OBF 2001

2ª fase · 3ª série

Olimpíada Brasileira de Física · 8 questões discursivas · arquivo histórico.

Q01
Movimento circular vertical — Aceleração e energia

Uma pedra de massa m, amarrada na extremidade de um fio ideal, gira numa trajetória circular de raio R no plano vertical (ver figura). Despreze quaisquer atritos.

a) Indique em que ponto(s) ao longo da trajetória a aceleração total da pedra é mínima. Justifique sua resposta.

b) Considerando que a pedra passa pelo ponto mais baixo de sua trajetória com velocidade v0 e denotando por g a aceleração da gravidade, calcule os módulos das acelerações centrípeta e tangencial da pedra em função do ângulo $\theta$ mostrado na figura.

Diagrama da questão 1: Aceleração e energia

a) No ponto mais alto; b) $a_c=v_0^2/R-2g(1+\sin\theta)$ e $a_t=g|\cos\theta|$.

Resolução comentada · Método TEF

A tensão é radial e não realiza trabalho. Com θ medido a partir da horizontal:

$$h=R(1+\sin\theta)$$

Pela conservação da energia:

$$\frac12mv_0^2=\frac12mv^2+mgR(1+\sin\theta)$$

$$v^2=v_0^2-2gR(1+\sin\theta)$$

b) As componentes pedidas, em módulo, são:

$$a_c=\frac{v_0^2}{R}-2g(1+\sin\theta)$$

$$a_t=g|\cos\theta|$$

O módulo tangencial exige valor absoluto, pois a componente assinada muda de sinal.

a) As duas componentes são perpendiculares.

$$a^2=a_c^2+a_t^2$$

No ponto mais alto a velocidade e a aceleração centrípeta são mínimas e a tangencial é zero. A aceleração total é mínima ali.

A análise pressupõe a volta completa com fio esticado, como descrita. A condição limite é v₀² ≥ 5gR.

Q02
Forças dissipativas — Travessias de obstáculo

Um objeto de massa m pode deslizar sobre uma superfície que tem uma elevação de altura h = H/8 no seu centro (ver figura). Existem duas regiões (AB e CD) de igual comprimento, L = H/2, onde há atrito com coeficiente de atrito cinético $\mu_C=0{,}5$. Fora destas regiões não há atrito. O objeto é largado a partir do repouso de uma altura H e considere que durante todo o trajeto o objeto não perde o contato com a superfície.

a) Calcule o trabalho realizado pela força de atrito sobre o objeto quando ele passa uma vez no trecho AB.

b) Calcule quantas vezes o objeto passa sobre a elevação do centro.

Diagrama da questão 2: Travessias de obstáculo

a) $-mgH/4$; b) duas passagens.

Resolução comentada · Método TEF

a) Em cada faixa horizontal o atrito se opõe ao deslocamento.

$$W_f=-\mu mgL$$

$$W_f=-(0{,}5)mg\frac H2=-\frac{mgH}{4}$$

b) A energia inicial é mgH. Após AB:

$$E_1=\frac34mgH$$

A elevação requer mgH/8, portanto ocorre a primeira passagem. Após CD, o objeto sobe à direita com energia:

$$E_2=\frac12mgH$$

No retorno, atravessar CD deixa:

$$E_3=\frac14mgH$$

Ainda pode transpor a elevação, pela segunda vez. A travessia final de BA consome a energia restante.

$$E_4=0$$

O objeto para em A e passa duas vezes sobre a elevação.

Q03
Colisões — Momento vetorial e elasticidade

Considere uma colisão bidimensional entre duas esferas A e B. Antes da colisão, a esfera A tem velocidade de módulo v ao longo do eixo horizontal x, enquanto que a esfera B está em repouso, como ilustra a figura a seguir. Depois da colisão, sabe-se que a esfera A desloca-se na superfície horizontal, numa direção perpendicular ao eixo x, e que o módulo de sua velocidade cai para $v/\sqrt3$ . Desprezam-se efeitos de atrito e a resistência do ar.

a) Calcule qual a direção, em relação ao eixo x, seguida pela esfera B após a colisão.

b) Calcule a razão mA / mB entre as massas para que a colisão em questão seja totalmente elástica.

