo histórico.

Q01
Arco circular e lançamento — Reações de apoio e ponto de queda

Um bloco de massa m = 0,1 kg desliza para baixo sobre uma superfície sem atrito como mostra a figura. O bloco parte do repouso de uma altura h = 2,5 R acima da base do loop circular, onde R = 40 cm é o raio do loop. Considere θ = 60° .

a) Qual é a força que a superfície exerce sobre o bloco na base (ponto A)? E no ponto B, onde acaba a superfície?

b) A que distância do ponto A o bloco atinge a superfície horizontal?

Bloco desce altura h = 2,5R até A e sai em B no arco circular, a θ = 60° da vertical para baixo.

Resposta TEF: a) NA = 6,0 N e NB = 4,5 N imediatamente antes da saída. b) (4+3√3)/5 m ≈ 1,84 m de A.

Resolução comentada · Método TEF

Use R = 0,40 m, h = 2,5R = 1,0 m e m = 0,10 kg. Na base A, a conservação de energia e a equação radial dão:

$$v_A^2=2gh=20\ \mathrm{m^2/s^2}$$

$$N_A=mg+\frac{mv_A^2}{R}=6\ \mathrm N$$

Em B, o raio faz 60° com a vertical para baixo. Sua altura é R(1−cos 60°) = 0,20 m.

$$v_B^2=2g(1{,}0-0{,}2)=16$$

$$N_B=\frac{mv_B^2}{R}+mg\cos60^\circ=4{,}5\ \mathrm N$$

N_B é o apoio imediatamente antes do fim da pista; depois da saída ele é zero. Na saída tangencial, vₓ = 2 m/s e vᵧ = 2√3 m/s. Tome A como origem horizontal.

$$x_B=\frac{\sqrt3}{5}\ \mathrm m$$

$$0=0{,}20+2\sqrt3\,t-5t^2$$

$$t=\frac{\sqrt3+2}{5}\ \mathrm s$$

$$x_f=\frac{4+3\sqrt3}{5}\ \mathrm m\approx1{,}84\ \mathrm m$$

O alcance é contado desde A, não apenas desde a projeção de B.

Q02
Explosão no ápice — Alcance do fragmento e ganho de energia

Um projétil de massa m = 0,1 kg é lançado a um ângulo de 30° com a horizontal e com uma velocidade de 500 m/s. No ponto mais alto da trajetória ele explode em dois fragmentos iguais, A e B. Suponha que o fragmento B, imediatamente após a explosão, cai verticalmente a partir do repouso.

a) A que distância do ponto de lançamento cai o fragmento A, supondo-se o solo horizontal?

b) Calcule a diferença entre a energia mecânica do sistema, imediatamente após e imediatamente antes da explosão.

Resposta TEF: a) 18750√3 m ≈ 32,5 km desde o lançamento. b) Aumento de 9375 J.

Resolução comentada · Método TEF

A componente horizontal inicial é 250√3 m/s e a vertical, 250 m/s. O ápice é atingido em 25 s.

$$x_{apice}=6250\sqrt3\ \mathrm m$$

O fragmento B para instantaneamente; o momento horizontal conserva-se na explosão e as massas finais são iguais.

$$v_{Ax}=2(250\sqrt3)=500\sqrt3\ \mathrm{m/s}$$

Ambos começam a queda com componente vertical nula e gastam mais 25 s até o solo.

$$x_A=6250\sqrt3+500\sqrt3(25)=18750\sqrt3\ \mathrm m$$

Imediatamente antes da explosão, a energia cinética é:

$$K_i=\frac12(0{,}1)(250\sqrt3)^2=9375\ \mathrm J$$

Depois, K_f = 2K_i; as posições e a energia gravitacional não mudam durante o evento idealizado.

$$\Delta E_m=K_f-K_i=9375\ \mathrm J$$

A energia adicional vem da energia interna liberada na explosão.

Q03
Dois pontos à mesma altura — Lançamento de alcance máximo

Um projétil é disparado obliquamente com uma velocidade vo tal que ele passa por dois pontos, ambos a uma altura h acima da horizontal. Se a arma é ajustada para o alcance máximo, determine o valor d da separação dos dois pontos, em termos de vo, g e h.

