UFC 1992.2 · 2ª Etapa — Questões de Física comentadas — Método TEF

Universidade Federal do Ceará

Vestibular 1992.2 · 2ª Etapa · Física discursiva (Q01-Q08)

Q01
Mecânica — Sistemas de partículas — Encontro no centro de massa

Um homem de massa $m$ está de pé sobre uma superfície horizontal perfeitamente lisa, separado de uma distância $d$ de um bloco pesado de massa $M$. O homem tenta puxar para si o bloco por meio de uma corda inextensível de massa desprezível. Ele dá um rápido puxão na corda e ambos deslizam um para o outro até se encontrarem em um certo ponto. Determine, em função da distância $d$ e das massas $m$ e $M$, a posição de encontro entre o homem e o bloco a partir da posição inicial do homem.

Resposta comentada TEF · UFC 1992.2 · 2ª Etapa

$x=\dfrac{M}{m+M}\,d$, medido da posição inicial do homem em direção ao bloco.
Resolução

Não há força horizontal externa sobre o sistema homem + bloco. As forças transmitidas pela corda são internas e não mudam a quantidade de movimento total.

$$F_{ext,x}=0$$

Como o sistema começa em repouso, o centro de massa permanece na mesma posição. Escolhemos a posição inicial do homem como origem e a do bloco como x = d.

$$x_{CM}=\frac{m\cdot0+M\cdot d}{m+M}$$

$$x_{CM}=\frac{M}{m+M}d$$

No modelo pontual, no encontro os dois corpos ocupam essa mesma posição, que coincide com o centro de massa imóvel.

$$x_{encontro}=\frac{M}{m+M}d$$

O bloco percorre a distância restante:

$$d-x_{encontro}=\frac{m}{m+M}d$$

Se o bloco for muito mais pesado, o homem percorre quase toda a distância. O resultado não exige conservação de energia mecânica: o homem pode transformar energia interna durante o puxão.

Q02
Mecânica — Gravitação — Peso em planetas de mesma densidade

Um corpo de massa $m$ é pesado na Terra. Esse corpo é levado em uma nave espacial para outro planeta de raio maior que o raio da Terra, mas de mesma massa específica que a da Terra. Em qual dos planetas o corpo apresenta maior peso? Admita que os dois planetas são perfeitamente esféricos e homogêneos. Justifique sua resposta.

Resposta comentada TEF · UFC 1992.2 · 2ª Etapa

No planeta de maior raio: $P_P/P_T=R_P/R_T>1$.
Resolução

Para um planeta esférico e homogêneo, a massa cresce com o cubo do raio quando a densidade ρ é a mesma.

$$M=\rho\frac{4\pi R^3}{3}$$

O peso na superfície é:

$$P=\frac{GmM}{R^2}$$

Substituímos a massa do planeta em função de seu raio.

$$P=\frac{Gm}{R^2}\rho\frac{4\pi R^3}{3}$$

$$P=\frac{4\pi Gm\rho}{3}R$$

Com m e ρ iguais nas duas situações, o peso é proporcional ao raio.

$$\frac{P_P}{P_T}=\frac{R_P}{R_T}$$

$$R_P>R_T\ \Longrightarrow\ P_P>P_T$$

O corpo tem a mesma massa nos dois planetas, mas pesa mais no maior. A regra de diminuição com 1/R² não pode ser aplicada mantendo a massa planetária fixa, pois o enunciado mantém a densidade, não a massa do planeta.

Q03
Mecânica — Cinemática — Contatos dos pés e convenção de contagem

Um casal de namorados passeia de braços dados, caminhando lado a lado. Ambos, coincidentemente, iniciam o passeio com o pé direito e no mesmo instante. A mulher dá passos de 0,4 m e o homem de 0,6 m. Suas velocidades são constantes e iguais a 1,0 m/s. Quantas vezes eles terão pisado simultaneamente com o pé direito, decorridos 4,8 s de passeio?

Resposta comentada TEF · UFC 1992.2 · 2ª Etapa

Convenção do comentário: nenhuma coincidência, contando o primeiro passo completo como a primeira pisada direita.

Se t = 0 já for um contato simultâneo dos pés direitos: há dois novos contatos simultâneos, em 2,4 s e 4,8 s; três se incluir o contato inicial.

