OBF 2011

3ª fase · 3º ano

Olimpíada Brasileira de Física · 8 questões discursivas · arquivo histórico.

Q01
Mecânica — Quantidade de movimento — Cunha móvel com bloco preso por corda

Considere um plano inclinado (uma cunha) de massa $M$ e ângulo de inclinação $\theta$ que pode deslizar sem atrito sobre o chão. Um pequeno bloco de massa $m$ também pode deslizar sem atrito sobre a superfície do plano inclinado. Além disso, o bloco está preso por uma corda, que passa por uma polia no vértice superior da cunha, e que está amarrada a uma parede, conforme a figura. O trecho de corda entre a polia e a parede é horizontal. O bloco é então solto, a partir do repouso, de uma altura $h$ em relação ao solo. Calcule a velocidade da cunha quando o bloco chegar ao chão em função de $m$, $M$, $h$, $\theta$ e $g$.

Cunha com ângulo θ, bloco de massa m preso por uma corda que passa por uma polia no topo e vai horizontalmente até uma parede; altura h

Resposta TEF: $V=\sqrt{\dfrac{2\,m\,g\,h}{M+2m\,(1-\cos\theta)}}$.

Resolução comentada · Método TEF

Ressalva: interpretou-se a figura com a polia no vértice superior esquerdo e a parede à esquerda: o bloco desce para a direita e a cunha recua em direção à parede. O sentido da cunha não altera o módulo calculado.

Vínculo da corda. O comprimento total da corda é constante: se o bloco desce $s$ ao longo do plano em relação à cunha, o trecho inclinado aumenta $s$, e o trecho horizontal entre a polia e a parede diminui $s$. Logo a cunha se move em direção à parede com deslocamento $s$ e, portanto, com velocidade $V$ igual ao módulo $u$ da velocidade do bloco em relação à cunha: $V=u$.

Velocidade do bloco no referencial do solo. Eixo $x$ para a direita (sentido em que o bloco desce), $y$ para cima. A velocidade do bloco em relação à cunha é $u\,(\cos\theta,\,-\text{sen}\,\theta)$ e a da cunha é $(-u,\,0)$:

$$\vec v_b=u\,(\cos\theta-1,\ -\text{sen}\,\theta)\qquad v_b^2=u^2\left[(1-\cos\theta)^2+\text{sen}^2\theta\right]=2u^2\,(1-\cos\theta)$$

Energia. A parede é fixa e não há atrito; o trabalho total da tração se anula entre bloco, polia e parede. Logo a energia mecânica se conserva:

$$m\,g\,h=\frac12\,m\,v_b^2+\frac12\,M\,V^2=\frac12\,u^2\,\big[2m\,(1-\cos\theta)+M\big]$$

$$V=u=\sqrt{\frac{2\,m\,g\,h}{M+2m\,(1-\cos\theta)}}$$

Verificação: para $M\to\infty$, $V\to0$.

Q02
Ondas — MHS — Pêndulo físico com mola: período de pequenas oscilações

Um pêndulo é formado por uma haste rígida (de massa desprezível e comprimento $l$) e uma massa $m$ presa em sua extremidade inferior. Ele pode oscilar livremente em torno do seu ponto de suspensão e a gravidade local é $g$. Prende-se uma mola de constante elástica $k$ a uma distância $h$ abaixo do ponto de suspensão. Suponha que a mola mantenha-se sempre horizontal (podemos imaginar que seja muito longa) e que ela se encontre relaxada quando o pêndulo estiver na vertical.

a) Calcule o período de pequenas oscilações do pêndulo, em torno de sua posição de equilíbrio. Assuma que o movimento esteja restrito ao plano da mola-haste.

b) E se a haste também tivesse uma massa $m'$ homogeneamente distribuída, como isso entraria na expressão para o período?

Pêndulo de comprimento L com massa m e uma mola horizontal presa a uma distância h abaixo do ponto de suspensão

Resposta TEF: a) $T=2\pi\sqrt{\dfrac{m\,l^{2}}{m\,g\,l+k\,h^{2}}}$; b) $T=2\pi\sqrt{\dfrac{\left(m+\frac{m'}{3}\right)l^{2}}{\left(m+\frac{m'}{2}\right)g\,l+k\,h^{2}}}$.