Resposta TEF: d = (v₀/g)√(v₀²−4gh), com 0 ≤ h ≤ v₀²/(4g).

Resolução comentada · Método TEF

Para alcance máximo sobre terreno horizontal, o ângulo de lançamento é 45°. A altura em função do tempo é:

$$h=\frac{v_0}{\sqrt2}t-\frac12gt^2$$

As duas raízes diferem por:

$$\Delta t=\frac{\sqrt{2v_0^2-8gh}}{g}$$

A componente horizontal é constante e vale v₀/√2.

$$d=\frac{v_0}{\sqrt2}\Delta t=\frac{v_0}{g}\sqrt{v_0^2-4gh}$$

Há dois pontos distintos para 0 ≤ h < v₀²/(4g). Na altura máxima, os dois coincidem e d = 0.

Q04
Pêndulo e colisão elástica — Recuo da esfera e parada do bloco

Uma esfera de aço de massa m1 = 200 g, está presa à extremidade de uma corda de comprimento l = 45 cm, e que tem fixa a outra extremidade. A esfera é abandonada sob a ação de seu peso quando a corda está na horizontal. No ponto mais baixo de sua trajetória a esfera colide elasticamente com um bloco de aço de massa m2 = 1,8 kg, inicialmente em repouso, sobre uma superfície horizontal, cujo coeficiente de atrito vale μ = 0,2.

a) Qual a velocidade dos corpos imediatamente após a colisão?

b) Quanto o bloco se desloca sobre a superfície horizontal até atingir o repouso?

Resposta TEF: a) Esfera: −2,4 m/s; bloco: +0,60 m/s, no eixo do movimento inicial. b) 9,0 cm.

Resolução comentada · Método TEF

A queda do pêndulo converte mgℓ em energia cinética.

$$v_0=\sqrt{2g\ell}=\sqrt{2(10)(0{,}45)}=3\ \mathrm{m/s}$$

Na colisão elástica frontal entre 0,2 kg e 1,8 kg:

$$v_1=\frac{0{,}2-1{,}8}{0{,}2+1{,}8}(3)=-2{,}4\ \mathrm{m/s}$$

$$v_2=\frac{2(0{,}2)}{0{,}2+1{,}8}(3)=0{,}60\ \mathrm{m/s}$$

O bloco depois para por atrito.

$$d=\frac{v_2^2}{2\mu g}=\frac{0{,}60^2}{2(0{,}2)(10)}=0{,}090\ \mathrm m$$

A esfera recua; o sinal negativo não significa rapidez negativa.

Q05
Contato em semicircunferência vertical — Velocidade mínima de entrada

Um corpo de massa m é lançado do ponto A com velocidade vo e se desloca segundo a curva ABCDE mostrada na figura 2, onde o trecho BCD é uma semicircunferência de raio r = 10 cm e a distância AB vale 30 cm. Determinar o menor valor de v0 para o qual o corpo se deslocará sobre a curva e permanecerá sempre em contato com a mesma.

Pista interior ABCDE: AB = 30 cm e semicircunferência BCD de raio 10 cm.

Resposta TEF: 3,0 m/s, no modelo sem dissipação.

Resolução comentada · Método TEF

O ponto mais alto C é o mais crítico para o contato com a pista interior. No limite N_C = 0:

$$\frac{mv_C^2}{r}=mg$$

$$v_C^2=gr$$

A altura de A a C é AB + r = 0,30 + 0,10 = 0,40 m.

$$v_A^2=v_C^2+2g(0{,}40)$$

$$v_{A,min}=\sqrt{1+8}=3\ \mathrm{m/s}$$

Usa-se ausência de dissipação como hipótese do modelo da pista; sem essa hipótese, perdas adicionais exigiriam velocidade maior.

Q06
Impulso com mudança de direção — Velocidades perpendiculares
Exclusiva da 1ª série no caderno original

Uma partícula de massa m = 0,5 kg tem velocidade inicial horizontal de 6 m/s. Ao receber um impulso de uma força F constante, modifica sua velocidade para 8 m/s, em direção perpendicular à inicial, num intervalo de tempo Δt = 0,1 s.

a) Qual a intensidade do impulso da força F?

b) Qual a intensidade da força F?

