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IME 2017 — Questões de Física comentadas — Método TEF

Instituto Militar de Engenharia

Concurso de Admissão 2016/2017 · Prova objetiva · Física (Q16-30) — resolução comentada Método TEF. Gabarito oficial conforme o PDF divulgado pelo IME.

Q16
Termologia — Mudanças de Fase — Evaporação e Umidade Relativa

Um meteorologista mediu por duas vezes em um mesmo dia a umidade relativa do ar e a temperatura do ar quando estava em um pequeno barco a remo no meio de um grande lago. Os dados encontram-se apresentados na tabela a seguir:

MedidaPeríodo do diaUmidade relativaTemperatura do ar
1Manhã$40\%$$300\text{ K}$
2Tarde$70\%$$300\text{ K}$

Diante do exposto, a razão entre as taxas de evaporação de água do lago calculadas na primeira e na segunda medida de umidade relativa do ar é:

A)$\dfrac{16}{13}$
B)$\dfrac{17}{14}$
C)$2$
D)$\dfrac74$
E)$4$

Gabarito Oficial

C
Resolução

A água evapora enquanto o ar acima do lago ainda não está saturado de vapor. A taxa de evaporação é proporcional à diferença entre a pressão de vapor de saturação $p_{sat}$ (que depende da temperatura) e a pressão parcial de vapor realmente presente no ar, $p_v$: \[\text{taxa}\ \propto\ p_{sat}-p_v.\]

Por definição de umidade relativa, $UR=\dfrac{p_v}{p_{sat}}$, de modo que $p_v=UR\cdot p_{sat}$ e \[\text{taxa}\ \propto\ p_{sat}\,(1-UR).\] Nas duas medidas a temperatura é a mesma ($300\text{ K}$), portanto $p_{sat}$ é o mesmo e se cancela na razão.

\[\frac{\text{taxa}_1}{\text{taxa}_2}=\frac{1-0{,}40}{1-0{,}70}=\frac{0{,}60}{0{,}30}=2.\]

Cuidado, armadilha! A evaporação não é proporcional à umidade relativa, e sim ao quanto o ar ainda falta para saturar, isto é, a $(1-UR)$. Quanto mais seco o ar, mais rápida a evaporação; usar $40/70$ inverte o sentido físico.
Q17
Termologia — Termodinâmica — Gás Ideal em Transformação Isocórica

Um gás ideal e monoatômico contido em uma garrafa fechada com $0{,}1\text{ m}^3$ está inicialmente a $300\text{ K}$ e a $100\text{ kPa}$. Em seguida, esse gás é aquecido, atingindo $600\text{ K}$. Nessas condições, o calor fornecido ao gás, em kJ, foi:

A)$5$
B)$10$
C)$15$
D)$30$
E)$45$

Gabarito Oficial

C
Resolução

A garrafa está fechada (rígida), logo o volume do gás é constante e ele não realiza trabalho: pela primeira lei da termodinâmica, todo o calor fornecido vira variação de energia interna, $Q=\Delta U$.

Para um gás ideal monoatômico, $U=\dfrac32\,nRT$. Do estado inicial, $nR=\dfrac{pV}{T}=\dfrac{100\,000\cdot0{,}1}{300}=\dfrac{100}{3}\text{ J/K}$. Então \[Q=\Delta U=\frac32\,nR\,\Delta T=\frac32\cdot\frac{100}{3}\cdot(600-300)=15\,000\text{ J}=15\text{ kJ}.\]

Cuidado, armadilha! Como o volume não varia, o calor molar a usar é $C_V=\tfrac32R$. Usar $C_P=\tfrac52R$ (que vale para pressão constante) daria $25\text{ kJ}$, um valor que nem consta nas alternativas, mas que tenta quem confunde as duas situações.
Q18
Mecânica — Cinemática — Trajetória no Plano e Força Elétrica

Uma partícula $A$, de carga positiva $+Q$, está presa a um veículo em movimento, cujas coordenadas de sua posição $X_A$ e $Y_A$, em metros, estão descritas abaixo em função do tempo $t$, em segundos.

$X_A(t)=3\sqrt2\,t+2\sqrt2$

$Y_A(t)=t^2+t-11$

A força elétrica provocada pela interação entre a partícula $A$ e uma partícula $B$, de mesma carga, fixada no ponto de coordenadas $(X_A,Y_A)=(0,1)$, será ortogonal à trajetória do veículo quando o instante $t>0$ for igual a:

A)$1$
B)$\dfrac12$
C)$\dfrac34$
D)$\dfrac58$
E)$\dfrac18$

Gabarito Oficial

Questão anulada pela banca
Resolução

A banca anulou esta questão. Uma provável razão é a notação do enunciado, que dá a posição da partícula fixa $B$ como $(X_A,Y_A)=(0,1)$, o que parece um erro de digitação para $(X_B,Y_B)=(0,1)$. Resolvendo com $B$ em $(0,\,1)$, a resposta seria $t=1\text{ s}$, e a questão fica como exercício de cinemática vetorial.

