OBF 2014

3ª fase · Nível I (8º e 9º anos)

Olimpíada Brasileira de Física · 8 questões discursivas · arquivo histórico.

Q01
Mecânica — Cinemática — Comparação de trajetos: arco e travessias

Pai e filho caminham com velocidade constante por uma via que forma um arco de circunferência e desejam ir de A a B. O filho acredita que indo diretamente de A a B (pela borda externa da via) chega no menor tempo; o pai pensa que atravessando a via (de largura $L$) até D, seguindo pelo arco interno (raio $R$) até C e atravessando novamente a via até B pode chegar primeiro. A figura mostra as trajetórias para um ângulo $\theta<90^\circ$. Qual o ângulo $\theta$ (em radianos) em que os tempos das duas trajetórias serão os mesmos?

Via em forma de setor circular entre os raios R e R+L, com os pontos A e B (borda externa) e D e C (borda interna), e ângulo θ no centro

Resposta TEF: $\theta=2\ \text{rad}$.

Resolução comentada · Método TEF

Ressalva: interpretou-se “diretamente de A a B” como o percurso pela borda externa da via (arco AB), única leitura em que o ângulo não depende de R e L. O valor $2$ rad ultrapassa $90^\circ$, o que contraria a restrição desenhada na figura ($\theta<90^\circ$).

Mesma velocidade, logo tempos iguais ⇔ comprimentos iguais. O trajeto do filho segue o arco externo, de raio $R+L$ e ângulo $\theta$: $s_1=(R+L)\,\theta$.

O trajeto do pai: duas travessias radiais de comprimento $L$ e o arco interno de raio $R$: $s_2=2L+R\,\theta$.

$(R+L)\,\theta=2L+R\,\theta\Rightarrow L\,\theta=2L$:

$$\theta=2\ \text{rad}\ (\approx115^\circ)$$

O resultado independe de $R$ e $L$. Para $\theta<2\ \text{rad}$, o arco externo é mais curto; para $\theta>2\ \text{rad}$, o pai chega primeiro.

Q02
Mecânica — Cinemática — Velocidade média com paradas

Um carro viaja a 100 km/h durante 40 minutos quando o motorista decide fazer uma parada de 20 minutos. Em seguida viaja por mais 2 horas a 95 km/h. Qual foi a velocidade média da viagem, em km/h? Despreze os intervalos de tempo de aceleração e desaceleração.

Resposta TEF: $\approx85{,}6\ \text{km/h}$.

Resolução comentada · Método TEF

Distâncias: $100\cdot\dfrac{40}{60}=66{,}7\ \text{km}$ e $95\cdot2=190\ \text{km}$; total $256{,}7\ \text{km}$. Tempo total (inclui a parada): $40+20+120=180\ \text{min}=3\ \text{h}$.

$$v_m=\frac{256{,}7}{3}\approx85{,}6\ \text{km/h}$$

Q03
Mecânica — Movimento circular — Aceleração de um pêndulo simples

A figura mostra um pêndulo simples ideal em várias posições, oscilando entre A e B. Em cada uma das posições mostradas, esquematize o vetor aceleração. Na posição central o pêndulo está na vertical.

Pêndulo simples oscilando entre A e B, com uma posição central na vertical

Resposta TEF: Em A e B: só tangencial, $g\,\text{sen}\,\theta_0$, apontando para a posição central. No centro: só centrípeta, $v^2/L$, para cima (na direção do fio).

Resolução comentada · Método TEF

A aceleração tem duas componentes: tangencial $a_t=g\,\text{sen}\,\theta$ (perpendicular ao fio, para a posição de equilíbrio) e centrípeta $a_c=\dfrac{v^2}{L}$ (ao longo do fio, para o ponto de suspensão).

Extremos A e B: $v=0\Rightarrow a_c=0$; a aceleração é só tangencial, de módulo máximo $g\,\text{sen}\,\theta_0$, perpendicular ao fio e apontando para o centro da oscilação (o vetor não é vertical).

Posição central: $\theta=0\Rightarrow a_t=0$; a aceleração é só centrípeta, vertical para cima, de módulo máximo $\dfrac{v_{max}^2}{L}=2g\,(1-\cos\theta_0)$.