Resposta TEF: a) 5 N·s. b) 50 N.

Resolução comentada · Método TEF

As velocidades inicial e final são perpendiculares. A variação vetorial tem módulo:

$$|\Delta\vec v|=\sqrt{6^2+8^2}=10\ \mathrm{m/s}$$

$$J=m|\Delta\vec v|=0{,}5(10)=5\ \mathrm{N\,s}$$

$$F=\frac{J}{\Delta t}=\frac5{0{,}1}=50\ \mathrm N$$

Subtrair apenas os módulos 8−6 ignoraria a mudança de direção.

Q07
Mola presa fora do centro — Mesma rapidez no topo e no fundo

Um anel de massa m = 40 g está preso a uma mola e desliza sem atrito ao longo de um fio circular de raio R = 10 cm, situado num plano vertical. A outra extremidade da mola é presa ao ponto P que se encontra a 2 cm do centro O da circunferência (veja figura 3). Calcule a constante elástica da mola para que a velocidade do anel seja a mesma nos pontos B e D, sabendo que ela não está deformada quando o anel estiver na posição B.

Anel no círculo vertical: B topo, D fundo, O centro e P a 2 cm acima de O; mola presa em P.

Resposta TEF: 100 N/m.

Resolução comentada · Método TEF

O ponto de fixação P está 2 cm acima de O. No topo B, a mola tem comprimento natural 8 cm; no fundo D seu comprimento é 12 cm. A deformação em D é 4 cm.

$$mg(2R)=\frac12k(0{,}04)^2$$

$$0{,}040(10)(0{,}20)=\frac12k(0{,}04)^2$$

$$k=100\ \mathrm{N/m}$$

As energias cinéticas nos dois pontos são iguais e se cancelam. A reação do fio circular é perpendicular ao deslocamento e não realiza trabalho.

Q08
Macaco hidráulico ideal — Força, deslocamento e potência

Num macaco hidráulico os êmbolos apresentam áreas iguais a 10 cm² e 60 cm². Uma força de 40 N é aplicada no êmbolo menor, deslocando-o de 30 cm, em um tempo t = 10 s.

a) Qual a intensidade da força transmitida para o êmbolo maior?

b) Nesse intervalo de tempo, qual o deslocamento sofrido pelo êmbolo maior?

c) Qual a potência da força aplicada no êmbolo maior?

Macaco hidráulico com dois êmbolos de áreas 10 e 60 cm².

Resposta TEF: a) 240 N. b) 5,0 cm. c) 1,2 W.

Resolução comentada · Método TEF

A pressão adicional é comum aos dois êmbolos.

$$F_2=40\frac{60}{10}=240\ \mathrm N$$

Conservando volume deslocado:

$$\Delta x_2=30\frac{10}{60}=5\ \mathrm{cm}=0{,}05\ \mathrm m$$

$$P=\frac{F_2\Delta x_2}{t}=\frac{240(0{,}05)}{10}=1{,}2\ \mathrm W$$

O ganho de força é compensado pelo deslocamento menor: a energia não é amplificada.

Q09
Esfera entre parede e rampa lisas — Duas reações normais

Uma esfera de massa m está apoiada numa parede vertical sem atrito e mantida nessa posição por um plano inclinado, também sem atrito, que forma um ângulo θ com o plano horizontal. Calcular as reações da parede e do plano sobre a esfera.

Esfera entre parede vertical e plano inclinado liso de ângulo θ.

Resposta TEF: Parede: mg tan θ. Plano: mg/cos θ.

Resolução comentada · Método TEF

A reação do plano inclinado faz ângulo θ com a vertical. Sua componente vertical sustenta a esfera.

$$N_p\cos\theta=mg$$

$$N_p=\frac{mg}{\cos\theta}$$

A parede equilibra a componente horizontal dessa reação.

$$N_w=N_p\sin\theta=mg\tan\theta$$

Como os dois contatos são lisos, não há forças tangenciais de atrito.