Velocidade. Na direção $x$ o movimento é uniforme, pois $X_A$ é função do primeiro grau de $t$, com velocidade $v_x=3\sqrt2\text{ m/s}$. Na direção $y$, $Y_A=t^2+t-11$ corresponde a um movimento uniformemente variado, com velocidade inicial $v_{0y}=1\text{ m/s}$ e aceleração $a_y=2\text{ m/s}^2$ (o coeficiente de $t^2$ é $a_y/2=1$), de modo que $v_y=1+2t$. Logo, \[\vec v=\left(3\sqrt2,\ \ 1+2t\right).\]

Direção da força. Como as cargas têm o mesmo sinal, a força é de repulsão e atua ao longo da reta que liga $B$ a $A$. O vetor de $B$ até $A$ é \[\vec r=\left(X_A-0,\ \ Y_A-1\right)=\left(3\sqrt2\,t+2\sqrt2,\ \ t^2+t-12\right).\]

Condição de perpendicularidade. A força é ortogonal à trajetória quando $\vec r$ é perpendicular a $\vec v$, ou seja, quando $\vec r\cdot\vec v=0$: \[3\sqrt2\,(3\sqrt2\,t+2\sqrt2)+(t^2+t-12)(1+2t)=0.\] O primeiro termo vale $18t+12$ e o segundo, depois de multiplicar, $2t^3+3t^2-23t-12$. Somando, \[2t^3+3t^2-5t=t\,(2t^2+3t-5)=t\,(2t+5)(t-1)=0.\]

As raízes são $t=0$, $t=-\tfrac52$ e $t=1$. Como pede-se $t>0$, resulta $t=1\text{ s}$.

Cuidado, armadilha! A força elétrica tem a direção da reta que liga as duas cargas, e não a da velocidade nem a da aceleração do veículo. Também é preciso descartar as raízes $t=0$ (excluída pelo enunciado, que pede $t>0$) e $t=-5/2$ (instante anterior ao início).
Q19
Ondulatória — Acústica — Eco em Escadaria e Efeito Doppler
Uma escadaria de três degraus, cada um com 1 m de largura, à esquerda; à direita, um patinador se move para a esquerda a 18 km/h, em direção à escadaria

Um patinador em velocidade constante de $18\text{ km/h}$ vai ao encontro de uma escadaria, batendo palma. O som produzido pela palma é refletido horizontalmente em cada degrau de $1\text{ m}$ de largura, fazendo com que o patinador perceba um som composto por vários tons. A menor componente de frequência da onda sonora refletida percebida com um máximo de intensidade pelo patinador, em Hz, é:

Dado:

  • velocidade de propagação do som: $340\text{ m/s}$.
A)$167{,}5$
B)$170{,}0$
C)$172{,}5$
D)$340{,}0$
E)$345{,}0$

Gabarito Oficial

C
Resolução

A palma é um pulso curto. Cada degrau devolve um eco e, como os degraus são igualmente espaçados, os ecos chegam ao patinador em intervalos regulares, formando um trem periódico de pulsos. O sinal tem, então, componentes de frequência que são múltiplas de $f=\dfrac1{\Delta t}$, sendo $\Delta t$ o intervalo entre ecos consecutivos. A menor componente é a própria $f=1/\Delta t$.

Intervalo entre ecos. Seja $D_k$ a distância do patinador (no instante da palma) ao degrau $k$, e $v=18\text{ km/h}=5\text{ m/s}$ a velocidade dele, em direção à escadaria. O som vai até o degrau e volta, e o patinador se aproxima enquanto isso. Eles se encontram no instante $t_k$ em que a distância percorrida pelo som é a ida $D_k$ mais a volta $D_k-v\,t_k$: \[v_s\,t_k=D_k+\left(D_k-v\,t_k\right)\quad\Rightarrow\quad t_k=\frac{2D_k}{v_s+v}.\] Degraus consecutivos diferem em $1\text{ m}$ de distância (a largura de cada um), de modo que \[\Delta t=\frac{2\cdot1}{v_s+v}=\frac{2}{345}\text{ s}.\]

Frequência. \[f=\frac1{\Delta t}=\frac{345}{2}=172{,}5\text{ Hz}.\]

Cuidado, armadilha! Duas coisas elevam ou reduzem o valor: o eco percorre o degrau de ida e volta (o fator 2 no intervalo); e o patinador anda em direção às frentes de onda, de modo que o intervalo entre ecos que ele percebe é menor, e a frequência é maior que $170\text{ Hz}$ (que seria o resultado com o patinador parado).
Q20
Mecânica — Energia — Queda com Corda Elástica
Um corpo preso a uma corda elástica no topo de um prédio de altura H, pronto para ser abandonado em queda livre

Um corpo preso a uma corda elástica é abandonado em queda livre do topo de um edifício, conforme apresentado na figura acima. Ao atingir o solo, penetra numa distância $x$ abaixo do nível do solo até atingir o repouso. Diante do exposto, a força de resistência média que o solo exerce sobre o corpo é:

Dados:

  • aceleração gravitacional: $g$;
  • constante elástica da corda: $k$;
  • massa do corpo: $M$;
  • altura do edifício em relação ao solo: $H$;
  • comprimento da corda: $L$;
  • distância que o corpo penetra no solo até atingir o repouso: $x$.

Observação:

  • a corda elástica relaxada apresenta comprimento menor que a altura do edifício.
A)$Mg+\dfrac{MgH+k(HL+Lx-Hx)}{x}-k\,\dfrac{H^2+x^2+L^2}{2x}$
B)$Mg+\dfrac{MgH+k(HL-Lx-Hx)}{2x}-k\,\dfrac{H^2+x^2+L^2}{x}$
C)$Mg+\dfrac{MgH-k(HL+Lx+Hx)}{2x}+k\,\dfrac{H^2+x^2+L^2}{x}$
D)$Mg-\dfrac{MgH-k(HL-Lx-Hx)}{x}+k\,\dfrac{H^2+x^2+L^2}{2x}$
E)$Mg+\dfrac{MgH-k(HL+Lx-Hx)}{x}-k\,\dfrac{H^2+x^2+L^2}{2x}$

Gabarito Oficial

A
Resolução

Vamos usar o balanço de energia entre a soltura (repouso no topo) e o repouso final no solo, ao fim da penetração. Tomamos a energia potencial gravitacional como a perda total de altura, $H+x$.

Energias. A corda está presa no topo do edifício e o corpo parte do mesmo ponto, de modo que ela começa frouxa. No final, o corpo está a uma distância $H+x$ do ponto de fixação e, como a corda relaxada tem comprimento $L<H$, ela está estirada de $H+x-L$, armazenando energia elástica $\tfrac12k\,(H+x-L)^2$. O corpo começa e termina em repouso, logo a energia cinética inicial e final é nula.