Resolução

Os intervalos entre passos consecutivos são dados pelo comprimento do passo dividido pela velocidade.

$$\tau_m=\frac{0{,}4}{1}=0{,}4\text{ s}$$

$$\tau_h=\frac{0{,}6}{1}=0{,}6\text{ s}$$

Contagem adotada no comentário. A primeira pisada direita é o primeiro passo completo após o início. As pisadas direitas correspondem aos números de passo ímpares. Se n é o número de passos do homem e j o da mulher, um contato simultâneo exige:

$$0{,}6n=0{,}4j$$

$$3n=2j$$

Logo, n precisa ser par. Não há solução com n e j ambos ímpares; nessa convenção, nenhuma das pisadas simultâneas é direita para os dois. Em 4,8 s, o homem completa oito passos e a mulher doze.

Ressalva sobre a fase inicial. A frase “iniciam com o pé direito no mesmo instante” também pode significar que ambos já apoiam esse pé em t = 0. Nessa leitura, o intervalo entre contatos do mesmo pé é o dobro do intervalo entre passos.

$$T_m=0{,}8\text{ s}$$

$$T_h=1{,}2\text{ s}$$

O primeiro novo contato simultâneo dos pés direitos ocorre após três ciclos da mulher e dois do homem.

$$3T_m=2T_h=2{,}4\text{ s}$$

Até 4,8 s, os novos contatos são em 2,4 s e 4,8 s. Portanto, o número depende da fase atribuída ao primeiro contato, que a redação não fixa de modo inequívoco. A página identifica a convenção do comentário em vez de tratar as duas leituras como equivalentes.

Q04
Ondulatória — Ressonância — Tubo fechado em uma extremidade

Um diapasão emite a nota lá, cuja frequência é 440 Hz. Perto dele estão cinco tubos de diâmetro $d$, fechados em uma das extremidades. Os comprimentos dos tubos são $L_1=12{,}25\text{ cm}$; $L_2=15{,}0\text{ cm}$; $L_3=18{,}75\text{ cm}$; $L_4=37{,}5\text{ cm}$ e $L_5=82{,}5\text{ cm}$. Determine qual deles estará em ressonância. Considere a velocidade do som no ar igual a 330 m/s e admita que o diâmetro $d$ dos tubos é muitas vezes menor que o comprimento de onda da onda sonora.

Resposta comentada TEF · UFC 1992.2 · 2ª Etapa

O tubo $L_3=18{,}75\text{ cm}$, em seu modo fundamental.
Resolução

O comprimento de onda do som emitido pelo diapasão é:

$$\lambda=\frac vf$$

$$\lambda=\frac{330}{440}=0{,}75\text{ m}$$

Um tubo fechado em uma extremidade tem nó de deslocamento na extremidade fechada e ventre na aberta. Os comprimentos ressonantes são múltiplos ímpares de um quarto de onda.

$$L_n=(2n-1)\frac\lambda4\quad(n=1,2,3,\ldots)$$

$$\frac\lambda4=0{,}1875\text{ m}=18{,}75\text{ cm}$$

Os primeiros comprimentos possíveis são:

$$L_1^{(ress)}=18{,}75\text{ cm}$$

$$L_2^{(ress)}=56{,}25\text{ cm}$$

$$L_3^{(ress)}=93{,}75\text{ cm}$$

Da lista fornecida, somente o tubo de 18,75 cm satisfaz a condição. O de 37,5 cm contém dois quartos de onda, um múltiplo par, e não é ressonante nesse modelo de uma extremidade fechada.

A condição de diâmetro pequeno permite desprezar a correção de extremidade no cálculo ideal dos comprimentos.

Q05
Termologia — Gases — Compressão isotérmica em uma bomba

Uma pessoa deseja encher mais uma bola de futebol. Para isso, dispõe de uma bomba cujo êmbolo tem um curso de 30 cm. A bomba é provida de uma válvula que impede o retorno de ar de dentro da bola. Se o ar no interior da bola está a uma pressão de 3 atm, de quanto terá se deslocado o êmbolo no instante em que o ar começar a entrar na bola, considerando-se que seu deslocamento se iniciou do ponto mais recuado do êmbolo? Considere o ar como um gás ideal e suponha a compressão isotérmica.