Q10
Bloco em rampa com duas trações — Força horizontal e normal
Exclusiva da 1ª série no caderno original

Na figura os corpos possuem massas m1 = 100 kg e m2 = 10 kg. Considere desprezível o atrito nos planos e nas polias. A corda AC é horizontal e a corda DB é paralela ao plano.

a) Calcule o peso P necessário para manter o sistema em equilíbrio

b) Determine a reação do plano sobre o corpo 1.

Bloco de 100 kg em rampa de 30°, puxado horizontalmente à esquerda por massa de 10 kg e paralelamente à rampa por peso P.

Resposta TEF: a) 500+50√3 N ≈ 586,6 N. b) 500√3−50 N ≈ 816 N.

Resolução comentada · Método TEF

O corpo de 10 kg estabelece tração horizontal de 100 N. No bloco de 100 kg sobre rampa de 30°, a tração P precisa equilibrar as componentes descendentes.

$$P=1000\sin30^\circ+100\cos30^\circ$$

$$P=500+50\sqrt3\ \mathrm N\approx586{,}6\ \mathrm N$$

A força horizontal para a esquerda tem componente que afasta o bloco do plano.

$$N=1000\cos30^\circ-100\sin30^\circ$$

$$N=500\sqrt3-50\ \mathrm N\approx816\ \mathrm N$$

As polias ideais transmitem as trações sem multiplicação neste esquema.

Q11
Encontro após aceleração e MRU — Carro e caminhão
Exclusiva da 1ª série no caderno original

Um motorista espera o sinal de trânsito abrir. Quando a luz verde acende, o carro é acelerado uniformemente durante 6 s, na razão de 2 m/s², após o que ele passa a ter velocidade constante. No instante em que o carro começou a se mover, ele foi ultrapassado por um caminhão movendo-se no mesmo sentido com velocidade uniforme de 10 m/s. Após quanto tempo e a que distância da posição de partida do carro os dois veículos se encontrarão novamente?

Resposta TEF: 18 s após a partida, a 180 m da posição inicial.

Resolução comentada · Método TEF

Nos primeiros seis segundos, o carro percorre:

$$x_c=\frac12(2)(6)^2=36\ \mathrm m$$

$$v_c=2(6)=12\ \mathrm{m/s}$$

O caminhão percorre 60 m e fica 24 m adiante. Depois, a velocidade de aproximação é 2 m/s.

$$\Delta t=\frac{24}{12-10}=12\ \mathrm s$$

$$t_{encontro}=6+12=18\ \mathrm s$$

$$x_{encontro}=10(18)=180\ \mathrm m$$

O encontro calculado supondo aceleração eterna só seria válido se ocorresse dentro dos primeiros seis segundos, o que não acontece.

Q12
Aceleração perpendicular à velocidade inicial — Trajetória no plano

Uma bola movendo-se inicialmente a 6 m/s, no sentido positivo do eixo y fica, durante 4 s, sob a ação de uma força que causa uma aceleração de 2 m/s², no sentido positivo do eixo x. Determine:

a) O módulo e a direção da velocidade final da bola;

b) A equação da sua trajetória e esboce o gráfico y = y(x) .

c) O deslocamento sofrido pela bola no intervalo de tempo de 4 s.

Resposta TEF: a) 10 m/s, a 36,9° acima de +x. b) y = 6√x no SI. c) Δr = (16,24) m, módulo 8√13 m.

Resolução comentada · Método TEF

Com a origem no lançamento, vₓ₀ = 0 e vᵧ₀ = 6 m/s.

$$v_x(4)=2(4)=8\ \mathrm{m/s}$$

$$v_y(4)=6\ \mathrm{m/s}$$

$$|v_f|=\sqrt{8^2+6^2}=10\ \mathrm{m/s}$$

$$\tan\theta=\frac68=\frac34$$

A direção final é 36,9° acima de +x. As posições são x = t² e y = 6t, no SI.

$$y=6\sqrt{x}\quad(t\geq0)$$

$$\Delta\vec r=(16,24)\ \mathrm m$$

$$|\Delta\vec r|=8\sqrt{13}\ \mathrm m\approx28{,}84\ \mathrm m$$

A trajetória é o ramo superior de uma parábola com eixo horizontal, pois x = y²/36.