Balanço. A energia potencial gravitacional perdida, $Mg\,(H+x)$, converte-se em energia elástica e em trabalho contra a resistência média $F$ do solo, que atua ao longo da penetração $x$: \[Mg\,(H+x)=\frac12\,k\,(H+x-L)^2+F\,x.\]

Isolando $F$. \[F=Mg+\frac{MgH}{x}-\frac{k\,(H+x-L)^2}{2x}.\] Desenvolvendo o quadrado, $(H+x-L)^2=H^2+x^2+L^2+2\,(Hx-HL-Lx)$, e dividindo por $2x$: \[\frac{k\,(H+x-L)^2}{2x}=k\,\frac{H^2+x^2+L^2}{2x}+\frac{k\,(Hx-HL-Lx)}{x}.\] Substituindo e juntando os termos com denominador $x$: \[F=Mg+\frac{MgH+k\,(HL+Lx-Hx)}{x}-k\,\frac{H^2+x^2+L^2}{2x}.\]

Cuidado, armadilha! A deformação da corda no final é $H+x-L$, e não $H-L$: o corpo ainda desce mais $x$ dentro do solo e a corda continua se estirando. Esquecer o $x$ muda a energia elástica e também os sinais de vários termos.
Q21
Mecânica — Estática — Barra Apoiada em Duas Hastes
Barra horizontal CE de 4,5 m: a extremidade C está ligada à haste vertical AC, que desce até o apoio A (2,0 m abaixo); o ponto D, a 1,5 m de C, está ligado à haste vertical BD, que sobe até o apoio B (2,0 m acima); uma carga de 1,8 kN age para baixo na extremidade E, a 3,0 m de D

A figura acima apresenta uma estrutura em equilíbrio, formada por uma barra horizontal $CE$ e duas barras verticais rotuladas $AC$ e $BD$. Todas as barras possuem material uniforme e homogêneo e as barras $AC$ e $BD$ têm peso desprezível, enquanto a barra $CE$ tem densidade linear de massa $\mu$. Na extremidade da barra $CE$, há uma carga concentrada vertical, de cima para baixo, de $1{,}8\text{ kN}$. Para que a força de tração na barra $BD$ seja $8{,}1\text{ kN}$, a densidade linear de massa $\mu$ da barra $CE$, em kg/m, e a força em módulo na barra $AC$, em kN, devem ser iguais a:

Dado:

  • aceleração da gravidade: $g=10\text{ m/s}^2$.
A)$40$ e $3{,}6$
B)$40$ e $4{,}5$
C)$60$ e $3{,}6$
D)$400$ e $4{,}5$
E)$600$ e $3{,}5$

Gabarito Oficial

B
Resolução

As hastes $AC$ e $BD$ têm peso desprezível e são rotuladas nas duas extremidades, de modo que só transmitem forças ao longo do seu eixo, isto é, na vertical. Sobre a barra $CE$ (comprimento $1{,}5+3{,}0=4{,}5\text{ m}$) atuam: o peso $P=\mu\cdot4{,}5\cdot g$, no centro, a $2{,}25\text{ m}$ de $C$; a carga de $1{,}8\text{ kN}$ em $E$, a $4{,}5\text{ m}$ de $C$; a tração de $8{,}1\text{ kN}$ da haste $BD$, para cima, em $D$, a $1{,}5\text{ m}$ de $C$; e a força $F$ da haste $AC$, vertical, em $C$.

Torques em torno de $C$ (o que elimina $F$). O torque da tração em $D$ é anti-horário, e os do peso e da carga são horários: \[8{,}1\cdot1{,}5=P\cdot2{,}25+1{,}8\cdot4{,}5\quad\Rightarrow\quad12{,}15=2{,}25\,P+8{,}1\quad\Rightarrow\quad P=1{,}8\text{ kN}.\] Como $P=\mu\cdot4{,}5\cdot10$, \[\mu=\frac{1800}{4{,}5\cdot10}=40\text{ kg/m}.\]

Forças verticais. A soma das forças para cima deve igualar a das forças para baixo. Chamando de $F$ a força de $AC$ sobre a barra, positiva para cima: \[8{,}1+F=P+1{,}8=3{,}6\quad\Rightarrow\quad F=-4{,}5\text{ kN}.\] O sinal negativo indica que a força de $AC$ aponta para baixo (a haste $AC$ está tracionada), e seu módulo é $4{,}5\text{ kN}$.

Cuidado, armadilha! Escrever os torques em torno de $C$ evita a incógnita $F$ e resolve $\mu$ de uma vez. O peso da barra atua no seu centro ($2{,}25\text{ m}$ de $C$), e não em $D$ nem em $E$.
Q22
Mecânica — Hidrostática — Prensa Hidráulica e Plano Inclinado
Dois vasos comunicantes fechados por pistões de áreas A1 (esquerda, sob a força F) e A2 (direita), à mesma altura. Sobre o pistão A2 há uma haste com uma roldana; o cabo liga a estrutura central dos vasos à roldana e daí ao bloco de massa m, sobre um plano inclinado de ângulo teta

A figura acima apresenta um bloco preso a um cabo inextensível e apoiado em um plano inclinado. O cabo passa por uma roldana de dimensões desprezíveis, tendo sua outra extremidade presa à estrutura de um sistema de vasos comunicantes. Os vasos estão preenchidos com um líquido e fechados por dois pistões de massas desprezíveis e equilibrados à mesma altura. O sistema é montado de forma que a força de tração no cabo seja paralela ao plano inclinado e que não haja esforço de flexão na haste que prende a roldana. A expressão da força $F$ que mantém o sistema em equilíbrio, em função dos dados a seguir, é:

