UFC 1994.1 · 2ª Etapa — Questões de Física comentadas — Método TEF

Universidade Federal do Ceará

Vestibular 1994.1 · 2ª Etapa · Física discursiva (Q01-Q08)

Q01
Ondulatória — Propagação — Distância até uma descarga

Na época de chuvas (algo difícil ultimamente no Ceará) é comum o aparecimento de nuvens carregadas eletricamente. As descargas elétricas entre nuvens produzem, geralmente, ondas de luz (os relâmpagos) acompanhadas de ondas sonoras que chamamos de trovão. Considerando que avistamos o relâmpago no mesmo instante da descarga elétrica e ouvimos o trovão 20 segundos após, determine a distância entre nós e o local da descarga elétrica entre as nuvens. Considere que a velocidade do som seja igual a 340 m/s.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.1 · 2ª Etapa

$d=6800\text{ m}=6{,}8\text{ km}$.
Resolução

O enunciado despreza o tempo de propagação da luz. Assim, os 20 s correspondem ao tempo de viagem do som.

$$d=v_s\Delta t$$

$$d=340\cdot20$$

$$d=6800\text{ m}$$

$$d=6{,}8\text{ km}$$

A distância é até a região da descarga, não o comprimento de um trajeto percorrido pelo observador. A aproximação é coerente com a velocidade da luz muito maior que a do som.

Q02
Mecânica — Dinâmica e energia — Contato no topo do laço

Um carro de uma montanha-russa parte do ponto A, onde se encontra em repouso a uma altura $h$. Despreze qualquer atrito entre o carro e os trilhos. Determine a altura $h$ para que o carro passe pelo ponto B da parte circular da trajetória, como está indicado na figura, sem exercer nenhuma força normal sobre os trilhos.

Montanha-russa: carro parte de A a uma altura h e passa pelo topo B de um laço circular de raio R, a 2R do nível inferior.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.1 · 2ª Etapa

$h=\dfrac52R=2{,}5R$.
Resolução

No topo B, a aceleração centrípeta aponta para baixo. Na condição de normal nula, o peso fornece toda a resultante radial.

$$mg=\frac{mv_B^2}{R}$$

$$v_B^2=gR$$

O ponto B está a 2R acima do nível inferior. Conservamos a energia mecânica desde o repouso em A.

$$mgh=mg(2R)+\frac12mv_B^2$$

$$h=2R+\frac{v_B^2}{2g}$$

Substituindo a condição dinâmica do topo:

$$h=2R+\frac R2$$

$$h=\frac52R$$

Normal nula não significa resultante nula: o peso mantém a aceleração centrípeta necessária. A altura obtida é a condição limite de contato no topo, no modelo ideal.

Q03
Mecânica — Hidrostática — Prensa hidráulica

Um macaco hidráulico convencional usado em postos de lavagem de carros é mostrado na figura abaixo. Um líquido preenche o interior do macaco hidráulico, ligando fisicamente os pistões de áreas $a$ e $A$. Considere $A=50a$. Que força $f$ devemos aplicar no pistão de área $a$ para que o pistão de área $A$ suporte um peso $P=100.000\text{ N}$?

Prensa hidráulica: força f no pistão menor de área a e peso P sustentado no pistão maior de área A.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.1 · 2ª Etapa

$f=2000\text{ N}$.
Resolução

No modelo ideal da prensa, a pressão adicional transmitida pelo líquido é a mesma nos dois pistões.

$$\frac fa=\frac PA$$

Substituímos a relação entre as áreas, sem precisar conhecer seus valores individuais.

$$f=P\frac aA$$

$$f=100000\frac a{50a}$$

$$f=2000\text{ N}$$

O ganho em força corresponde à razão de áreas. Ele não representa ganho de energia: no funcionamento ideal, o pistão menor percorre distância maior que o pistão de carga.