Posições intermediárias: soma vetorial das duas componentes, apontando “para dentro” da trajetória e nunca nula.

Q04
Mecânica — Cinemática — Voo parabólico: velocidade, alcance e aceleração centrípeta

Voos parabólicos são usados para treinar astronautas e produzir micro-gravidade. A $6000\ \text{m}$ o piloto inicia uma subida até $7600\ \text{m}$, com o avião a $45^\circ$ de inclinação e aceleração de cerca de $2g$. Nesse momento reduz a potência a praticamente zero (apenas vencendo o arraste) e, durante cerca de 20 s, o avião e os ocupantes são lançados numa trajetória parabólica, subindo mais $2000\ \text{m}$. Quando o avião atinge $45^\circ$ novamente, o piloto retoma a potência e retorna ao voo horizontal. Considerando o avião uma partícula: (a) qual é, em km/h, a velocidade do avião quando o piloto reduz a potência? (b) Qual a distância horizontal percorrida na trajetória parabólica? (c) Supondo que, ao retomar a potência, o avião descreva uma trajetória circular de raio $4500\ \text{m}$, qual é a aceleração dos ocupantes no ponto mais baixo da trajetória?

Resposta TEF: a) $\approx1030\ \text{km/h}$ ($286\ \text{m/s}$); b) $8\ \text{km}$; c) $\approx18\ \text{m/s}^2$ ($\approx1{,}8\,g$), voltada para cima.

Resolução comentada · Método TEF

Ressalva: em (c) admite-se que a velocidade no ponto mais baixo é a mesma do início da trajetória circular; a variação de altura durante a curva (que aumentaria a velocidade) não é informada.

a) Na parábola o avião sobe mais $2000\ \text{m}$ até o ponto mais alto, onde $v_y=0$: $v_y^2=2\,g\,h\Rightarrow v_y=\sqrt{2\cdot10\cdot2000}=200\ \text{m/s}$ (e $t=\dfrac{v_y}{g}=20\ \text{s}$, como no texto). Com $45^\circ$: $v=\dfrac{v_y}{\text{sen}\,45^\circ}=\dfrac{200}{0{,}7}\approx286\ \text{m/s}\approx1030\ \text{km/h}$.

b) A componente horizontal é constante: $v_x=v\cos45^\circ=200\ \text{m/s}$. A trajetória completa (de $45^\circ$ subindo a $45^\circ$ descendo, no mesmo nível) dura $2\cdot20=40\ \text{s}$: $$x=200\cdot40=8000\ \text{m}=8\ \text{km}$$

c) Ao retomar a potência a $45^\circ$ descendo, a velocidade (por simetria da parábola) é $286\ \text{m/s}$. Supondo que a potência apenas compense o arraste e que a velocidade se mantenha, no ponto mais baixo da trajetória circular a aceleração é centrípeta: $$a=\frac{v^2}{R}=\frac{286^2}{4500}\approx18\ \text{m/s}^2\approx1{,}8\,g$$ (o peso aparente dos ocupantes é $\approx2{,}8$ vezes o normal).

Q05
Mecânica — Gravitação — Gravidade na superfície de um planeta

Um certo planeta tem massa $M$ que é o dobro da massa da Terra. Neste planeta, o peso de um corpo é metade do peso na Terra. Qual é o raio deste planeta em termos do raio da Terra?

Resposta TEF: $R=2\,R_T$.

Resolução comentada · Método TEF

$g=\dfrac{G\,M}{R^2}$. Peso na metade: $\dfrac{G\cdot2M_T}{R^2}=\dfrac12\,\dfrac{G\,M_T}{R_T^2}\Rightarrow R^2=4R_T^2$:

$$R=2\,R_T$$

Q06
Mecânica — Quantidade de movimento — Impulso e variação da quantidade de movimento

Uma bola de futebol de 450 g se move a 2,0 m/s quando um jogador a chuta com uma força constante de 45,0 N na mesma direção do movimento. Por quanto tempo o pé do jogador ficará em contato com a bola para aumentar sua velocidade para 4,0 m/s?

Resposta TEF: $\Delta t=0{,}02\ \text{s}$.