Dados:

  • Aceleração da gravidade: $g$;
  • Massa do corpo: $m$;
  • Inclinação do plano de apoio: $\theta$;
  • Áreas dos pistões: $A_1$ e $A_2$.
A)$\dfrac{A_1}{A_2}\,mg\,\mathrm{sen}^2(\theta)$
B)$\dfrac{A_1}{A_2}\,mg\cos^2(\theta)$
C)$2\,\dfrac{A_1}{A_2}\,mg\,\mathrm{sen}^2(\theta)$
D)$2\,\dfrac{A_1}{A_2}\,mg\cos^2(\theta)$
E)$\dfrac{A_1}{A_2}\,mg\,\mathrm{sen}(2\theta)$

Gabarito Oficial

C
Resolução

Percorremos a cadeia a partir do bloco até a força $F$. As etapas são: a tração no cabo, a força que o cabo exerce sobre a roldana, a pressão no líquido sob o pistão $A_2$ e, por Pascal, a força $F$ sobre o pistão $A_1$.

Tração. O plano é considerado liso e o bloco está em equilíbrio, com o cabo paralelo ao plano: \[T=mg\,\mathrm{sen}\,\theta.\]

Força sobre a roldana. A roldana está montada, por meio de uma haste, sobre o pistão $A_2$. O cabo passa por ela e puxa por dois lados: um trecho vai ao bloco, paralelo ao plano e, portanto, inclinado de $\theta$ com a horizontal; o outro desce para a estrutura central dos vasos, e a figura o mostra com o mesmo ângulo $\theta$. Como a haste não sofre flexão, as componentes horizontais se cancelam: $T\cos\theta$ para um lado e $T\cos\theta$ para o outro. Sobram as componentes verticais, ambas para baixo, e a haste empurra o pistão $A_2$ com a força \[F_2=2\,T\,\mathrm{sen}\,\theta=2\,mg\,\mathrm{sen}^2\theta.\] (A outra extremidade do cabo está presa à estrutura rígida dos vasos, de modo que essa tração não age sobre o líquido.)

Princípio de Pascal. Os pistões têm massa desprezível e estão à mesma altura, logo a pressão sob os dois é a mesma: \[\frac{F}{A_1}=\frac{F_2}{A_2}\quad\Rightarrow\quad F=\frac{A_1}{A_2}\cdot2\,mg\,\mathrm{sen}^2\theta.\]

Cuidado, armadilha! O cabo passa pela roldana e a puxa por dois lados, e o ângulo de cada trecho é $\theta$: a força vertical total é $2T\,\mathrm{sen}\,\theta$ e não $T\,\mathrm{sen}\,\theta$. E não confunda a tração, $T=mg\,\mathrm{sen}\,\theta$ (componente ao longo do plano), com $mg\cos\theta$, que é a componente normal.
Q23
Termologia — Transmissão de Calor — Condução em Parede Composta

Deseja-se minimizar a taxa de transferência de calor em uma parede feita de um determinado material, de espessura conhecida, submetendo-a a um diferencial de temperatura. Isso é feito adicionando-se uma camada isolante refratária de $15\%$ da espessura da parede, de forma que cuidadosas medidas experimentais indicam que a taxa de transferência de calor passa a ser $40\%$ em relação à situação original. Supondo que o diferencial de temperatura entre as extremidades livres da parede original e da parede composta seja o mesmo, pode-se afirmar que a condutividade térmica do material refratário é numericamente igual a

A)$10\,\%$ da condutividade térmica do material da parede.
B)$15\,\%$ da condutividade térmica do material da parede.
C)$4{,}5\,\%$ da condutividade térmica do material da parede.
D)$22{,}22\,\%$ da condutividade térmica do material da parede.
E)$33{,}33\,\%$ da condutividade térmica do material da parede.

Gabarito Oficial

A
Resolução

Em regime estacionário, o fluxo de calor por uma parede é $\Phi=\dfrac{\Delta T}{R_{t}}$, com a resistência térmica $R_t=\dfrac{e}{kA}$ (espessura sobre condutividade vezes área). Camadas em série somam suas resistências.

Situação original (espessura $e$, condutividade $k$): $R_0=\dfrac{e}{kA}$. Situação composta: a parede original mais uma camada refratária de espessura $0{,}15\,e$ e condutividade $k_r$: \[R=\frac{e}{kA}+\frac{0{,}15\,e}{k_rA}.\]

Com o mesmo $\Delta T$, a taxa é inversamente proporcional à resistência. Se a nova taxa é $40\%$ da original, a resistência total é $\dfrac1{0{,}4}=2{,}5$ vezes a original: \[\frac{e}{kA}+\frac{0{,}15\,e}{k_rA}=2{,}5\,\frac{e}{kA}\quad\Rightarrow\quad\frac{0{,}15}{k_r}=\frac{1{,}5}{k}\quad\Rightarrow\quad k_r=0{,}1\,k.\]

A condutividade do material refratário é $10\%$ da do material da parede.