Resolução comentada · Método TEF

a) Para um pequeno ângulo $\theta$ com a vertical, a mola, presa a $h$ do ponto de suspensão e horizontal, é esticada de $x\approx h\,\theta$ e exerce a força $k\,h\,\theta$ (horizontal, no braço $h$). Torques em relação ao ponto de suspensão:

$$I\,\ddot\theta=-m\,g\,l\,\theta-k\,h\,\theta\cdot h\qquad(I=m\,l^2)$$

$$\ddot\theta=-\frac{m\,g\,l+k\,h^2}{m\,l^2}\,\theta\ \Rightarrow\ \omega^2=\frac gl+\frac{k\,h^2}{m\,l^2},\qquad T=2\pi\sqrt{\frac{m\,l^2}{m\,g\,l+k\,h^2}}$$

b) A haste homogênea de massa $m'$ contribui com momento de inércia $\dfrac{m'l^2}{3}$ (em relação a uma extremidade) e com torque gravitacional $m'g\,\dfrac l2\,\theta$ (peso aplicado no centro). Então

$$I=\left(m+\frac{m'}3\right)l^2\qquad\text{torque restaurador: }\left[\left(m+\frac{m'}2\right)g\,l+k\,h^2\right]\theta$$

$$T=2\pi\sqrt{\frac{\left(m+\frac{m'}{3}\right)l^{2}}{\left(m+\frac{m'}{2}\right)g\,l+k\,h^{2}}}$$

Para $m'=0$, recupera-se o item (a).

Q03
Termologia — Mudanças de estado — Condensação lenta em um cilindro com êmbolo

Um cilindro de paredes condutoras térmicas possui um êmbolo de massa $m$ bem ajustado (mas sem atritos), cuja seção transversal é $S$. O cilindro contém água e vapor à temperatura $T=100\ ^\circ\text{C}$, ou seja, na temperatura de condensação. Observa-se que o êmbolo cai vagarosamente, com velocidade constante $v$, porque alguma quantidade de calor flui através das paredes do cilindro, fazendo com que um pouco de vapor se condense continuamente. A densidade do vapor no interior do recipiente é $\rho$.

a) Calcule a taxa de condensação do vapor e a variação de massa de vapor por unidade de tempo, em termos dos parâmetros dados.

b) A que taxa o calor flui para fora do cilindro? Dê o resultado em função do calor de condensação $L$ da água e dos outros dados.

c) Qual a taxa de variação da energia interna do vapor? O calor específico molar a volume constante do vapor é $C_v$ e sua massa molar é $M$.

d) Qual a taxa de variação da energia interna da água líquida?

Cilindro com êmbolo de massa m, contendo água e vapor

Resposta TEF: a) $\dfrac{dm_v}{dt}=-\rho\,S\,v$; b) $\dot Q=L\,\rho\,S\,v$; c) $\dfrac{dU_v}{dt}=-\dfrac{\rho\,S\,v}{M}\,C_v\,T$; d) $\dfrac{dU_\ell}{dt}=\rho\,S\,v\left[\dfrac{(C_v+R)\,T}{M}-L\right]$, $T=373\ \text{K}$.

Resolução comentada · Método TEF

Ressalva: o vapor foi tratado como gás ideal nos itens (c) e (d), como sugere o uso do calor molar $C_v$; $R$ é a constante universal dos gases e $T=373\ \text{K}$. O valor absoluto de (d) depende da referência de energia adotada para o líquido.

A pressão no cilindro é constante ($P=P_{ext}+m\,g/S$) e a temperatura também ($100\ ^\circ\text{C}$): o vapor está saturado, com densidade $\rho$ constante.

