UFC 1994.2 · 2ª Etapa — Questões de Física comentadas — Método TEF

Universidade Federal do Ceará

Vestibular 1994.2 · 2ª Etapa · Física discursiva (Q01-Q08)

Q01
Mecânica — Cinemática — Encontro com acelerações diferentes

Uma estrada retilínea une duas cidades A e B, cuja distância entre elas é desconhecida. Dois carros partem do repouso, simultaneamente destas cidades, um de encontro ao outro, em movimento retilíneo uniformemente acelerado. A aceleração do carro que parte de A é 0,5 m/s² e a do que parte de B é de 1 m/s². Os carros se encontram a 1 km da cidade A. Determine, em km, a distância entre as cidades.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.2 · 2ª Etapa

$D=3\text{ km}$.
Resolução

Os dois carros se movem pelo mesmo intervalo de tempo até o encontro. Como partem do repouso, os módulos dos deslocamentos são:

$$s_A=\frac12a_At^2$$

$$s_B=\frac12a_Bt^2$$

Dividimos as equações para eliminar o tempo desconhecido.

$$\frac{s_B}{s_A}=\frac{a_B}{a_A}$$

$$\frac{s_B}{s_A}=\frac1{0{,}5}=2$$

O encontro está a 1 km de A.

$$s_B=2\cdot1=2\text{ km}$$

Os deslocamentos ocorrem em sentidos opostos e cobrem, juntos, toda a separação inicial.

$$D=s_A+s_B$$

$$D=1+2=3\text{ km}$$

Q02
Mecânica — Estática — Tirantes e referência da compressão

Um poste de comprimento $\ell$ e massa igual a 500 kg está apoiado, por uma de suas extremidades, sobre uma mola de constante elástica $k$. Dois homens puxam tirantes iguais de comprimento $2\ell$ com a mesma força $F$, igual ao peso do poste, como indica a figura. Desprezando o atrito nas roldanas, encontre a constante elástica da mola para que o seu deslocamento seja de 20 cm a partir da posição de equilíbrio. Considere $g=10\text{ m/s}^2$.

Poste vertical de comprimento ℓ apoiado em mola; dois tirantes inclinados, de comprimento 2ℓ, passam por roldanas sem atrito e são puxados com força F.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.2 · 2ª Etapa

Convenção do comentário: se 20 cm é a compressão total desde o comprimento natural, $k=5{,}0\times10^4\text{ N/m}$.

Outra referência possível: se 20 cm é a compressão adicional a partir do equilíbrio do poste antes de puxar os tirantes, $k=2{,}5\times10^4\text{ N/m}$.

Resolução

Na geometria indicada, o tirante de comprimento 2ℓ tem projeção vertical ℓ. O ângulo θ com a vertical satisfaz:

$$\cos\theta=\frac{\ell}{2\ell}=\frac12$$

A tração é F = P em cada tirante. As componentes horizontais se cancelam e cada componente vertical acrescenta P/2 para baixo.

$$P=mg=500\cdot10=5000\text{ N}$$

$$F_{vertical}=2P\cos\theta=P$$

A força total que comprime a mola na situação final é:

$$F_{mola}=P+F_{vertical}=2P$$

Interpretação adotada no comentário. Tomando 20 cm como compressão total x desde o comprimento natural:

$$kx=2P$$

$$k=\frac{2\cdot5000}{0{,}20}$$

$$k=5{,}0\times10^4\text{ N/m}$$

Ressalva sobre a referência. O enunciado diz “a partir da posição de equilíbrio”, sem explicitar se se refere à mola sem carga ou ao poste já apoiado. Se o ponto inicial é o equilíbrio sob o peso do poste, a compressão inicial x₀ já satisfaz:

$$kx_0=P$$

Após a aplicação das trações, a compressão final satisfaz kx = 2P. Subtraindo os equilíbrios:

$$k(x-x_0)=P$$

$$k\Delta x=P$$

$$k=\frac{5000}{0{,}20}=2{,}5\times10^4\text{ N/m}$$

As duas respostas usam a mesma geometria e o mesmo balanço de forças; diferem na referência dos 20 cm. A resolução identifica a convenção do comentário e preserva a ambiguidade documental.

Q03
Mecânica — Energia — Energia cinética em potencial variável

Uma partícula de massa $m$ desloca-se na direção x sujeita a uma energia potencial gravitacional unidimensional, conforme a figura abaixo, tendo energia mecânica igual a 17 joules. Encontre a razão entre as energias cinéticas da partícula nos pontos A e B.

Energia potencial em função da posição: U(A) = −15 J e U(B) = +15 J. A energia mecânica constante é 17 J.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.2 · 2ª Etapa

$E_{c,A}/E_{c,B}=16$.
Resolução

A energia mecânica é a soma da energia cinética com a potencial. Portanto, a cinética é a diferença entre o nível de energia total e a curva de potencial.

$$E_c=E_m-U$$

Em A, o potencial indicado é negativo.

$$U_A=-15\text{ J}$$

$$E_{c,A}=17-(-15)=32\text{ J}$$

Em B, o potencial é positivo.

$$U_B=15\text{ J}$$

$$E_{c,B}=17-15=2\text{ J}$$

A razão pedida é:

$$\frac{E_{c,A}}{E_{c,B}}=\frac{32}{2}=16$$

Energia potencial negativa é permitida e depende da referência escolhida. Não se deve trocar seu sinal antes de calcular a energia cinética.