Diagrama da questão 3: Momento vetorial e elasticidade

a) 30° com x, no lado oposto ao desvio de A; b) $m_A/m_B=1/2$.

Resolução comentada · Método TEF

Adote a velocidade final de A para +y. B precisa adquirir componente para −y.

a) Como a velocidade final de A vale v/√3:

$$m_Bv_{Bx}=m_Av$$

$$m_Bv_{By}=-\frac{m_Av}{\sqrt3}$$

$$\tan|\theta_B|=\frac{|v_{By}|}{v_{Bx}}=\frac1{\sqrt3}$$

$$|\theta_B|=30^\circ$$

B sai do lado oposto ao desvio de A.

b) Escreva r = m_A/m_B. Das componentes:

$$v_B^2=\frac43r^2v^2$$

Imponha conservação da energia cinética.

$$\frac12m_Av^2=\frac12m_A\frac{v^2}{3}+\frac12m_B\frac43r^2v^2$$

$$\frac23r=\frac43r^2$$

$$r=\frac12$$

A raiz r = 0 é excluída porque as massas são positivas.

Q04
Segunda lei — Entropia e espontaneidade

Imagine que o seguinte processo termodinâmico ocorra espontaneamente: uma sala de aula, fechada e isolada termicamente do ambiente externo, encontra-se inicialmente a uma temperatura T0, pressão p0 e contém ar homogeneamente distribuído por todo o seu volume V0. De repente, as moléculas constituintes do ar deslocamse, sem realização de trabalho, passando a ocupar apenas uma pequena parte, Vf = V0/1000, do volume total da sala. A pressão final do ar não é conhecida. Considere que o ar da sala é constituído por n moles de um gás ideal.

a) Calcule a temperatura final do ar da sala de aula.

b) Calcule a variação da entropia total do ar da sala e do ambiente, considerando que o processo mencionado tenha ocorrido de forma irreversível. Com base em sua resposta, a existência desse processo é possível? Explique. [Dado: A variação de entropia de n moles de um gás ideal durante um processo isotérmico reversível com volumes inicial e final respectivamente iguais a Vi e Vf é dada aproximadamente por ∆S = 2,3 n R log10(Vf / Vi), onde R é a constante universal dos gases.]

a) $T_f=T_0$; b) $-6{,}9nR$, logo o processo espontâneo é impossível.

Resolução comentada · Método TEF

a) A sala é isolada e não há trabalho no processo hipotético.

$$\Delta U=Q-W=0$$

No gás ideal a energia interna depende só da temperatura.

$$\Delta U=nc_V(T_f-T_0)$$

$$T_f=T_0$$

b) Entropia é função de estado. Podemos usar um caminho reversível isotérmico entre os estados hipotéticos.

$$\Delta S_{ar}=2{,}3nR\log_{10}\left(\frac{V_0/1000}{V_0}\right)$$

$$\Delta S_{ar}=-6{,}9nR$$

O ambiente não troca calor nem sofre a transformação descrita.

$$\Delta S_{amb}=0$$

$$\Delta S_{total}=-6{,}9nR$$

Essa redução contradiz a segunda lei para uma transformação espontânea do sistema isolado. A conservação da energia não basta para permitir o processo.