a) O êmbolo desce com velocidade $v$, de modo que o volume do vapor diminui à taxa $S\,v$. Com densidade $\rho$ constante, a massa de vapor diminui, e a massa condensada por unidade de tempo é

$$\dot m_{cond}=\rho\,S\,v\qquad\left(\frac{dm_v}{dt}=-\rho\,S\,v\right)$$

b) A condensação ocorre à pressão e temperatura constantes; o calor liberado por unidade de massa é o calor latente $L$ (que inclui o trabalho de compressão do êmbolo sobre o vapor). O calor que sai pelas paredes é

$$\dot Q=L\,\dot m_{cond}=L\,\rho\,S\,v$$

c) Para o vapor como gás ideal com $T$ constante, $U_v=\dfrac{m_v}{M}\,C_v\,T$ e só $m_v$ varia:

$$\frac{dU_v}{dt}=\frac{C_v\,T}{M}\,\frac{dm_v}{dt}=-\frac{\rho\,S\,v}{M}\,C_v\,T$$

d) Para o sistema todo (líquido + vapor), a primeira lei dá $\dfrac{dU}{dt}=-\dot Q+P\,S\,v$ (calor que sai; trabalho do exterior sobre o sistema, pela descida do êmbolo). Com $P=\dfrac{\rho\,R\,T}{M}$ (gás ideal): $P\,S\,v=\dfrac{\rho\,S\,v\,R\,T}{M}$. Então

$$\frac{dU_\ell}{dt}=\frac{dU}{dt}-\frac{dU_v}{dt}=-L\rho S v+\frac{\rho S v\,R\,T}{M}+\frac{\rho S v\,C_v\,T}{M}=\rho\,S\,v\left[\frac{(C_v+R)\,T}{M}-L\right]$$

Interpretação: o resultado é $\dot m_{cond}\,u_\ell$, em que $u_\ell=u_v+\dfrac P\rho-L=\dfrac{(C_v+R)\,T}{M}-L$ é a energia interna específica do líquido na mesma referência de energia usada para o vapor (desprezando o volume do líquido). Numericamente, $L\approx2{,}26\times10^{6}\ \text{J/kg}$ é maior que $\dfrac{C_pT}{M}\approx5\times10^{5}\ \text{J/kg}$, e o colchete é negativo: o líquido tem menos energia interna por kg que o vapor, de modo que a energia interna do líquido diminui nessa referência.

Q04
Termologia — Termodinâmica — Segunda lei: entropia e equilíbrio térmico

Há um copo de água em contato com o ambiente, e ambos se encontram a uma temperatura $T_0$.

a) Mostre, usando o conceito de entropia (e a segunda lei da termodinâmica), que não é natural ver a água do copo variar sua temperatura e resolver se manter em equilíbrio a uma temperatura diferente de $T_0$. Dicas: a variação de entropia de uma massa $m$ de calor específico $c$ que vai de $T_0$ a $T$ é $\Delta S=m\,c\,\ln\dfrac{T}{T_0}$; vale também $\ln(1+x)-1$ e $x\neq0$.

b) Dois corpos em contato térmico encontram-se isolados do resto do universo. Eles possuem massas e calores específicos $m_1,c_1$ e $m_2,c_2$. Se ambos estão na mesma temperatura $T_0$, mostre que não é esperado que eles troquem calor e se equilibrem (termicamente) em temperaturas diferentes.

Resposta TEF: Em ambos os casos $\Delta S_{total}<0$, o que violaria a segunda lei; logo os processos não ocorrem espontaneamente.

Resolução comentada · Método TEF

a) Suponha que a água passe de $T_0$ para $T\neq T_0$. A água troca com o ambiente (grande reservatório a $T_0$) o calor $Q=m\,c\,(T-T_0)$ (recebido pela água se $T>T_0$). As variações de entropia são

$$\Delta S_{água}=m\,c\,\ln\frac{T}{T_0}\qquad\Delta S_{amb}=-\frac{Q}{T_0}=-m\,c\,\frac{T-T_0}{T_0}$$

Com $x=\dfrac{T-T_0}{T_0}>-1$ e $x\neq0$: $$\Delta S_{total}=m\,c\,\big[\ln(1+x)-x\big]<0$$

Como a entropia do conjunto (água + ambiente, isolado) não pode diminuir, esse processo é impossível: o estado de equilíbrio é $T=T_0$.

b) Suponha que, isolados, os corpos fiquem em $T_1$ e $T_2$ finais, com $x_i=\dfrac{T_i-T_0}{T_0}$. A conservação da energia exige $m_1c_1(T_1-T_0)+m_2c_2(T_2-T_0)=0$, isto é, $m_1c_1x_1+m_2c_2x_2=0$.

$$\Delta S=m_1c_1\ln(1+x_1)+m_2c_2\ln(1+x_2)

Logo $\Delta S<0$ (a menos que $x_1=x_2=0$), o que contraria a segunda lei para um sistema isolado: não há troca de calor espontânea entre corpos à mesma temperatura. (Para $|x|\ll1$: $\Delta S\approx-\tfrac12\left(m_1c_1x_1^2+m_2c_2x_2^2\right)<0$, usando $\ln(1+x)\approx x-x^2/2$.)