Q04
Termologia — Termodinâmica — Trabalho de um ciclo PV

O diagrama PV, dado na figura abaixo, representa um ciclo reversível ao qual é submetido um gás ideal. Calcule, em joules, o trabalho realizado pelo gás.

Ciclo horário no gráfico pressão × volume, com vértices (2,2000), (3,4000), (4,2000) e (3,1000). Pressão em N/m²; a unidade de volume não é indicada no eixo.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.2 · 2ª Etapa

$W=+3{,}0\text{ J}$, adotando o volume em litros, como no comentário.

O eixo de volume não explicita a unidade. Se os números fossem em m³, o trabalho seria $+3000\text{ J}$.

Resolução

O trabalho líquido é a área orientada encerrada no gráfico p × V. O ciclo está no sentido horário: a expansão ocorre, em média, a pressões maiores que a compressão, e o trabalho realizado pelo gás é positivo.

Dividimos a região em dois triângulos com base horizontal de duas unidades de volume.

$$A_1=\frac{2(4000-2000)}2=2000$$

$$A_2=\frac{2(2000-1000)}2=1000$$

$$A_{ciclo}=2000+1000=3000$$

Ressalva de unidade. O gráfico identifica pressão em N/m², mas não informa a unidade de volume. O comentário trata a escala horizontal como litros. Nessa convenção:

$$W=3000\text{ Pa·L}$$

$$1\text{ L}=10^{-3}\text{ m}^3$$

$$W=3000\cdot10^{-3}\text{ Pa·m}^3$$

$$W=+3{,}0\text{ J}$$

Sem essa convenção, a área é apenas 3000 Pa vezes a unidade do eixo horizontal. Se a escala for em metros cúbicos, o resultado é +3000 J. O trabalho líquido não é zero só porque o gás retorna ao estado inicial; a energia interna é que volta ao mesmo valor.

Q05
Óptica — Espelhos — Imagens sucessivas no centro comum

Dois espelhos côncavos iguais, de grande abertura, estão dispostos de frente um para o outro com seus centros de curvatura coincidentes. A reta que une seus vértices contém os focos dos espelhos. A distância entre os vértices dos espelhos é de 1 m. Um objeto linear é colocado perpendicularmente à reta que une os focos dos espelhos. Se a distância do objeto ao foco de um dos espelhos é $x$, determine:

  1. $x$ para que todas as imagens apareçam na mesma posição;
  2. quantas imagens existem e quantas serão vistas para o objeto localizado na posição $x$ determinada no item anterior.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.2 · 2ª Etapa

a) $x=25\text{ cm}$; objeto no centro de curvatura comum.

b) No modelo ideal, infinitas ordens de reflexão sobrepostas. O comentário conta duas vistas, uma em cada espelho, e não infinitas posições distintas.

Resolução

a. Como os espelhos são iguais e seus centros de curvatura coincidem, a separação entre os vértices é o dobro do raio.

$$2R=1\text{ m}$$

$$R=50\text{ cm}$$

$$f=\frac R2=25\text{ cm}$$

Um objeto no centro de curvatura de um espelho côncavo tem sua imagem no próprio centro. Pela equação dos pontos conjugados, com p = R:

$$\frac1{p'}=\frac1f-\frac1p$$

$$\frac1{p'}=\frac2R-\frac1R$$

$$p'=R$$

O centro comum está a 50 cm de cada vértice e a 25 cm de cada foco.

$$x=R-f=25\text{ cm}$$

b. A primeira reflexão já forma imagem no centro comum. Cada nova reflexão recebe uma configuração conjugada ao mesmo centro, de modo que as ordens sucessivas voltam à mesma posição.

Espelhos côncavos iguais separados por um metro, com centro de curvatura comum no ponto médio e focos a 25 cm de cada vértice.

No modelo ideal com reflexões sucessivas, há infinitas ordens de formação. O comentário descreve duas vistas, uma associada a cada espelho, com as demais sobrepostas a elas. Isso não significa duas posições espaciais distintas: a localização das imagens é o centro comum.

A contagem de vistas é a convenção usada na fonte. A percepção efetiva depende da posição do observador, das aberturas e de obstruções; o enunciado não fornece esses dados nem considera perdas nas reflexões.