Trajetória da bola, com origem na posição inicial.
Trajetória da bola, com origem na posição inicial.
Q13
Balão que sobe do lago — Expansão isotérmica e sustentação no ar

Um balão está no fundo de um lago de 90 m de profundidade e para trazê-lo à superfície começa a ser preenchido, por meio de uma bomba, com um hipotético gás ideal, cuja densidade é menor que a densidade do ar. O volume deste balão se altera de maneira que a pressão interna do gás seja igual à pressão média externa. Num determinado instante, quando o seu volume é V0, ele é desconectado da bomba, começa a subir e escapa da água. Considere que a massa do balão, incluindo a massa do gás, é de 10 kg e que as variações de temperatura são desprezíveis. Determine o menor volume V0 que faz com que o balão não retorne ao lago. (obs.:. Para fins de cálculo, despreze a diferença da pressão externa entre a base e o topo do balão)

Resposta TEF: Valor limiar V₀ = 1,0 m³; para empuxo estritamente maior que o peso no ar, V₀ > 1,0 m³.

Resolução comentada · Método TEF

No fundo, a pressão é atmosférica mais a coluna de 90 m de água.

$$p_0=10^5+1000(10)(90)=10^6\ \mathrm{Pa}$$

Na atmosfera, o volume limiar precisa deslocar 10 kg de ar de densidade 1 kg/m³.

$$V_{ar,min}=\frac{10}{1}=10\ \mathrm{m^3}$$

Pela expansão isotérmica:

$$p_0V_0=p_{atm}V_{ar}$$

$$V_{0,min}=\frac{10^5(10)}{10^6}=1\ \mathrm{m^3}$$

Esse é um valor limiar de sustentação estática. Para subir com empuxo estritamente maior que o peso depois de sair da água, seria necessário V₀ > 1 m³. Desprezam-se inércia da passagem, arrasto e variação da massa.

Q14
Dilatação em faixas de temperatura — Produto de expansões sucessivas
Exclusiva da 1ª série no caderno original

A conhecida fórmula de dilatação térmica, na qual o comprimento de uma barra varia linearmente com a temperatura só é exata se a variação de temperatura não for grande. Para grandes variações de temperatura esta fórmula perde precisão e pode levar a erros grosseiros. Contudo, podemos, mesmo assim, utilizar esta fórmula para grandes variações se admitirmos que o coeficiente de dilatação térmica varie com a temperatura, ou melhor, que este coeficiente permanece constante em uma determinada faixa de temperatura e tome outro valor em outra faixa. Suponha que uma barra, construída com material cujo coeficiente de dilatação α varie com a temperatura como mostrado na figura 7, tenha comprimento L0 à temperatura T0.

a) Qual o comprimento da barra na temperatura T4?

b) Se, ao invés do procedimento anterior, admitirmos que o valor α é o mesmo para todas as temperatura (e igual ao valor médio dos coeficientes de temperatura apresentados no gráfico) qual seria o comprimento da barra à temperatura T4?

Coeficiente α em quatro patamares α₁ a α₄ entre temperaturas T₀ e T₄.

Resposta TEF: a) L₀Πᵢ(1+αᵢΔTᵢ). b) L₀[1+ᾱ(T₄−T₀)], com ᾱ a média adotada; para média de primeira ordem e faixas desiguais, use ponderação por ΔTᵢ.

Resolução comentada · Método TEF

Defina ΔTᵢ = Tᵢ−Tᵢ₋₁. Ao aplicar a fórmula linear separadamente em cada faixa, o comprimento de entrada da faixa seguinte é o resultado da anterior.

$$L_4=L_0\prod_{i=1}^{4}(1+\alpha_i\Delta T_i)$$

Com a média aritmética simples dos quatro coeficientes, como na comparação pedida:

$$\bar\alpha=\frac{\alpha_1+\alpha_2+\alpha_3+\alpha_4}{4}$$

$$L_{media}=L_0[1+\bar\alpha(T_4-T_0)]$$

Se as faixas tiverem larguras diferentes, a média que reproduz a soma de primeira ordem é ponderada pelas larguras, não a média aritmética. Mesmo com faixas iguais, o produto contém termos de ordem superior ausentes na expressão linear única. A lei diferencial exata com α definido por dL/(L dT) levaria à exponencial de uma integral; o produto aqui é o procedimento aproximado solicitado.