Cuidado, armadilha! A camada é adicionada: a espessura total passa a ser $1{,}15\,e$. Se ela substituísse $15\%$ da parede, o resultado seria outro ($k_r\approx9{,}1\%$ de $k$), que não consta nas alternativas.
Q24
Ondulatória — Ondas em Cordas — Reflexão e Transmissão em Corda Mista

Uma corda mista sobre o eixo horizontal tem uma densidade linear para a coordenada $x<0$ e outra para $x\ge0$. Uma onda harmônica, dada por $A\,\mathrm{sen}(\omega t-k_1x)$, onde $t$ é o instante de tempo, propaga-se na região onde $x<0$ e é parcialmente refletida e parcialmente transmitida em $x=0$. Se a onda refletida e a transmitida são dadas por $B\,\mathrm{sen}(\omega t+k_1x)$ e $C\,\mathrm{sen}(\omega t-k_2x)$, respectivamente, onde $\omega$, $k_1$ e $k_2$ são constantes, então a razão entre as amplitudes da onda refletida e da incidente, dada por $\left|B/A\right|$, é igual a:

Observação:

  • considere $\dfrac{\mathrm{sen}(ax)}{x}=a$, para $|x|$ próximo a zero.
A)$\left|\dfrac{k_1-k_2}{k_1+2k_2}\right|$
B)$\left|\dfrac{k_1-k_2}{2k_1+k_2}\right|$
C)$\left|\dfrac{k_1-k_2}{k_1}\right|$
D)$\left|\dfrac{k_1-k_2}{k_2}\right|$
E)$\left|\dfrac{k_1-k_2}{k_1+k_2}\right|$

Gabarito Oficial

E
Resolução

Em $x=0$ a corda é contínua e a junção não tem massa. Isso impõe duas condições: o deslocamento é o mesmo dos dois lados (a corda não se rompe) e a inclinação da corda também é a mesma (senão haveria uma força resultante infinita sobre a junção, que não tem massa).

Deslocamento em $x=0$. No lado esquerdo, o deslocamento é a soma da onda incidente com a refletida, e no direito é a transmitida. Em $x=0$, todas oscilam como $\mathrm{sen}\,\omega t$: \[A+B=C.\]

Inclinação em $x=0$. Para $x$ pequeno, $\mathrm{sen}(\omega t-kx)=\mathrm{sen}\,\omega t\cos(kx)-\cos\omega t\,\mathrm{sen}(kx)\approx\mathrm{sen}\,\omega t-kx\cos\omega t$ (é aqui que se usa a observação do enunciado, $\mathrm{sen}(kx)\approx kx$). Logo, a inclinação da onda incidente em $x=0$ é $-k_1A\cos\omega t$, a da refletida é $+k_1B\cos\omega t$ e a da transmitida é $-k_2C\cos\omega t$. A continuidade da inclinação dá \[-k_1A+k_1B=-k_2C\quad\Rightarrow\quad k_1\,(A-B)=k_2\,C.\]

Resolvendo. Substituindo $C=A+B$: \[k_1\,(A-B)=k_2\,(A+B)\quad\Rightarrow\quad A\,(k_1-k_2)=B\,(k_1+k_2)\quad\Rightarrow\quad\frac BA=\frac{k_1-k_2}{k_1+k_2}.\] Então \[\left|\frac BA\right|=\left|\frac{k_1-k_2}{k_1+k_2}\right|.\]

Cuidado, armadilha! A onda refletida viaja no sentido oposto, por isso aparece como $\mathrm{sen}(\omega t+k_1x)$, e sua inclinação tem sinal contrário à da incidente. Esse sinal é o que dá $k_1-k_2$ no numerador; se fosse esquecido, resultaria $k_2-k_1$ ou uma soma.
Q25
Eletricidade — Eletrodinâmica — Potência de Placa Solar e Geometria do Cubo
Uma placa fotovoltaica em forma de hexágono, inscrita em um cubo, que pode girar em torno de um eixo de rotação que passa pelo vértice C; as arestas AB e CD são verticais, o ângulo theta mede a inclinação em relação à posição inicial

A figura acima apresenta uma placa fotovoltaica em forma de hexágono sustentada por uma estrutura em forma de cubo, que pode girar em torno do eixo de rotação assinalado. Esta placa tem a capacidade máxima de $100\text{ W}$ de potência e sua tensão de saída é constante em $10\text{ V}$. A potência máxima é atingida quando a radiação solar incide na placa perpendicularmente. Sabe-se que a radiação incide perpendicularmente à aresta $\overline{AB}$ e ao eixo de rotação ($\theta=0$ na figura). A maior inclinação $\theta$ que a estrutura cúbica pode sofrer, diminuindo a potência fornecida pela placa, e ainda assim permitindo que a mesma alimente um resistor de $2{,}5\text{ }\Omega$, é:

A)$\operatorname{asen}(0{,}4)-\operatorname{asen}\left(\dfrac{\sqrt3}{2}\right)$
B)$\operatorname{acos}(0{,}4)-\operatorname{acos}\left(\dfrac{\sqrt3}{2}\right)$
C)$\operatorname{acos}(0{,}4)-\operatorname{acos}\left(\dfrac{\sqrt3}{3}\right)$
D)$\operatorname{acos}(0{,}4)-\operatorname{asen}\left(\dfrac{\sqrt3}{3}\right)$
E)$\operatorname{asen}(0{,}4)-\operatorname{acos}\left(\dfrac{\sqrt3}{3}\right)$

Gabarito Oficial

D
Resolução

Quanto de potência é preciso. Para alimentar o resistor de $2{,}5\text{ }\Omega$ com a tensão de saída de $10\text{ V}$, a corrente é $I=\dfrac{10}{2{,}5}=4\text{ A}$, e a potência mínima é $P_{min}=10\cdot4=40\text{ W}$, isto é, $40\%$ da potência máxima. A potência da placa varia com o ângulo $\varphi$ entre a radiação e a normal da placa: $P=100\cos\varphi$. Então \[\cos\varphi\ge0{,}4.\]

Geometria da placa. O hexágono é a seção do cubo perpendicular à sua diagonal principal, que, portanto, é a normal $\vec n$ da placa. Pela figura, a aresta $AB$ é vertical, e a radiação, perpendicular a ela, é horizontal. O eixo de rotação é perpendicular a $\vec n$ e à radiação: ele é a diagonal da face horizontal que passa por $C$, e o giro da estrutura em torno desse eixo apenas muda o ângulo entre $\vec n$ e a radiação, que está no plano vertical que contém $\vec n$.