Q05
Refração — Reflexão e ângulo crítico

Um raio de luz monocromática atravessa a interface plana do meio 1 para o meio 2, cujos índices de refração são denotados por n1 e n2, respectivamente (ver figura).

a) Repita, no Caderno de Resolução, a figura mostrada abaixo e: i) desenhe uma linha tracejada e normal à superfície; ii) desenhe os raios refletido r e refratado R; iii) desenhe os ângulos de incidência i, de reflexão r e de refração R. Escreva i e r em função de $\theta$. Considere que $\theta$ é um ângulo qualquer e que o meio 1 é mais refringente que o meio 2.

b) Que lei governa o fenômeno da refração? Usando esta lei e considerando agora que $\theta=60^\circ$ e n1/n2 = 2, calcule o ângulo de refração. A partir do resultado encontrado, o que se pode concluir a respeito do ângulo de incidência?

Diagrama da questão 5: Reflexão e ângulo crítico

a) $\theta_i=\theta_r=90^\circ-\theta$; b) raio limite a 90°, incidência crítica de 30°.

Resolução comentada · Método TEF

a) Trace a normal perpendicular à interface no ponto de incidência. O ângulo θ do desenho é com a superfície.

$$\theta_i=90^\circ-\theta$$

$$\theta_r=\theta_i$$

O refletido fica no meio 1, simétrico ao incidente em relação à normal. Quando existe refração com n₁ > n₂, o transmitido se afasta da normal: θ_R > θ_i. Acima da incidência crítica, há reflexão total e não há raio refratado propagante.

b) A lei de Snell governa a refração.

$$n_1\sin\theta_i=n_2\sin\theta_R$$

Com θ = 60°, a incidência é 30°.

$$\sin\theta_R=2\sin30^\circ=1$$

$$\theta_R=90^\circ$$

O raio limite é rasante. A incidência crítica é 30° e a reflexão total ocorre para incidências maiores.

Q06
Ondas em cordas — Harmônico fundamental e som

Uma das cordas de um violão possui massa 0,25 g, comprimento 50 cm e encontra-se presa em suas extremidades sob uma tensão de 500 N. Considere que uma onda estacionária é gerada nesta corda. As vibrações na corda são transmitidas ao ar, gerando assim uma onda sonora.

a) Classifique as ondas envolvidas neste problema quanto à direção de oscilação do meio em relação à direção de propagação da onda e quanto ao número de dimensões espaciais em que se dá a propagação da energia. Justifique sua resposta.

b) Calcule a razão entre os comprimentos de onda das ondas no ar e na corda. Determine a freqüência do harmônico fundamental da corda.

a) Corda transversal e unidimensional; som longitudinal e tridimensional. b) Razão 0,34; frequência 1000 Hz.

Resolução comentada · Método TEF

a) Na corda, o deslocamento dos elementos é perpendicular à propagação das ondas componentes: onda transversal e unidimensional. No ar, o som é longitudinal e tridimensional. A onda estacionária resulta de ondas opostas e idealmente não transporta energia líquida média ao longo da corda.

b) Converta massa e comprimento.

$$\mu=\frac{0{,}25\times10^{-3}}{0{,}50}=5\times10^{-4}\ \mathrm{kg/m}$$

$$v_c=\sqrt{\frac{500}{5\times10^{-4}}}=1000\ \mathrm{m/s}$$

A frequência da vibração transmitida ao ar é a mesma. Use a velocidade do som dada nas instruções.

$$\frac{\lambda_{ar}}{\lambda_c}=\frac{340}{1000}=0{,}34$$

No fundamental da corda fixa nas duas extremidades:

$$\lambda_1=2L=1\ \mathrm m$$

$$f_1=\frac{v_c}{2L}=1000\ \mathrm{Hz}$$

Q07
Campo e potencial elétrico — Simetria fora do plano

Um quadrado de lado L tem uma carga puntiforme +Q fixa em cada um de seus vértices, como indicado na figura a seguir. No centro O do quadrado é fixada uma carga puntiforme – q. O ponto P, localizado ao longo do eixo perpendicular ao plano do quadrado e que passa pelo seu centro, dista d do ponto O. Considere que todo o sistema se encontra no vácuo e que a constante eletrostática do vácuo é denotada por K.

a) Calcule o valor da carga localizada no centro para que o campo elétrico resultante em P seja nulo.

b) Calcule o valor da carga localizada no centro para que o potencial elétrico total em P seja nulo. Nesta situação, determine o trabalho total realizado pelas forças elétricas sobre uma carga de prova qualquer para trazê-la do infinito até o ponto P, segundo uma trajetória arbitrária.