Q05
Mecânica — Dinâmica — Partícula presa a um corpo por uma corda que passa por um orifício

Uma mesa, com sua superfície a uma altura $H$ do chão, tem um orifício em seu centro. Uma partícula de massa $m$ é presa a um corpo suspenso de massa $M$ por uma corda de comprimento $l>H$ que passa pelo orifício. A partícula pode se mover sem atrito pela superfície da mesa (e também não há atrito entre a corda e o orifício). É dada à partícula uma velocidade angular $\omega$ em torno do orifício (sem nenhuma componente radial de velocidade).

a) Sendo $r$ a distância da partícula até o orifício, calcule o raio de equilíbrio $r=r_0$ para o qual o corpo de massa $M$ fica parado. Expresse $r_0$ em termos de $M$, $m$, $\omega$ e $g$.

b) Calcule a frequência de pequenas oscilações radiais da partícula em torno de $r_0$. Imagine que inicialmente a partícula se encontrava em movimento circular em $r_0$ com velocidade angular $\omega_0$ quando uma pequena perturbação radial fez com que ela começasse a oscilar. (Pode ser útil: $(1+x)^n\approx1+nx$ para $x\ll1$.)

c) Considere que a partícula esteja inicialmente a uma distância $r$ do orifício, com velocidade angular $\omega$. O sistema é então solto de modo que o corpo $M$ desça até o chão, isto é, suponha $l-H>r_0$. Qual será a nova velocidade angular $\omega'$ da partícula nessa nova situação?

Mesa de altura H com um orifício; partícula na mesa a uma distância r do orifício e corpo suspenso pela corda

Resposta TEF: a) $r_0=\dfrac{M\,g}{m\,\omega^{2}}$; b) $\Omega=\omega_0\sqrt{\dfrac{3\,m}{M+m}}$ ($f=\Omega/2\pi$); c) $\omega'=\omega\,\dfrac{r^{2}}{(l-H)^{2}}$.

Resolução comentada · Método TEF

a) Para $M$ parado, a tração é $T=M\,g$, e ela é a força centrípeta da partícula em movimento circular:

$$M\,g=m\,\omega^2\,r_0\ \Rightarrow\ r_0=\frac{M\,g}{m\,\omega^2}$$

b) A força sobre a partícula é central, então o momento angular $L=m\,r^2\,\omega$ se conserva. Na direção radial, as duas massas se movem juntas (corda inextensível): $(m+M)\,\ddot r=m\,r\,\omega^2-M\,g=\dfrac{L^2}{m\,r^3}-M\,g$.

Perturbando $r=r_0+\delta$: $\dfrac{L^2}{m\,r^3}\approx\dfrac{L^2}{m\,r_0^3}\left(1-\dfrac{3\delta}{r_0}\right)$, e $\dfrac{L^2}{m\,r_0^3}=m\,r_0\,\omega_0^2=M\,g$:

$$(m+M)\,\ddot\delta=-3\,m\,\omega_0^2\,\delta\ \Rightarrow\ \Omega=\omega_0\sqrt{\frac{3\,m}{M+m}}\quad\left(\Omega^2=\frac{3\,M\,g}{(M+m)\,r_0}\right)$$

A frequência de oscilação radial é $f=\Omega/2\pi$.

c) $M$ desce até o chão quando o trecho pendente atinge $H$, isto é, quando a partícula chega a $r_f=l-H$ (por hipótese, $r_f>r_0$). Como o momento angular da partícula se conserva ($m\,r^2\omega=m\,r_f^2\,\omega'$):

$$\omega'=\omega\,\frac{r^2}{(l-H)^2}$$

Q06
Óptica — Espelhos esféricos — Imagem de um objeto fora do eixo (espelho gaussiano)