Q04
Termologia — Gases — Bulbos com temperaturas diferentes

Dois bulbos de volumes $V_0$ e $2V_0$ são ligados por um tubo feito de um material que é isolante térmico perfeito. Dessa forma, este tubo permite que os bulbos se mantenham em equilíbrio de pressão, embora não assegure que eles fiquem com a mesma temperatura. O sistema é selado, contendo oxigênio no seu interior a uma temperatura de 27 °C, e a uma pressão de 760 mmHg. Após ser selado, o bulbo de menor volume é imerso em um recipiente a 0 °C, enquanto o maior é imerso em um recipiente a 100 °C. Qual a pressão final, em mmHg, dentro do sistema? Despreze a expansão térmica dos bulbos e do tubo.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.1 · 2ª Etapa

$p_f\approx842\text{ mmHg}$.
Resolução

Usamos o gás ideal, temperaturas absolutas e volume do tubo desprezível, como no comentário. A quantidade total de gás é conservada, mas pode se redistribuir entre os bulbos.

$$T_i=300\text{ K}$$

$$T_1=273\text{ K}$$

$$T_2=373\text{ K}$$

No estado inicial:

$$n=\frac{p_i(3V_0)}{R\cdot300}$$

No estado final, a pressão é comum, mas as temperaturas são diferentes.

$$n_1=\frac{p_fV_0}{R\cdot273}$$

$$n_2=\frac{p_f(2V_0)}{R\cdot373}$$

Somamos as quantidades de matéria e igualamos ao total inicial.

$$n_1+n_2=n$$

$$p_f\left(\frac1{273}+\frac2{373}\right)=\frac{3p_i}{300}$$

$$p_f=\frac{3\cdot760/300}{1/273+2/373}$$

$$p_f\approx842\text{ mmHg}$$

Não se aplica uma única temperatura final ao volume total de 3V₀. Igualdade de pressão não implica igualdade de temperatura nem conservação separada da quantidade de gás em cada bulbo.

Q05
Eletricidade — Circuitos — Resistência e série geométrica infinita

Considere o circuito elétrico dado abaixo. Nele há uma bateria de 10 volts, à qual está conectado um conjunto de resistores formado por uma série infindável (considere infinita) de subconjuntos de resistores em paralelo. O conjunto conectado ao ponto A tem dois resistores em paralelo, o seguinte quatro, o seguinte oito, e assim por diante. Se todos os resistores são iguais a 10 ohms, qual é a potência, em watts, consumida pelo circuito? Considere nula a resistência interna da bateria.

Bateria de 10 V conectada a grupos sucessivos em série, com 2, 4, 8 e assim por diante resistores iguais em paralelo em cada grupo.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.1 · 2ª Etapa

$P=10\text{ W}$.
Resolução

Cada grupo tem resistores iguais em paralelo. Suas resistências equivalentes são:

$$R_1=\frac R2$$

$$R_2=\frac R4$$

$$R_3=\frac R8$$

Os grupos estão em série entre si. Somamos a progressão geométrica de razão 1/2.

$$R_{eq}=\sum_{k=1}^{\infty}\frac R{2^k}$$

$$R_{eq}=\frac{R/2}{1-1/2}$$

$$R_{eq}=R=10\,\Omega$$

A potência total para a tensão fornecida pela bateria ideal é:

$$P=\frac{V^2}{R_{eq}}$$

$$P=\frac{10^2}{10}$$

$$P=10\text{ W}$$

Há infinitos componentes, mas a soma das resistências dos grupos converge. Não se trata de colocar todos os resistores em um único paralelo.

Q06
Eletricidade — Magnetismo — Campo nulo entre fios paralelos

Dois fios A e B, retilíneos e infinitos, estão dispostos paralelamente entre si. O fio A transporta uma corrente $i$, enquanto o B transporta uma corrente $2i$, ambas no mesmo sentido. Calcular a que distância do fio A o campo magnético é nulo. A distância entre os fios é $d$.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.1 · 2ª Etapa

$x=d/3$, entre os fios, medido a partir de A.
Resolução

Pela regra da mão direita, os campos têm sentidos opostos na região entre fios com correntes no mesmo sentido. Fora dessa região, seus campos se somam. Seja x a distância do ponto procurado ao fio A; a distância ao fio B é d − x.

$$B_A=\frac{\mu_0i}{2\pi x}$$

$$B_B=\frac{\mu_0(2i)}{2\pi(d-x)}$$

Para o cancelamento vetorial, os módulos devem ser iguais.

$$\frac1x=\frac2{d-x}$$

$$d-x=2x$$

$$3x=d$$

$$x=\frac d3$$

O ponto fica mais perto do fio de corrente menor, pois seu campo precisa ser compensado pelo campo produzido pela corrente maior a uma distância maior.

Q07
Óptica — Visão — Correção de hipermetropia e miopia

Em um olho hipermétrope, os raios de luz paralelos que entram nele são focalizados de tal modo que a imagem se forma atrás da retina, como está na figura (a) abaixo. Em um olho míope, a imagem forma-se na frente da retina, como mostra a figura (b).