Q15
Máquina térmica e condução — Potência e fusão de gelo

Uma máquina térmica tem rendimento 20% menor do que uma máquina de Carnot que opera entre as temperaturas T1 = 300 K e T2 = 600 K. A quantidade de calor por unidade de tempo recebida pela máquina é igual à que ocorre quando uma parede de 10 cm de espessura, área de 2 m² e condutividade térmica de 50 W/(m K) é submetida a uma diferença de temperatura de 500 K.

a) Determine a potência desta máquina.

b) Que quantidade de gelo a – 20 °C seria possível derreter usando a quantidade de calor descartada pela máquina, durante um tempo de 10 minutos?

Resposta TEF: a) 200 kW. b) Aproximadamente 484 kg, para redução relativa de 20% no rendimento.

Resolução comentada · Método TEF

O rendimento de Carnot é 1−300/600 = 0,50. Vinte por cento menor, como redução relativa, significa 0,8 × 0,50 = 0,40.

$$\dot Q_q=\frac{kA\Delta T}{e}=\frac{50(2)(500)}{0{,}10}=500000\ \mathrm W$$

$$P=0{,}40(500000)=200000\ \mathrm W$$

$$\dot Q_f=500000-200000=300000\ \mathrm W$$

Em dez minutos, a energia descartada é 180 MJ. Cada quilograma de gelo a −20 °C requer aquecimento e fusão.

$$q_{kg}=2100(20)+330000=372000\ \mathrm{J/kg}$$

$$m=\frac{180\times10^6}{372000}\approx483{,}9\ \mathrm{kg}$$

Os 20% não são vinte pontos percentuais: essa outra leitura daria rendimento 0,30 e resultados diferentes.

Q16
Expansões isobárica e adiabática — Trabalho e energia interna do hélio

Certa quantidade de hélio ideal parte de A com Pₐ = 32 × 10⁵ Pa e Vₐ = 1 m³. Sofre expansão isobárica A → B, até Vᵦ = 2 m³, seguida de expansão adiabática B → C, até P꜀ = 1 × 10⁵ Pa. Use cᵥ = 3R/2 e cₚ = 5R/2.

a) Construa o diagrama PV.

b) Quanto trabalho foi realizado pelo gás de A até C?

c) Qual é a variação da energia interna de A até C?

No processo adiabático, W = (P₁V₁ − P₂V₂)/(γ − 1), com γ = cₚ/cᵥ.

Resposta TEF: a) A(1 m³;32×10⁵ Pa), B(2 m³;32×10⁵ Pa), C(16 m³;10⁵ Pa). b) 10,4 MJ. c) −2,4 MJ.

Resolução comentada · Método TEF

Para hélio ideal, γ = (5R/2)/(3R/2) = 5/3. A pressão em B é a mesma de A, 32 × 10⁵ Pa.

$$V_C=V_B\left(\frac{P_B}{P_C}\right)^{1/\gamma}=2(32)^{3/5}=16\ \mathrm{m^3}$$

No diagrama PV, A = (1;32×10⁵), B = (2;32×10⁵) e C = (16;10⁵), em unidades SI.

$$W_{AB}=P_A(V_B-V_A)=3{,}2\times10^6\ \mathrm J$$

$$W_{BC}=\frac{P_BV_B-P_CV_C}{\gamma-1}=7{,}2\times10^6\ \mathrm J$$

$$W_{AC}=10{,}4\times10^6\ \mathrm J$$

Como U = 3PV/2:

$$\Delta U=\frac32(P_CV_C-P_AV_A)=-2{,}4\times10^6\ \mathrm J$$

O gás realiza trabalho positivo mesmo terminando com energia interna menor que a inicial.

