Etapa e série: 3ª fase · Nível II (1ª e 2ª séries)
Formato: discursiva
Questões: 12
Prova escrita de 2012. Enunciados reunidos com o texto de apoio de cada questão; figuras recortadas do caderno original. Gabarito oficial não localizado: as respostas são do Método TEF, calculadas e conferidas pelo autor. Prova teórica de 12 questões (8 a escolher; a 1ª série responde as exclusivas e a 2ª série as demais; g = 10 m/s²). Erros e ambiguidades do original são explicados nas resoluções.
Q01
Mecânica — Cinemática — Tempo mínimo de subida com limites de aceleração
Exclusiva do aluno da 1ª série no caderno original
Um elevador parte do repouso e pode acelerar no máximo a $0{,}2\ \text{m/s}^2$, desacelerar no máximo a $0{,}1\ \text{m/s}^2$ e chegar a uma velocidade máxima de $3\ \text{m/s}$. Deseja-se programar o elevador para subir ao décimo andar, 30 m acima do solo, no menor tempo possível. Qual é esse tempo mínimo de subida?
Resposta TEF: $t_{min}=30\ \text{s}$.
Resolução comentada · Método TEF
Para ir de repouso a repouso, o elevador acelera ao máximo e depois freia ao máximo. Verificando se atinge $3\ \text{m/s}$: só para acelerar até $3\ \text{m/s}$ e frear seriam $\dfrac{3^2}{2\cdot0{,}2}+\dfrac{3^2}{2\cdot0{,}1}=22{,}5+45=67{,}5\ \text{m}>30\ \text{m}$: não atinge a velocidade máxima.
Seja $v$ a velocidade no instante da troca (acelera → freia): $\dfrac{v^2}{2\cdot0{,}2}+\dfrac{v^2}{2\cdot0{,}1}=30\Rightarrow7{,}5\,v^2=30\Rightarrow v=2\ \text{m/s}$ (menor que $3$).
Tempos: $t_1=\dfrac{2}{0{,}2}=10\ \text{s}$ e $t_2=\dfrac{2}{0{,}1}=20\ \text{s}$:
$$t_{min}=t_1+t_2=30\ \text{s}$$
Q02
Mecânica — Quantidade de movimento — Coeficiente de restituição e alcance
Exclusiva do aluno da 1ª série no caderno original
Uma bola com coeficiente de restituição $e$ é atirada com uma velocidade horizontal $v_0$ de uma altura $H$. Determine a que distância, $d$, a bola atinge o ponto $P$ (onde ela toca o chão após o primeiro quique). Despreze a resistência do ar.
Queda inicial: $t_1=\sqrt{\dfrac{2H}{g}}$ e $x_1=v_0\,t_1$. A velocidade vertical ao chegar ao chão é $v_y=g\,t_1=\sqrt{2gH}$.
Quique: o coeficiente de restituição reduz a componente vertical a $e\,v_y$ (a horizontal se mantém). O novo voo dura $t_2=\dfrac{2\,e\,v_y}{g}=2\,e\sqrt{\dfrac{2H}{g}}$, com $x_2=v_0\,t_2$.
$$d=x_1+x_2=v_0\sqrt{\frac{2H}{g}}\,(1+2e)$$
Q03
Mecânica — Dinâmica de rotação — Esfera que rola em um laço (looping)
Exclusiva do aluno da 1ª série no caderno original
Uma esfera de raio $r$ e massa $m$ rola sem escorregar sobre a superfície mostrada na figura (um laço de raio $R$ com a esfera dentro). Determine a velocidade mínima do centro de massa que a esfera deve ter para completar a curva rolando sem perder contato com a superfície. Dado: momento de inércia de uma esfera $=\dfrac25mr^2$.
Resposta TEF: $v_{min}=\sqrt{\dfrac{27}{7}\,g\,(R-r)}$ ($\approx\sqrt{\tfrac{27}{7}gR}$ para $r\ll R$).
Resolução comentada · Método TEF
O centro da esfera descreve um círculo de raio $R-r$. No ponto mais alto, a condição de contato é $N\ge0$; no limite, a gravidade fornece a força centrípeta: $m\,g=\dfrac{m\,v_t^2}{R-r}\Rightarrow v_t^2=g\,(R-r)$.
Rolamento sem deslizar: $\omega=\dfrac vr$ e a energia cinética total é $\tfrac12m\,v^2+\tfrac12\cdot\tfrac25mr^2\,\omega^2=\tfrac7{10}\,m\,v^2$. Do ponto mais baixo ao mais alto, o centro sobe $2\,(R-r)$:
Mecânica — Cinemática — Calibração de uma escala de tempo de reação
Exclusiva do aluno da 1ª série no caderno original
A figura mostra um dispositivo simples para medir o tempo de reação (uma tira de papelão com escala e dois pontos): um colega segura a tira na vertical; você posiciona o polegar e o indicador no ponto esquerdo, sem encostar na tira; ele a solta e você tenta segurá-la assim que percebe que começou a cair. A marca onde você segura a tira corresponde ao seu tempo de reação. Explique como devemos marcar os pontos na escala.
Resposta TEF: As marcas ficam a $d=\tfrac12\,g\,t^2$ do ponto da esquerda: escala quadrática (não linear).