Vamos determinar a posição da imagem formada por um espelho esférico (gaussiano) quando o objeto não se encontra sobre seu eixo principal. Seja $p$ a distância do objeto ao centro (vértice) do espelho e $\theta$ o ângulo com relação ao eixo principal, suficientemente pequeno para que as aproximações gaussianas sejam válidas. Os raios ilustrados mostram que, se uma imagem bem definida se formar, ela deve estar no plano da figura e seu ângulo com o eixo principal deve ser o mesmo $\theta$.

a) Sendo $f$ a distância focal, prove, usando os dois raios ilustrados (um que passa pelo centro e outro paralelo ao eixo principal), que $p'$, a distância da imagem até o centro do espelho, obedece a $\dfrac1p+\dfrac1{p'}=\dfrac{\cos\theta}{f}$.

b) Considere outros raios que saem do corpo. Há um raio que atinge o espelho a uma distância $l$ acima de seu centro e se encontra com o raio que passava pelo centro a uma distância $p^*$ do centro do espelho (figura). Mostre que $p^*=p'$, isto é, todos os raios, independentemente de $l$, convergem para o mesmo ponto.

c) Prove, a partir da relação obtida em (a), que a posição horizontal (paralela ao eixo principal) da imagem pode ser tratada como se o objeto estivesse sobre o eixo; consequentemente, a imagem de uma vela vertical seria vertical.

d) Um feixe de raios paralelos que forma um ângulo $\theta$, suficientemente pequeno, com o eixo converge para um ponto contido no plano focal. Calcule a distância entre esse ponto $F'$ e o foco $F$, em termos de $\theta$ e $f$.

Objeto a distância p do centro do espelho, a um ângulo θ do eixo, e imagem a distância p′ no ângulo θ abaixo do eixo
Raio que atinge o espelho a uma distância l acima do centro e encontra o raio central a uma distância p* do centro

Resposta TEF: a) demonstração abaixo; b) $p^*=p'$; c) $\dfrac1{x_o}+\dfrac1{x_i}=\dfrac1f$ para as coordenadas axiais; d) $\overline{FF'}=f\tan\theta\approx f\,\theta$.

Resolução comentada · Método TEF

Coordenadas. Vértice $O$ na origem; eixo principal ao longo de $x$ (positivo para o lado dos objetos); na aproximação gaussiana a superfície do espelho é o plano $x\approx0$. Foco $F=(f,0)$, objeto em $P=(p\cos\theta,\ p\,\text{sen}\,\theta)$.

a) Raio pelo vértice: incide em $O$ e reflete simetricamente em relação ao eixo, descendo a $\theta$: reta $y=-x\tan\theta$ (a imagem fica sobre ela). Raio paralelo ao eixo: parte de $P$ na horizontal, atinge o espelho em $(0,\,y_0)$, com $y_0=p\,\text{sen}\,\theta$, e reflete passando por $F$: $y=y_0\,(1-x/f)$.

Interseção: $-x\tan\theta=y_0\,(1-x/f)\Rightarrow x\left(\dfrac{y_0}{f}-\tan\theta\right)=y_0\Rightarrow x=\dfrac{p\,f\cos\theta}{p\cos\theta-f}$.

A imagem está sobre a reta do raio pelo vértice, a uma distância $p'$ de $O$: $x=p'\cos\theta$. Logo $p'=\dfrac{p\,f}{p\cos\theta-f}$, isto é,

$$\frac1{p'}=\frac{\cos\theta}{f}-\frac1p\ \Longrightarrow\ \frac1p+\frac1{p'}=\frac{\cos\theta}{f}$$

b) Um raio de $P$ ao ponto $(0,l)$ tem inclinação $m_i=\dfrac{p\,\text{sen}\,\theta-l}{p\cos\theta}=\tan\theta-\dfrac{l}{p\cos\theta}$. Em um espelho esférico de raio $R=2f$, a normal em $(0,l)$ aponta para o centro de curvatura $(R,0)$, isto é, $\vec n\approx(1,\,-l/R)$ para $l\ll R$. A reflexão $\vec d_{out}=\vec d_{in}-2(\vec d_{in}\cdot\vec n)\vec n$, com $\vec d_{in}=(-1,-m_i)$, dá, em primeira ordem, $\vec d_{out}\approx(1,\ -m_i-l/f)$. O raio refletido é $y=l-\left(m_i+\dfrac lf\right)x$.