Ângulo inicial. A diagonal principal do cubo faz com o plano horizontal da base o ângulo $\varphi_0$ tal que $\mathrm{sen}\,\varphi_0=\dfrac{\text{altura do cubo}}{\text{diagonal}}=\dfrac1{\sqrt3}=\dfrac{\sqrt3}{3}$. Em $\theta=0$, a radiação (horizontal) e a normal fazem exatamente esse ângulo: \[\varphi_0=\operatorname{asen}\left(\frac{\sqrt3}{3}\right)\approx35{,}3^\circ,\] e a potência inicial é $100\cos\varphi_0\approx81{,}6\text{ W}$.

Inclinação máxima. Ao girar a estrutura (no sentido que afasta a normal da radiação), o ângulo vale $\varphi=\varphi_0+\theta$. O limite é $\cos(\varphi_0+\theta)=0{,}4$, ou seja, \[\theta_{max}=\operatorname{acos}(0{,}4)-\varphi_0=\operatorname{acos}(0{,}4)-\operatorname{asen}\left(\frac{\sqrt3}{3}\right)\approx66{,}4^\circ-35{,}3^\circ\approx31^\circ.\]

Cuidado, armadilha! O ângulo inicial é $\operatorname{asen}(\sqrt3/3)\approx35^\circ$ (a elevação da diagonal sobre a base), e não $\operatorname{acos}(\sqrt3/3)\approx55^\circ$, que é o ângulo entre a diagonal e uma aresta. Trocar um pelo outro dá os distratores com $\operatorname{acos}(\sqrt3/3)$.
Q26
Eletricidade — Eletrodinâmica — Associação de Módulos de Resistores
Arranjo de N módulos de resistores. Cada módulo tem os nós A, B e C, um resistor R entre A e B, dois resistores R em série entre A e B com o nó do meio ligado, por mais um resistor R, ao nó C. Os nós A estão ligados entre si, os B entre si e os C entre si por condutores ideais; no primeiro módulo há duas baterias U, ligadas de A a C e de B a C

A figura acima apresenta um arranjo de resistores composto por $N$ módulos formados por resistores iguais a $R$. Esses módulos possuem os nós A, B e C, sendo que todos os nós A são conectados entre si por meio de condutores ideais, conforme apresentado na figura, o mesmo acontecendo com os nós B entre si. No primeiro módulo, existem duas baterias com ddp iguais a $U$. A relação numérica $U^2/R$ para que a potência total dissipada pelo arranjo seja igual a $N$ watts é:

A)$\dfrac13$
B)$\dfrac23$
C)$1$
D)$\dfrac43$
E)$\dfrac32$

Gabarito Oficial

E
Resolução

Os nós $A$ de todos os módulos estão ligados por condutores ideais e, portanto, no mesmo potencial; o mesmo vale para os nós $B$ e para os nós $C$. Assim, todos os módulos ficam submetidos às mesmas tensões entre $A$, $B$ e $C$, e dissipam a mesma potência. Basta analisar um módulo e multiplicar por $N$.

Potenciais. As duas baterias, uma ligada de $C$ a $A$ e outra de $C$ a $B$, impõem $V_A-V_C=U$ e $V_B-V_C=U$. Logo $V_A=V_B$: o resistor $R$ ligado diretamente entre $A$ e $B$ não tem diferença de potencial e não conduz corrente.

Um módulo. Os outros dois resistores $R$ ligam $A$ e $B$ ao ponto médio $M$. Como $A$ e $B$ estão no mesmo potencial, esses dois resistores estão em paralelo, equivalendo a $\dfrac R2$ entre $A$ (ou $B$) e $M$. Em série com o resistor $R$ entre $M$ e $C$: \[R_{eq}=\frac R2+R=\frac{3R}{2}\quad\text{sob a tensão }U.\] A potência de um módulo é \[P_1=\frac{U^2}{R_{eq}}=\frac{2U^2}{3R}.\]

Arranjo todo. \[P=N\,P_1=N\cdot\frac{2U^2}{3R}=N\ \text{(watts)}\quad\Rightarrow\quad\frac{U^2}{R}=\frac32.\]

Cuidado, armadilha! O resistor entre $A$ e $B$ não dissipa nada, porque $V_A=V_B$. Incluí-lo na associação (como se estivesse em paralelo com os outros) leva a um valor errado da resistência equivalente.
Q27
Eletromagnetismo — Força Magnética — Deflexão em Campo Fraco
Uma partícula de carga +Q, massa m e velocidade v penetra horizontalmente numa região retangular de comprimento d1, onde há um campo magnético fraco, segue por uma região de comprimento d2 sem campo e cruza o eixo Y a uma altura a, em trajetória levemente inclinada para cima

Uma partícula de carga positiva $+Q$ penetra numa região de comprimento $d_1$ sujeita a um campo magnético de baixa intensidade e ortogonal ao plano da figura acima. Em seguida, penetra numa região de comprimento $d_2$, onde não existe campo magnético. Ao longo das regiões de comprimento $d_1$ e $d_2$, a partícula percorre a trajetória indicada pela linha tracejada da figura acima. Dadas as informações a seguir, a distância $a$, indicada na figura entre a origem e o ponto de passagem da partícula pelo eixo $Y$, é aproximadamente:

Dados:

  • velocidade inicial da partícula: ortogonal ao eixo $Y$ e de módulo $v$;
  • módulo do campo magnético da região: $B$;
  • distância entre o fim da região do campo magnético e o eixo $Y$: $d_2$;
  • massa da partícula: $m$;
  • $d_2\gg d_1$;
  • deslocamento vertical da partícula dentro da região magnetizada $\ll d_1$.
A)$\dfrac{d_1d_2QB}{mv}$
B)$\dfrac{d_2\,mv}{QBd_1}$
C)$\dfrac{2d_1d_2QB}{mv}$
D)$\dfrac{d_2\,mv}{2QBd_1}$
E)$\dfrac{d_1d_2QB}{2mv}$

Gabarito Oficial

A
Resolução

Dentro da região magnetizada a força magnética é a resultante centrípeta, e a partícula descreve um arco de circunferência de raio \[R=\frac{mv}{QB}.\] O campo é fraco, de modo que $R$ é muito maior que $d_1$ e o arco é quase reto.