Raios paralelos no olho hipermétrope convergem atrás da retina, caso a; no olho míope convergem antes da retina, caso b.
  1. Como você projetaria a lente corretiva para cada um desses defeitos de visão?
  2. Mostre com um diagrama de raios de luz a correção que se obtém em ambos os casos.

Resposta comentada TEF · UFC 1994.1 · 2ª Etapa

Hipermetropia: lente convergente. Miopia: lente divergente. Os diagramas estão na resolução.
Resolução

a. O olho hipermétrope converge os raios de modo insuficiente para focalizar sobre a retina. Uma lente convergente adiciona convergência antes da entrada no olho, deslocando o foco para a retina.

O olho míope focaliza os raios antes da retina. Uma lente divergente reduz a convergência do conjunto, permitindo que o foco se forme mais adiante, sobre a retina.

b. O diagrama da fonte mostra os dois casos corrigidos, com os raios chegando à retina. Na figura abaixo, a ordem é miopia à esquerda e hipermetropia à direita.

Diagrama de correção: lente divergente antes do olho míope e lente convergente antes do olho hipermétrope fazem os raios convergirem sobre a retina.

O enunciado permite determinar o tipo de lente, mas não sua distância focal ou potência: faltam medidas dos pontos próximo e remoto ou dados equivalentes do sistema óptico. Os desenhos são esquemáticos.

Q08
Óptica — Refração — Ângulo de aceitação do guia de luz

Um guia de ondas luminosas, como uma fibra óptica, pode ser construído com uma lâmina plana de um material dielétrico (vidro, por exemplo), limitada nos planos superior e inferior por um outro dielétrico de índice de refração menor. Seja o índice de refração da lâmina central $n_2=1{,}5$ e o índice de refração das lâminas vizinhas $n_1=1{,}47$. A espessura da lâmina central, também chamada de núcleo do guia, é igual a 1 micrômetro ($1\,\mu\text{m}=10^{-6}\text{ m}$). Considere que o guia de ondas está imerso no ar e que um raio de luz incide sobre o seu núcleo na face A, como indica a figura.

Raio entra do ar na face A do núcleo de índice n2, formando α0 com a normal à face, e atinge a interface com a casca de índice n1.
  1. Determine o seno do ângulo de incidência $\alpha_0$ para que o raio de luz entrando pela face A esteja na condição de reflexão total na interface do núcleo com a lâmina vizinha (chamada casca). Considere que $(1{,}47)^2\approx2{,}16$.
  2. O que acontece caso o raio incidente forme um ângulo menor ou maior do que $\alpha_0$?

Resposta comentada TEF · UFC 1994.1 · 2ª Etapa

a) $\sin\alpha_0\approx0{,}30$; $\alpha_0\approx17{,}5^\circ$, ângulo limite de aceitação.

b) Para $\alpha<\alpha_0$, há reflexão total interna. Para $\alpha>\alpha_0$, há transmissão para a casca. Na igualdade, o raio está na condição crítica.

Resolução

a. Seja β o ângulo do raio dentro do núcleo com o eixo horizontal, normal à face A. Pela lei de Snell na entrada, com índice do ar igual a um:

$$\sin\alpha_0=n_2\sin\beta$$

Na interface horizontal núcleo–casca, o ângulo com a normal é 90° − β. No limite de reflexão total:

$$\sin\theta_c=\frac{n_1}{n_2}$$

$$\theta_c=90^\circ-\beta$$

$$\cos\beta=\frac{n_1}{n_2}$$

Usamos a identidade trigonométrica e combinamos com a entrada.

$$\sin\alpha_0=\sqrt{n_2^2-n_1^2}$$

$$\sin\alpha_0\approx\sqrt{2{,}25-2{,}16}$$

$$\sin\alpha_0\approx0{,}30$$

$$\alpha_0\approx17{,}5^\circ$$

b. Um ângulo externo menor produz β menor, portanto incidência maior na interface com a casca: ocorre reflexão total. Um ângulo externo maior reduz a incidência nessa interface abaixo do ângulo crítico e parte da luz é transmitida à casca, comprometendo o confinamento.

Ressalva editorial. O comentário da fonte repete a mesma desigualdade nas duas conclusões finais. A comparação correta é a apresentada acima. Na igualdade α = α₀, o raio refratado limite é rasante à interface; a reflexão total estrita exige incidência interna acima da crítica. A espessura do núcleo não entra nesse critério geométrico ideal de raios.

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