Interseção com $y=-x\tan\theta$: $x=\dfrac{l}{m_i+l/f-\tan\theta}=\dfrac{l}{\dfrac lf-\dfrac{l}{p\cos\theta}}=\dfrac{p\,f\cos\theta}{p\cos\theta-f}$.

Esse valor não depende de $l$ e coincide com o do item (a): o ponto de encontro está a $x=p^*\cos\theta=p'\cos\theta$, ou seja, $p^*=p'$. Todos os raios convergem para a mesma imagem.

c) Sejam $x_o=p\cos\theta$ e $x_i=p'\cos\theta$ as coordenadas paralelas ao eixo do objeto e da imagem. Como $\dfrac1p=\dfrac{\cos\theta}{x_o}$ e $\dfrac1{p'}=\dfrac{\cos\theta}{x_i}$, a relação do item (a) vira $\cos\theta\left(\dfrac1{x_o}+\dfrac1{x_i}\right)=\dfrac{\cos\theta}{f}$, ou

$$\frac1{x_o}+\frac1{x_i}=\frac1f$$

que é a equação do espelho para um objeto sobre o eixo à distância $x_o$. Assim, todos os pontos de uma vela vertical ($x_o$ igual para todos) têm imagens com o mesmo $x_i$: a imagem também é vertical.

d) Um feixe de raios paralelos a $\theta$ equivale a um objeto no infinito ($p\to\infty$). Do item (a): $p'=\dfrac f{\cos\theta}$. Coordenadas da imagem: $x=p'\cos\theta=f$ e $y=-p'\,\text{sen}\,\theta=-f\tan\theta$. Está no plano focal ($x=f$), a

$$\overline{FF'}=f\tan\theta\approx f\,\theta$$

do foco (para $\theta$ pequeno).

Q07
Eletricidade — Eletrostática — Método das imagens: carga e esfera condutora

Considere uma carga puntiforme $q$ separada de uma distância $d$ do centro de uma esfera metálica de raio $R$, conforme a figura. O método das imagens permite substituir a esfera por cargas imagens dentro dela, desde que a superfície continue equipotencial; o meio é o vácuo ($\varepsilon_0$).

a) Suponha que a esfera condutora esteja aterrada (potencial nulo). Neste caso apenas uma carga imagem $q'$ será necessária e, pela simetria, ela deve estar sobre a reta que liga $q$ ao centro da esfera. Calcule o valor de $q'$ e a sua posição (distância $a$ até o centro da esfera) em termos de $q$, $R$ e $d$.

b) Considere agora que a esfera esteja neutra e isolada. Com que força a carga $q$ atrai a esfera? Expresse em termos dos mesmos parâmetros.

Carga q a uma distância d do centro de uma esfera metálica de raio R
Carga q, carga imagem q′ dentro da esfera, a uma distância a do centro

Resposta TEF: a) $q'=-\dfrac{R}{d}\,q$, a $a=\dfrac{R^{2}}{d}$ do centro (do lado de $q$); b) $F=\dfrac{q^{2}R^{3}\,(2d^{2}-R^{2})}{4\pi\varepsilon_0\,d^{3}\,(d^{2}-R^{2})^{2}}$ (atração).

Resolução comentada · Método TEF

a) Sobre o eixo, ponha a carga imagem $q'$ a uma distância $a$ do centro (do lado de $q$). O potencial nos pontos A e B da superfície mais próximo e mais distante de $q$ (em $x=\pm R$, com o centro na origem e $q$ em $x=d$) deve se anular:

$$\frac{q}{d-R}+\frac{q'}{R-a}=0\qquad\frac{q}{d+R}+\frac{q'}{R+a}=0$$

De cada equação, $q'=-q\dfrac{R-a}{d-R}=-q\dfrac{R+a}{d+R}$. Igualando as duas expressões, $(R-a)(d+R)=(R+a)(d-R)\Rightarrow Rd+R^2-ad-aR=Rd-R^2+ad-aR\Rightarrow2R^2=2ad$, logo

$$a=\frac{R^2}{d}\qquad q'=-q\,\frac{R+a}{d+R}=-q\,\frac{R\,(d+R)/d}{d+R}=-\frac{R}{d}\,q$$

(Pode-se mostrar que o potencial é nulo em toda a superfície, não apenas em A e B.)

b) A esfera isolada e neutra deve ter carga total nula e superfície equipotencial. A partir da solução aterrada (carga imagem $q'=-qR/d$ em $a=R^2/d$), acrescenta-se uma segunda imagem $q''=+qR/d$ no centro, que deixa a carga total nula e mantém a superfície equipotencial (potencial constante).