Expansão do hélio: A(1;32), B(2;32), C(16;1), com volume em m³ e pressão em 10⁵ Pa.
Expansão do hélio: A(1;32), B(2;32), C(16;1), com volume em m³ e pressão em 10⁵ Pa.
Q17
Refração de laser subaquático — Velocidade de avião e ângulo crítico

Um mergulhador está a 60 m abaixo da superfície de um lago. No instante t = 0 ele aponta um feixe de laser na direção de um avião, que está exatamente acima dele na direção vertical e, 8 μs após (lembre-se que 1μs = 10⁻⁶s ), o feixe refletido pelo avião chega nele. No instante t = 10 s ele aponta o laser para o ponto C, que está a 60 m do ponto O (veja figura 8) e a luz atinge o avião. Considere que os índices de refração da água e do ar sejam respectivamente nagua = 4/3 e nar = 1, que a velocidade da luz no vácuo seja c = 3 x 10⁸ m/s.

a) Qual é a velocidade do avião (em km/h)?

b) Irá o feixe de luz atingir o avião se no instante t = 15 s o mergulhador incidir o feixe de laser no ponto D, que está a 80 m de O?

Mergulhador 60 m abaixo de O; pontos C e D na superfície a 60 e 80 m de O e avião acima.

Resposta TEF: a) Aproximadamente 1162 km/h. b) Não: há reflexão interna total na água-ar ao apontar para D.

Resolução comentada · Método TEF

O percurso óptico de ida corresponde a quatro microssegundos, pois os oito medem ida e volta.

$$\frac{(4/3)(60)+H}{3\times10^8}=4\times10^{-6}$$

$$H=1120\ \mathrm m$$

Ao apontar para C a 60 m de O, o ângulo na água é 45°.

$$\sin r=\frac43\sin45^\circ=\frac{2\sqrt2}{3}$$

$$\cos r=\frac13$$

$$x=60+1120\tan r=60+2240\sqrt2\ \mathrm m$$

$$v=\frac{x}{10}(3{,}6)\approx1162\ \mathrm{km/h}$$

Para D, a 80 m de O, o triângulo 60–80–100 dá sen i = 0,8.

$$\sin r=\frac43(0{,}8)>1$$

Não há raio refratado: ocorre reflexão interna total, e o feixe não atinge o avião. Desprezam-se o deslocamento do avião durante os microssegundos do voo luminoso e o efeito desse deslocamento na reflexão de retorno.

Q18
Duas lentes e meios diferentes — Ampliação com água entre as faces

Duas lentes plano-convexas de raio 50 cm e índice de refração 1,5 são montadas de modo que seus eixos ópticos coincidam e que as faces convexas fiquem uma defronte à outra, a uma distância de 15 cm. Um objeto de altura 10 cm é colocado a uma distância p à esquerda da primeira lente. Determine a altura da imagem, informando se ela é real ou virtual, direita ou invertida para os seguintes casos.

a) O espaço entre as lentes é preenchido com água (n=4/3) e p = 100 cm

b) Todo o conjunto, inclusive o objeto, é imerso na água e p = 80 cm .

Resposta TEF: a) 32,43 cm, virtual e direita. b) 17,54 cm, virtual e direita, na aproximação de lentes delgadas separadas por 15 cm.

Resolução comentada · Método TEF

No item a, há ar fora e água entre as lentes. Não se pode simplesmente somar vergências de lentes imersas no mesmo meio e ignorar os 15 cm. Para a lente delgada que separa meios de índices nᵢ e nₑ, use nᵢ/p + nₑ/q = Φ, com Φ = (n_g−nᵢ)/R₁ + (nₑ−n_g)/R₂.

Nas duas lentes, cada potência reduzida é Φ = (1,5−4/3)/50 = 1/300 cm⁻¹. Na primeira:

$$\frac1{100}+\frac{4/3}{q_1}=\frac1{300}$$

$$q_1=-200\ \mathrm{cm}$$

Na segunda, o objeto está a p₂ = 15−(−200) = 215 cm.

$$\frac{4/3}{215}+\frac1{q_2}=\frac1{300}$$

$$q_2=-\frac{12900}{37}\ \mathrm{cm}$$

$$M=\left(-\frac{1\,q_1}{(4/3)100}\right)\left(-\frac{(4/3)q_2}{215}\right)=\frac{120}{37}$$

$$h'=10M\approx32{,}43\ \mathrm{cm}$$

No item b, todo o conjunto está em água e cada lente tem foco de 400 cm.