Ângulo de deflexão. A partícula percorre, na horizontal, a distância $d_1$ ao longo de um arco de raio $R$. O ângulo $\theta$ de que sua velocidade gira satisfaz $\mathrm{sen}\,\theta=\dfrac{d_1}{R}$ e, como o deslocamento vertical dentro da região é desprezível e $\theta$ é pequeno, \[\theta\approx\frac{d_1}{R}=\frac{QB\,d_1}{mv}.\]

Trecho sem campo. Fora da região, a partícula segue em linha reta, inclinada de $\theta$ em relação ao eixo horizontal. Como $d_2\gg d_1$, podemos medir $d_2$ a partir da saída da região (e desprezar o deslocamento vertical dentro dela): \[a\approx d_2\tan\theta\approx d_2\,\theta=\frac{d_1\,d_2\,QB}{mv}.\]

Cuidado, armadilha! A deflexão é proporcional ao produto $d_1d_2$ e ao campo $B$ (mais campo, mais desvio), e inversamente proporcional ao momento linear $mv$ (mais inércia, menos desvio). Alternativas com $mv$ no numerador contrariam esse comportamento físico.
Q28
Óptica — Refração — Ângulo Limite e Sombra Cônica

Uma mancha de óleo em forma circular, de raio inicial $r_0$, flutua em um lago profundo com água cujo índice de refração é $n$. Considere que a luz que atinge a mancha e a superfície da água seja difusa e que o raio da mancha cresça com a aceleração constante $a$. Partindo do repouso em $t=0$, o volume de água abaixo da mancha que não recebe luz, após um intervalo de tempo $t$, é:

A)$\dfrac{\pi r_0}{3\tan\left(\mathrm{sen}^{-1}\left(\frac1n\right)\right)}\left[\dfrac12at^2+r_0\right]^2$
B)$\dfrac{\pi}{2\tan\left(\mathrm{sen}^{-1}\left(\frac1n\right)\right)}\left[\dfrac12at^2+r_0\right]^3$
C)$\dfrac{\pi}{3\tan\left(\mathrm{sen}^{-1}\left(\frac1n\right)\right)}\left[\dfrac12at^2+r_0\right]^3$
D)$\dfrac{\pi r_0}{3\tan\left(\mathrm{sen}^{-1}(n)\right)}\left[\dfrac12at^2+r_0\right]^2$
E)$\dfrac{\pi r_0^{\,2}}{3\tan\left(\mathrm{sen}^{-1}(n)\right)}\left[\dfrac12at^2+r_0\right]$

Gabarito Oficial

C
Resolução

A luz difusa chega à superfície da água vinda de todas as direções, com ângulos de incidência de $0^\circ$ até $90^\circ$. Ao entrar na água, ela se refrata, e o maior ângulo de refração corresponde à incidência rasante ($90^\circ$): \[1\cdot\mathrm{sen}\,90^\circ=n\,\mathrm{sen}\,\theta_{max}\quad\Rightarrow\quad\theta_{max}=\mathrm{sen}^{-1}\!\left(\frac1n\right).\] Esse é o ângulo máximo com a vertical que um raio de luz pode ter dentro da água.

Região sem luz. Sob uma mancha de raio $r$, a luz que entra pelas bordas, com o ângulo máximo, converge em direção ao eixo e se encontra a uma profundidade $h$ tal que $\tan\theta_{max}=\dfrac rh$. Abaixo disso a luz vinda de todos os lados passa a chegar; acima, há uma região sem luz em forma de cone com vértice para baixo, base de raio $r$ e altura \[h=\frac{r}{\tan\theta_{max}}.\]

Volume do cone. \[V=\frac13\,\pi\,r^2\,h=\frac{\pi\,r^3}{3\tan\left(\mathrm{sen}^{-1}(1/n)\right)}.\]

Raio no instante $t$. O raio da mancha cresce com aceleração constante, a partir do repouso (velocidade de crescimento nula em $t=0$), de modo que $r=r_0+\dfrac12\,a\,t^2$. Substituindo, \[V=\frac{\pi}{3\tan\left(\mathrm{sen}^{-1}(1/n)\right)}\left[\frac12\,at^2+r_0\right]^3.\]

Cuidado, armadilha! O volume do cone envolve $r^2\cdot h$, e como $h$ é proporcional a $r$, o resultado depende do cubo do raio, e não do quadrado nem de $r_0$ multiplicando. Além disso, $\mathrm{sen}^{-1}(n)$ não existe para $n>1$: o ângulo limite é sempre $\mathrm{sen}^{-1}(1/n)$.
Q29
Mecânica — Cinemática — Lançamento Oblíquo e Rotação no Tubo

Um projétil é lançado obliquamente de um canhão, atingindo um alcance igual a $1000\text{ m}$ no plano horizontal que contém a boca do canhão. Nesse canhão, o projétil parte do repouso executando um movimento uniformemente variado dentro do tubo até sair pela boca do canhão. Ademais, a medida que o projétil se desloca no interior do tubo, ele executa um movimento uniformemente variado de rotação, coaxial ao tubo. Tendo sido o projétil rotacionado de $1\text{ rad}$ durante seu deslocamento dentro do canhão, sua aceleração angular, em rad/s², ao deixar o canhão é:

Dados:

  • ângulo do tubo do canhão em relação à horizontal: $45^\circ$;
  • comprimento do tubo: $2\text{ m}$;
  • aceleração da gravidade: $g=10\text{ m/s}^2$.