Resolução comentada · Método TEF

Impulso = variação da quantidade de movimento: $F\,\Delta t=m\,\Delta v$:

$$\Delta t=\frac{0{,}450\cdot(4{,}0-2{,}0)}{45{,}0}=0{,}020\ \text{s}$$

Q07
Mecânica — Cinemática — Tempo de percurso a partir do gráfico v × x

Engenheiros britânicos constroem o carro mais veloz do mundo, o Bloodhound SSC, que deve ultrapassar $1600\ \text{km/h}$. O carro terá dois estágios de aceleração: motor a jato na primeira fase e foguete na segunda (além de um motor a combustão auxiliar). O gráfico mostra a velocidade em função da distância; o ponto destacado marca o início do acionamento do foguete. Usando os dados do gráfico, determine (a) o instante em que o foguete será acionado e (b) o tempo que o carro levará para atingir a velocidade máxima.

Gráfico da velocidade (km/h) em função da distância (km) do Bloodhound SSC, com o ponto de acionamento do foguete em cerca de 2,9 km

Resposta TEF: a) $t\approx30\ \text{s}$ (a $\approx2{,}9\ \text{km}$, $\approx620\ \text{km/h}$); b) $t\approx50\ \text{s}$ (velocidade máxima de $\approx1700\ \text{km/h}$ a $\approx9{,}7\ \text{km}$).

Resolução comentada · Método TEF

Ressalva: valores lidos no gráfico, com incerteza de ±10%; a resposta é uma estimativa.

Em cada trecho, $\Delta t=\dfrac{\Delta x}{\bar v}$ com $\bar v$ a velocidade média do trecho (lida no gráfico).

a) Do repouso até o foguete ($x\approx2{,}9\ \text{km}$, $v\approx620\ \text{km/h}=172\ \text{m/s}$), com aceleração aproximadamente constante: $a=\dfrac{v^2}{2x}=\dfrac{172^2}{2\cdot2900}\approx5{,}1\ \text{m/s}^2$ e $t=\dfrac va\approx34\ \text{s}$ (aprox. $30$ s).

b) Trechos seguintes: $2{,}9\to4\ \text{km}$ ($\bar v\approx800\ \text{km/h}$): $\approx5\ \text{s}$; $4\to6$ ($\approx1100$): $\approx6{,}5\ \text{s}$; $6\to8$ ($\approx1430$): $\approx5\ \text{s}$; $8\to9{,}7$ ($\approx1650$): $\approx3{,}7\ \text{s}$. Total $\approx30+5+6{,}5+5+3{,}7\approx50\ \text{s}$.

Q08
Mecânica — Cinemática — Lançamento horizontal em uma escada

Uma bola é lançada horizontalmente do topo (patamar) de uma escada. Se as dimensões dos degraus são $2L$ de largura e $L$ de altura, qual é o intervalo de valores da velocidade de lançamento para que o primeiro degrau atingido pela bola seja o $n$-ésimo?

Escada de degraus numerados 1, 2, ..., n−1 e n, com trajetórias parabólicas de uma bola lançada do patamar

Resposta TEF: $\sqrt{2\,g\,L\,(n-1)}

Resolução comentada · Método TEF

Com origem na borda do patamar, a queda é $y=\dfrac{g\,x^2}{2\,v_0^2}$. O degrau $k$ tem piso a uma profundidade $k\,L$ e se estende de $x=2L\,(k-1)$ a $x=2L\,k$.

Não atingir os degraus anteriores: ao chegar a $x=2L\,k$ a bola precisa estar acima da profundidade $k\,L$ para todo $k\le n-1$: $\dfrac{g\,(2Lk)^2}{2\,v_0^2}2\,g\,L\,k$. A condição mais forte é a de $k=n-1$: $v_0^2>2\,g\,L\,(n-1)$.

Atingir o degrau $n$ (antes de passar sua borda): em $x=2L\,n$ a queda deve ser pelo menos $n\,L$: $\dfrac{g\,(2Ln)^2}{2\,v_0^2}\ge n\,L\Rightarrow v_0^2\le2\,g\,L\,n$.

$$\sqrt{2\,g\,L\,(n-1)}

↑ Voltar ao topo