Força sobre $q$ (positiva se afasta da esfera), com $k=\dfrac1{4\pi\varepsilon_0}$:

$$F_q=k\,q\left[\frac{q'\ }{(d-a)^2}+\frac{q''}{d^2}\right]=k\,q^2R\left[\frac{1}{d^3}-\frac{d}{(d^2-R^2)^2}\right]$$

O módulo da força de atração é

$$F=k\,q^2R\left[\frac{d}{(d^2-R^2)^2}-\frac1{d^3}\right]=\frac{q^2R^3\,(2d^2-R^2)}{4\pi\varepsilon_0\,d^3\,(d^2-R^2)^2}$$

Para $d\gg R$, $F\approx\dfrac{2\,q^2R^3}{4\pi\varepsilon_0\,d^5}$ (decai com $1/d^5$, típico de dipolo induzido). Pela terceira lei, a esfera é atraída com a mesma força.

Q08
Física moderna — Relatividade restrita — Energia cinética newtoniana e energia relativística

Segundo a teoria da Relatividade de Einstein, o momento de um elétron de massa de repouso $m_0$ é $p=\dfrac{m_0\,v}{\sqrt{1-v^2/c^2}}$, onde $v$ é a velocidade do elétron e $c$ a velocidade da luz no vácuo.

a) Escreva a energia cinética newtoniana para o elétron usando o momento relativístico, em função de $m_0$, $v$ e $c$.

b) Segundo a teoria da Relatividade, a energia total é dada por $E^2=m_0^2c^4+p^2c^2$, onde $p$ é o momento relativístico. Qual a diferença entre a energia do elétron na teoria de Newton e a relativística?

Resposta TEF: a) $K_N=\dfrac{p^2}{2m_0}=\dfrac{m_0v^2}{2\,(1-v^2/c^2)}$; b) $E_N-E=\tfrac12\,m_0c^2\,(\gamma-1)^2\approx\dfrac{m_0\,v^4}{8\,c^2}$ (para $v\ll c$).

Resolução comentada · Método TEF

a) Na teoria newtoniana, $K=\dfrac{p^2}{2m_0}$. Com o momento relativístico:

$$K_N=\frac{1}{2m_0}\,\frac{m_0^2v^2}{1-v^2/c^2}=\frac{m_0\,v^2}{2\,(1-v^2/c^2)}$$

b) Seja $\gamma=\dfrac1{\sqrt{1-v^2/c^2}}$, de modo que $p=\gamma\,m_0v$ e $p^2c^2=m_0^2c^4\,(\gamma^2-1)$ (pois $\gamma^2\beta^2=\gamma^2-1$). A energia relativística é $E=\sqrt{m_0^2c^4+p^2c^2}=\gamma\,m_0c^2$.

A energia newtoniana (repouso mais cinética de mesmo $p$) é $E_N=m_0c^2+\dfrac{p^2}{2m_0}=m_0c^2\left[1+\dfrac{\gamma^2-1}{2}\right]$. A diferença é

$$E_N-E=m_0c^2\left[1+\frac{\gamma^2-1}{2}-\gamma\right]=\frac12\,m_0c^2\,(\gamma-1)^2$$

Para $v\ll c$, $\gamma-1\approx\dfrac{v^2}{2c^2}$ e

$$E_N-E\approx\frac{m_0\,v^4}{8\,c^2}$$

Equivale ao termo seguinte do desenvolvimento $E\approx m_0c^2+\dfrac{p^2}{2m_0}-\dfrac{p^4}{8m_0^3c^2}+\dots$: a diferença é sempre positiva e cresce muito rápido perto de $c$.

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