Consideração:

  • despreze a resistência do ar.
A)$12{,}5$
B)$25$
C)$1250$
D)$2500$
E)$500$

Gabarito Oficial

C
Resolução

Resolvemos de trás para a frente: do alcance, obtemos a velocidade de saída; dela, o tempo dentro do tubo; e, desse tempo, a aceleração angular.

Velocidade de saída. No lançamento oblíquo, o alcance é $R=\dfrac{v_0^2\,\mathrm{sen}\,2\alpha}{g}$. Com $\alpha=45^\circ$ ($\mathrm{sen}\,90^\circ=1$): \[1000=\frac{v_0^2}{10}\quad\Rightarrow\quad v_0=100\text{ m/s}.\]

Tempo no tubo. Dentro do tubo, o projétil parte do repouso com aceleração constante $a$ e percorre $L=2\text{ m}$ até atingir $100\text{ m/s}$. Pela equação de Torricelli, $v_0^2=2aL$, \[a=\frac{100^2}{2\cdot2}=2500\text{ m/s}^2,\qquad t=\frac{v_0}{a}=\frac{100}{2500}=0{,}04\text{ s}.\]

Aceleração angular. A rotação também parte do repouso e é uniformemente variada. Em $t=0{,}04\text{ s}$, o projétil gira $\Delta\varphi=1\text{ rad}$: \[\Delta\varphi=\frac12\,\alpha\,t^2\quad\Rightarrow\quad1=\frac12\,\alpha\,(0{,}04)^2\quad\Rightarrow\quad\alpha=\frac{2}{0{,}0016}=1250\text{ rad/s}^2.\] Como a aceleração angular é constante, esse também é o seu valor ao sair do canhão.

Cuidado, armadilha! O enunciado pergunta pela aceleração angular, que é constante e vale o mesmo durante todo o trajeto; não se deve confundi-la com a velocidade angular na saída, $\omega=\alpha t=50\text{ rad/s}$.
Q30
Mecânica — Colisões — Força de um Feixe de Projéteis sobre uma Esfera
Feixe de projéteis horizontais, da esquerda para a direita, atingindo uma esfera; o ângulo alfa é medido entre o raio da esfera que passa pelo ponto de impacto e o eixo horizontal que passa pelo centro

Considere um feixe homogêneo de pequenos projéteis deslocando-se na mesma direção e na mesma velocidade constante até atingir a superfície de uma esfera que está sempre em repouso.

A esfera pode ter um ou dois tipos de superfícies: uma superfície totalmente refletora (colisão perfeitamente elástica entre a esfera e o projétil) e/ou uma superfície totalmente absorvedora (colisão perfeitamente inelástica entre a esfera e o projétil).

Em uma das superfícies (refletora ou absorvedora), o ângulo $\alpha$ da figura pertence ao intervalo $[0,\beta]$, enquanto na outra superfície (absorvedora ou refletora) $\alpha$ pertence ao intervalo $\left(\beta,\tfrac\pi2\right]$.

Para que a força aplicada pelos projéteis sobre a esfera seja máxima, o(s) tipo(s) de superfície(s) é(são):

A)refletora em $\left[0,\tfrac\pi3\right]$ e absorvedora em $\left(\tfrac\pi3,\tfrac\pi2\right]$.
B)refletora em $\left[0,\tfrac\pi4\right]$ e absorvedora em $\left(\tfrac\pi4,\tfrac\pi2\right]$.
C)absorvedora em $\left[0,\tfrac\pi6\right]$ e refletora em $\left(\tfrac\pi6,\tfrac\pi2\right]$.
D)absorvedora em $\left[0,\tfrac\pi4\right]$ e refletora em $\left(\tfrac\pi4,\tfrac\pi2\right]$.
E)absorvedora em $\left[0,\tfrac\pi2\right]$.

Gabarito Oficial

B
Resolução

A esfera está sempre em repouso, e os projéteis chegam todos com a mesma quantidade de movimento $p$, horizontal. Para um projétil que atinge a esfera num ponto em que a normal faz o ângulo $\alpha$ com a horizontal, vamos calcular o impulso que ele aplica na esfera na direção do feixe (as componentes verticais se cancelam, por simetria, entre as metades de cima e de baixo).

Superfície absorvedora (colisão perfeitamente inelástica). Como a esfera está em repouso, o projétil fica parado depois do choque e entrega toda a sua quantidade de movimento: \[J_{abs}=p.\]

Superfície refletora (colisão elástica). A componente da velocidade normal à superfície se inverte, e a tangencial se conserva. O impulso é normal à superfície e vale $2p\cos\alpha$. Sua projeção na direção do feixe é \[J_{ref}=2p\cos\alpha\cdot\cos\alpha=2p\cos^2\alpha.\]

Comparação. A refletora é melhor quando $2\cos^2\alpha>1$, isto é, $\cos^2\alpha>\tfrac12$, ou $\alpha<\dfrac\pi4$. Para $\alpha>\dfrac\pi4$, a absorvedora é melhor. A comparação vale projétil a projétil, e o número de projéteis que atinge cada faixa de $\alpha$ é o mesmo nos dois casos (depende só da geometria do feixe). Assim, a força total é máxima com superfície refletora em $\left[0,\tfrac\pi4\right]$ e absorvedora em $\left(\tfrac\pi4,\tfrac\pi2\right]$, o que dá $\beta=\tfrac\pi4$.

Cuidado, armadilha! Na reflexão elástica, o impulso normal é o dobro, $2p\cos\alpha$, mas só a parte projetada no eixo do feixe ($\cos\alpha$ de novo) contribui para a força resultante. Perto das bordas ($\alpha\to90^\circ$), o projétil quase raspa a esfera: a refletora transfere quase nada, e a absorvedora, que transfere sempre $p$, é a melhor.
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