Resposta comentada TEF · UFC 1992.2 · 2ª Etapa

$x=20\text{ cm}$, com pressão inicial do ar de 1 atm.
Resolução

Adotamos as condições do comentário: ar inicialmente à pressão atmosférica de 1 atm, comprimento inicial útil de 30 cm e volume morto desprezível. Até a válvula abrir para a bola, a massa de ar presa na bomba permanece constante.

$$p_i=1\text{ atm}$$

$$V_i=A\cdot30$$

Após deslocamento x do êmbolo:

$$V_f=A(30-x)$$

O ar começa a entrar quando sua pressão alcança o limiar da pressão interna da bola, tomada como pressão absoluta.

$$p_f=3\text{ atm}$$

Pela lei de Boyle na compressão isotérmica:

$$p_iV_i=p_fV_f$$

$$1\cdot A\cdot30=3A(30-x)$$

$$30=90-3x$$

$$3x=60$$

$$x=20\text{ cm}$$

Bomba em duas posições: comprimento inicial de ar de 30 cm à pressão atmosférica e comprimento 30 − x após compressão, ligada à bola sob 3 atm.

A válvula impede retorno da bola e só permite a transferência após esse limiar. Não se aplica a lei com massa constante à bomba depois que o gás começa a sair dela.

Q06
Mecânica — Trabalho e energia — Velocidade máxima sobre mola

Uma esfera de massa $m=200\text{ g}$ é abandonada de uma altura $h=1{,}15\text{ m}$ acima da extremidade de uma mola ideal de constante elástica $k=10\text{ N/m}$ e diretamente sobre a mola. Considere o choque entre a esfera e a mola perfeitamente plástico. O gráfico da força resultante $F$ versus $y$, que atua sobre a esfera até ela parar, é dado na figura abaixo. Determine a velocidade máxima da esfera. Use $g=10\text{ m/s}^2$.

Força resultante vertical, com y positivo para baixo: 2 N de y = 0 a 1,15 m; depois decresce linearmente, cruza zero em 1,35 m e chega a −7 N em 2,05 m. Abaixo, esfera sobre mola.

Resposta comentada TEF · UFC 1992.2 · 2ª Etapa

$v_{máx}=5{,}0\text{ m/s}$, pelo modelo do gráfico fornecido.
Resolução

O eixo y aponta para baixo. Enquanto a força resultante tem sinal positivo, a velocidade de queda aumenta; depois que a resultante muda de sinal, ela diminui. A velocidade máxima ocorre em F = 0, em y = 1,35 m.

A área sob o gráfico até esse ponto é o trabalho da resultante. Ela tem uma parte retangular e uma triangular.

$$W_1=2\cdot1{,}15=2{,}30\text{ J}$$

$$W_2=\frac{(1{,}35-1{,}15)\cdot2}{2}=0{,}20\text{ J}$$

$$W=2{,}50\text{ J}$$

Como a esfera parte do repouso, o teorema trabalho–energia fornece:

$$W=\frac12mv_{máx}^2$$

$$2{,}50=\frac12\cdot0{,}200\cdot v_{máx}^2$$

$$v_{máx}^2=25$$

$$v_{máx}=5{,}0\text{ m/s}$$

A mesma posição corresponde à compressão mg/k = 0,20 m da mola, além da queda inicial de 1,15 m. Ela não é a compressão máxima, na qual a esfera para.

A menção a choque plástico é tratada no modelo da fonte como acoplamento à mola ideal sem rebote. O cálculo usa a força resultante e o trabalho descritos no gráfico; não há informação para acrescentar uma perda impulsiva de energia independente desse modelo.

Q07
Eletricidade — Campo uniforme — Gotícula com velocidade constante

Uma gotícula de óleo de massa $m=2\text{ mg}$, carregada positivamente com uma carga $q=4{,}8\times10^{-10}\text{ C}$, move-se verticalmente com velocidade constante entre as placas planas, paralelas e horizontais de um capacitor. Se as placas são separadas pela distância $d=1{,}2\text{ cm}$, determine a diferença de potencial entre elas. Use $g=10\text{ m/s}^2$.