$$q_1=\frac{400(80)}{80-400}=-100\ \mathrm{cm}$$

$$p_2=115\ \mathrm{cm}$$

$$q_2=\frac{400(115)}{115-400}=-\frac{46000}{285}\ \mathrm{cm}$$

$$M=\frac{100}{80}\frac{46000/285}{115}=\frac{100}{57}$$

$$h'=\frac{1000}{57}\ \mathrm{cm}\approx17{,}54\ \mathrm{cm}$$

As duas imagens finais são virtuais e direitas. O próprio comentário oficial apresenta uma primeira aproximação de 30 cm no item a e, depois, uma correção para cerca de 32,4 cm ao considerar separação e meios corretamente.

Q19
Expansor de feixe afocal — Duas configurações para aumento de cinco vezes
Exclusiva da 1ª série no caderno original

Um feixe de luz paralelo incide sobre um sistema formado por duas lentes separadas por uma distância 5 cm. O feixe emergente também é paralelo, mas com diâmetro 5 vezes maior que o feixe incidente. Discuta como esse sistema pode ser construído, explicitando o tipo de lentes, as distâncias focais, a relação entre os diâmetros, etc. Esse sistema é único? Em caso negativo, descreva um outro sistema que leve ao mesmo resultado.

Resposta TEF: Duas convergentes: f₁ = 5/6 cm e f₂ = 25/6 cm; ou divergente seguida de convergente: f₁ = −1,25 cm e f₂ = 6,25 cm. Em ambos os casos, separação de 5 cm e diâmetro final 5 vezes maior.

Resolução comentada · Método TEF

O sistema deve ser afocal: um feixe paralelo entra e sai paralelo. O aumento do diâmetro satisfaz |f₂/f₁| = 5 e a separação é 5 cm.

Com duas lentes convergentes, o foco imagem da primeira coincide com o foco objeto da segunda.

$$f_1+f_2=5\ \mathrm{cm}$$

$$f_2=5f_1$$

$$f_1=\frac56\ \mathrm{cm},\quad f_2=\frac{25}{6}\ \mathrm{cm}$$

Outra montagem usa primeiro uma divergente e depois uma convergente.

$$f_1=-1{,}25\ \mathrm{cm},\quad f_2=6{,}25\ \mathrm{cm}$$

$$f_1+f_2=5\ \mathrm{cm}$$

Em ambas, d₂ = 5d₁ para o feixe; a abertura útil da segunda lente deve comportar esse diâmetro. A primeira configuração tem cruzamento real de raios entre as lentes; a segunda, não.

Q20
Profundidade aparente em tanque acelerado — Inclinação da superfície livre

Uma moeda se encontra exatamente na parte central do fundo de um tanque de água montado sobre a carroceria de um caminhão. Um rapaz que observa a moeda, segundo um ângulo α em relação à normal à superfície do líquido, mede uma profundidade aparente de 50 cm. Em certo instante o caminhão se move para frente com aceleração constante e o rapaz, observando a moeda com o mesmo ângulo α em relação à normal à superfície do líquido (que agora está inclinada), atribui uma profundidade aparente de 25√3 cm . Determine a aceleração do caminhão.

Moeda no centro do tanque de água sobre caminhão, observada por um rapaz segundo ângulo α.

Resposta TEF: 10/√3 m/s² ≈ 5,77 m/s².

Resolução comentada · Método TEF

Como o ângulo de observação em relação à normal local permanece o mesmo e os índices não mudam, o fator que converte profundidade real normal à interface em aparente é constante. A moeda fica no centro do fundo, e a superfície gira em torno da altura média. A distância perpendicular da moeda à superfície passa de h para h cos θ.

$$\cos\theta=\frac{25\sqrt3}{50}=\frac{\sqrt3}{2}$$

$$\theta=30^\circ$$

No equilíbrio relativo do líquido em aceleração horizontal constante:

$$\tan\theta=\frac ag$$

$$a=10\tan30^\circ=\frac{10}{\sqrt3}\ \mathrm{m/s^2}\approx5{,}77\ \mathrm{m/s^2}$$

O modelo desconsidera transbordamento e oscilações transitórias da superfície.

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