Diagrama da questão 7: Simetria fora do plano

a) Carga $-4Qd^3/(d^2+L^2/2)^{3/2}$; b) carga $-4Qd/\sqrt{d^2+L^2/2}$ e trabalho zero.

Resolução comentada · Método TEF

A distância de cada vértice ao centro é L/√2. De cada carga positiva até P:

$$r=\sqrt{d^2+\frac{L^2}{2}}$$

a) A simetria anula as componentes paralelas ao quadrado. Cada carga positiva deixa no eixo a projeção KQd/r³. A carga central negativa gera campo contrário.

$$E_{eixo}=\frac{4KQd}{r^3}-\frac{Kq}{d^2}$$

Para anular o campo:

$$q_E=\frac{4Qd^3}{(d^2+L^2/2)^{3/2}}$$

A carga central é −q_E, pois q designa seu módulo positivo.

b) Potencial é escalar e não requer projeção.

$$V_P=\frac{4KQ}{r}-\frac{Kq}{d}$$

$$q_V=\frac{4Qd}{\sqrt{d^2+L^2/2}}$$

A carga é −q_V, diferente da que anula o campo. Com potencial zero no infinito:

$$W_{\infty\to P}=q_{prova}(V_\infty-V_P)=0$$

O trabalho independe da trajetória porque o campo eletrostático é conservativo.

Q08
Circuitos elétricos — Gerador real e instrumentos

No circuito esquematizado na figura a seguir, um gerador de força eletromotriz $\varepsilon=6\ \mathrm V$ e resistência interna $r=2\ \Omega$ está ligado a um conjunto de resistores e a um voltímetro ideal V.

a) Calcule a leitura do voltímetro com a chave aberta e com a chave fechada.

b) Especifique em qual dentre os pontos A, B, C, D, E e F, marcados com o símbolo ▲, deve-se instalar um amperímetro ideal, de modo a permitir a leitura da corrente total fornecida pelo gerador. Calcule a leitura do amperímetro com a chave aberta e com a chave fechada.

Diagrama da questão 8: Gerador real e instrumentos

a) 6 V com chave aberta e 3 V com chave fechada; b) amperímetro em E, leituras 0 A e 1,5 A.

Resolução comentada · Método TEF

a) Com chave aberta, o voltímetro ideal não conduz corrente. Não há queda de tensão interna.

$$I_{aberta}=0$$

$$U_{aberta}=\varepsilon=6\ \mathrm V$$

Com chave fechada, a parte esquerda tem ramos de 3 Ω e de 3 + 2 + 1 = 6 Ω.

$$R_{esq}=\frac{3(6)}{3+6}=2\ \Omega$$

Esse equivalente está em série com os resistores de 1 Ω superior e inferior.

$$R_{ramo}=1+2+1=4\ \Omega$$

O ramo está em paralelo com o resistor vertical de 4 Ω.

$$R_{ext}=\frac{4(4)}{4+4}=2\ \Omega$$

Inclua r = 2 Ω do gerador.

$$I_{fechada}=\frac6{2+2}=1{,}5\ \mathrm A$$

$$U_{fechada}=6-2(1{,}5)=3\ \mathrm V$$

b) O amperímetro deve ficar em série no ponto E, por onde passa a corrente total. F pertence ao ramo do voltímetro ideal, de corrente nula.

$$I_E=0\ \mathrm A\quad\text{(chave aberta)}$$

$$I_E=1{,}5\ \mathrm A\quad\text{(chave fechada)}$$

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