Resposta comentada TEF · UFC 1992.2 · 2ª Etapa

$|\Delta V|=500\text{ V}$, no modelo com apenas peso e força elétrica; placa inferior positiva.
Resolução

Adotamos, como no comentário, apenas o peso e a força elétrica na dinâmica da gotícula. Velocidade constante implica aceleração e resultante nulas. A força elétrica deve apontar para cima para equilibrar o peso.

$$qE=mg$$

Convertemos miligramas para quilogramas.

$$m=2\text{ mg}=2\times10^{-6}\text{ kg}$$

$$E=\frac{mg}{q}$$

$$E=\frac{2\times10^{-6}\cdot10}{4{,}8\times10^{-10}}$$

$$E\approx4{,}17\times10^4\text{ V/m}$$

A diferença de potencial em módulo é:

$$d=1{,}2\times10^{-2}\text{ m}$$

$$|\Delta V|=Ed$$

$$|\Delta V|=\frac{2\times10^{-5}}{4{,}8\times10^{-10}}\cdot1{,}2\times10^{-2}$$

$$|\Delta V|=500\text{ V}$$

Como q é positiva e o campo aponta para cima, a placa inferior está em potencial maior e é positiva em relação à superior.

Conferência da fonte. O valor final de 500 V está correto, mas o campo intermediário impresso como 10⁵/24 V/m perde um fator dez: o campo correto é 10⁶/24 V/m. Se houvesse força de arrasto relevante, ela também precisaria entrar no equilíbrio; essa força não integra o modelo usado no comentário.

Q08
Óptica — Reflexão total — Luz emergente fora de disco opaco

Uma pequena lâmpada, considerada fonte puntiforme de luz, é instalada na parte central do fundo de uma piscina de profundidade igual a $2\sqrt7\text{ m}$. Um disco de isopor de raio $R=1{,}5\text{ m}$ flutua à superfície tranquila da água, de modo que seu centro está na reta vertical que contém a fonte. Através de um pequeno furo no centro do disco, a lâmpada é puxada para cima por meio de um fio inextensível, com velocidade constante $v=\sqrt7\text{ m/s}$. Sabendo-se que o índice de refração da água em relação ao ar tem o valor de $4/3$, determine durante quanto tempo a lâmpada é vista por um observador situado fora da piscina, qualquer que seja a sua posição.

Resposta comentada TEF · UFC 1992.2 · 2ª Etapa

$\Delta t=1{,}5\text{ s}$ no modelo do comentário: intervalo em que há raios emergentes pela superfície fora do disco, desprezando a abertura óptica do pequeno furo.

Isso não garante visibilidade para toda posição de um observador fixo.

Resolução

O comentário determina até quando existe luz que emerge na região da superfície não coberta pelo disco. Nesse modelo, o pequeno furo serve à passagem do fio e sua abertura para a luz é desprezada.

O ângulo crítico θc, medido com a normal à superfície, satisfaz:

$$\sin\theta_c=\frac{n_{ar}}{n_{\text{água}}}=\frac34$$

$$\cos\theta_c=\frac{\sqrt7}{4}$$

$$\tan\theta_c=\frac3{\sqrt7}$$

Para a lâmpada à profundidade h, o raio limite de emergência atinge a superfície à distância horizontal h tan θc do eixo. A última condição em que essa região alcança a borda do disco é:

$$R=h_c\tan\theta_c$$

$$h_c=\frac{R}{\tan\theta_c}$$

$$h_c=\frac{1{,}5\sqrt7}{3}=\frac{\sqrt7}{2}\text{ m}$$

Lâmpada sobe sob o centro de um disco opaco de raio 1,5 m. O raio que passa pela borda atinge a incidência crítica quando a profundidade é x; o fundo está a 2√7 m.

A lâmpada começa em profundidade 2√7 m. O percurso até essa profundidade crítica é:

$$\Delta h=2\sqrt7-\frac{\sqrt7}{2}$$

$$\Delta h=\frac{3\sqrt7}{2}\text{ m}$$

Dividimos pela velocidade constante de subida.

$$\Delta t=\frac{\Delta h}{v}$$

$$\Delta t=\frac{3\sqrt7/2}{\sqrt7}$$

$$\Delta t=1{,}5\text{ s}$$

Quando a lâmpada fica mais rasa que hc, os raios que alcançam a superfície fora do disco incidem acima do ângulo crítico e sofrem reflexão total. A igualdade é o caso limite de refração rasante.

Ressalva sobre a observação. A expressão “qualquer que seja a sua posição” não fixa uma linha de visada. O resultado calculado indica existência de raios emergentes fora do disco, não visibilidade simultânea para todos os observadores. Uma abertura central que deixasse passar luz também mudaria a conclusão para certas posições; a fonte não modela essa passagem.

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