Q06
Ondulatória — Efeito Doppler — Ambulância em movimento

Um observador, parado à beira de uma estrada retilínea, vê uma ambulância que se aproxima com velocidade constante e ouve o som de frequência $f$, produzido pela sirene. Depois que a ambulância passa pelo observador, o som que ele ouve tem frequência igual a $8f/9$. Se a velocidade de propagação do som no ar for 340 m/s, calcule a velocidade com que a ambulância passou pelo observador.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.2 · 2ª Etapa

$u=20\text{ m/s}=72\text{ km/h}$.
Resolução

Seja f₀ a frequência emitida pela sirene. O observador está parado, enquanto a fonte se move com velocidade de módulo u ao longo da linha de visada, no modelo usual da questão.

$$f_{aprox}=f_0\frac{v_s}{v_s-u}$$

$$f_{afast}=f_0\frac{v_s}{v_s+u}$$

A razão entre as duas frequências percebidas elimina a frequência emitida.

$$\frac{f_{afast}}{f_{aprox}}=\frac{v_s-u}{v_s+u}$$

$$\frac89=\frac{340-u}{340+u}$$

Resolvemos a equação para u.

$$8(340+u)=9(340-u)$$

$$2720+8u=3060-9u$$

$$17u=340$$

$$u=20\text{ m/s}$$

$$u=72\text{ km/h}$$

A frequência f dada no enunciado já é a percebida durante a aproximação, não a emitida pela sirene. As expressões usam aproximação e afastamento ao longo da linha de visada; no instante exato de uma passagem lateral, a componente radial varia.

Q07
Eletricidade — Potencial — Superposição e unidade de carga

Duas esferas iguais e condutoras, de 5 cm de raio, estão carregadas com cargas de 50 pF cada uma. A distância entre seus centros é 36 vezes o raio de uma delas. Calcule o potencial elétrico destas distribuições de cargas no ponto médio do segmento de reta que une os seus centros.

Considere $k=1/(4\pi\varepsilon_0)=9\times10^9\text{ N·m}^2\text{/C}^2$ e que a distribuição de carga em uma esfera não é afetada pela carga da outra. Use $1\text{ pF}=10^{-12}\text{ F}$.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.2 · 2ª Etapa

Com a correção de unidade adotada na fonte: se cada carga é $Q=50\text{ pC}$, então $V=1{,}0\text{ V}$.

pF mede capacitância, não carga. Interpretar literalmente 50 pF não fornece as cargas necessárias ao cálculo.

Resolução

Ressalva editorial. O enunciado usa picofarad como unidade de carga. O próprio comentário identifica o problema e adota 50 picocoulombs. Calculamos sob essa hipótese explicitada.

$$Q=50\text{ pC}=50\times10^{-12}\text{ C}$$

$$R=5\text{ cm}=0{,}05\text{ m}$$

O ponto médio está a metade da distância entre os centros de cada esfera.

$$D=36R=1{,}80\text{ m}$$

$$r=\frac D2=18R=0{,}90\text{ m}$$

As duas contribuições de potencial se somam algebricamente. A simetria pode anular o campo, mas não anula o potencial de cargas de mesmo sinal.

$$V=\frac{kQ}{r}+\frac{kQ}{r}$$

$$V=\frac{2\cdot9\times10^9\cdot50\times10^{-12}}{0{,}90}$$

$$V=1{,}0\text{ V}$$

Sem a correção para pC, uma capacitância isolada não determina a carga: faltaria uma tensão ou outra informação equivalente. Mantivemos a redação original e identificamos a interpretação empregada.

Q08
Eletricidade — Magnetismo — Aceleração perto de fio retilíneo

Uma partícula de massa $m=10^{-3}\text{ kg}$ e carga $q=0{,}5\times10^{-3}\text{ C}$ desloca-se no vácuo, com uma velocidade de 1000 m/s, paralela a um fio condutor infinito. Em um dado instante, passa no fio uma corrente constante de 100 A. Qual deve ser a distância, nesse instante, entre a partícula e o fio, para que sobre ela atue uma aceleração de 100 m/s²?

Considere a constante de permeabilidade magnética $\mu_0=4\pi\times10^{-7}\text{ H/m}$.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.2 · 2ª Etapa

Correção TEF: $d=1{,}0\times10^{-4}\text{ m}=0{,}10\text{ mm}$, para a aceleração magnética de $100\text{ m/s}^2$.

Resolução

No modelo magnetostático usado no comentário, o campo de um fio retilíneo infinito é:

$$B=\frac{\mu_0I}{2\pi d}$$

A velocidade é paralela ao fio e perpendicular ao campo magnético circular ao seu redor. Assim, a força magnética tem módulo qvB.

$$ma=|q|vB$$

$$ma=|q|v\frac{\mu_0I}{2\pi d}$$

Isolamos a distância.

$$d=\frac{|q|v\mu_0I}{2\pi ma}$$

$$d=\frac{0{,}5\times10^{-3}\cdot10^3\cdot4\pi\times10^{-7}\cdot10^2}{2\pi\cdot10^{-3}\cdot100}$$

$$d=1{,}0\times10^{-4}\text{ m}$$

$$d=0{,}10\text{ mm}$$

Ressalva editorial. O enunciado pede 100 m/s², mas o comentário lista e substitui 10 m/s², obtendo 1 mm. Com a aceleração solicitada, dez vezes maior, a distância deve ser dez vezes menor.

O resultado é a distância correspondente à aceleração magnética naquele instante. A força é perpendicular à velocidade e não realiza trabalho. A descrição ideal ignora o transitório de estabelecimento da corrente e outras forças, como no modelo do comentário.

↑ Voltar ao topo