Resolução comentada · Método TEF
A tira cai em queda livre a partir do repouso, de modo que a distância percorrida até ser segurada é $d=\dfrac{g\,t^2}{2}$, em que $t$ é o tempo de reação. Logo a escala é quadrática: as marcas se afastam cada vez mais, e não de modo uniforme.
Com $g=10\ \text{m/s}^2$ (distâncias medidas a partir do ponto da esquerda):
t (ms)
50
100
150
200
250
300
d (cm)
1,25
5,0
11,3
20,0
31,3
45,0
Para cada instante desejado, calcula-se $d=5\,t^2$ ($d$ em m, $t$ em s) e marca-se a posição na tira.
Q05
Mecânica — Cinemática — Queda livre de gotas e disco em rotação
Um disco na horizontal roda com velocidade angular $\omega$ constante em torno de seu centro. Acima do disco são posicionados dois gotejadores, um a uma altura $h_1$ e o outro a uma altura $h_2>h_1$, medidas a partir do disco. Duas gotas de tinta são liberadas simultaneamente, uma de cada gotejador, atingindo o disco em dois pontos distintos. Estime o valor da aceleração da gravidade local medindo-se o deslocamento angular do disco entre as duas marcas de tinta no disco.
As gotas partem do repouso: chegam ao disco após $t_i=\sqrt{\dfrac{2h_i}{g}}$. A diferença de tempos entre as duas chegadas é $\Delta t=\sqrt{\dfrac2g}\,\left(\sqrt{h_2}-\sqrt{h_1}\right)$.
Nesse intervalo, o disco gira $\Delta\varphi=\omega\,\Delta t$ (deslocamento angular entre as marcas, medido):
Mecânica — Movimento circular — Transmissão por correias e redução de velocidade
Uma transmissão redutora de velocidades com correias é mostrada na figura. A polia A (raio $r$) aciona a polia B, que, por sua vez, aciona a polia C (raio $R$). A polia B é formada por dois discos solidários, de raios $R$ (acionado por A) e $r$ (que aciona C). Se A parte do repouso com aceleração angular $\alpha$ constante, determine o número de voltas da polia C em função do tempo.
Correias sem deslizamento transmitem a mesma velocidade linear de borda: $\omega_A\,r=\omega_B\,R$ (A→B) e $\omega_B\,r=\omega_C\,R$ (B→C). Logo $\omega_C=\omega_A\left(\dfrac rR\right)^{2}$ e o mesmo vale para as acelerações: $\alpha_C=\alpha\left(\dfrac rR\right)^{2}$.
Partindo do repouso, o ângulo percorrido por C é $\theta_C=\tfrac12\,\alpha_C\,t^2$ e o número de voltas é $\theta_C/2\pi$:
$$N(t)=\frac{\alpha\,r^2}{4\pi\,R^2}\,t^2$$
Q07
Mecânica — Trabalho e energia — Força, equilíbrio e retorno a partir de U(x)
A energia potencial de uma partícula de 50 g é mostrada no gráfico. (a) Faça um esboço da força que atua na partícula. (b) Estime os valores dos pontos de equilíbrio da partícula e classifique-os quanto à sua estabilidade. (c) Estime os valores dos pontos de retorno da partícula quando a energia mecânica for de 1 J. (d) Determine a velocidade máxima da partícula quando a energia mecânica for 5 J.
Resposta TEF: a) $F=-dU/dx$ (esboço abaixo); b) equilíbrios em $x\approx-0{,}8$ m (estável), $0$ (instável) e $1{,}3$ m (estável); c) $x\approx-1{,}2$ m e $1{,}9$ m; d) $20\ \text{m/s}$.
Resolução comentada · Método TEF
Ressalva: valores de $x$ lidos no gráfico, com incerteza de ±0,1 m; o esboço de $F(x)$ é qualitativo.
a) $F(x)=-\dfrac{dU}{dx}$ (o negativo da inclinação de $U$): – $x<-0{,}8\ \text{m}$: $U$ decresce (inclinação negativa) ⇒ $F>0$ (grande perto da parede, $x\approx-1{,}3$); – $-0{,}8– $00$ (máximo de $F\approx+8\ \text{N}$ por volta de $x\approx0{,}7$); – $x>1{,}3\ \text{m}$: $U$ cresce ⇒ $F<0$, com módulo crescente na parede direita. $F=0$ em $x\approx-0{,}8$; $0$; $1{,}3$.
c) Para $E=1\ \text{J}$: $x\approx-1{,}2\ \text{m}$ e $x\approx1{,}9\ \text{m}$ (onde $U=1\ \text{J}$).
d) Com $E=5\ \text{J}$ e $U_{min}=-5\ \text{J}$: $E_c=10\ \text{J}$ e $v_{max}=\sqrt{\dfrac{2\cdot10}{0{,}05}}=20\ \text{m/s}$.
Q08
Mecânica — Estática — Equilíbrio de um disco heterogêneo em um plano inclinado
O disco, de raio $R$, mostrado na figura é formado por dois semicírculos com densidades de massa $\sigma_1$ e $\sigma_2$. O disco não pode escorregar, mas pode rolar. Para uma determinada posição do disco e para certos valores do ângulo $\theta$, é possível manter o disco em equilíbrio sobre o plano inclinado. Qual deve ser a razão entre as densidades ($\sigma_1/\sigma_2$) para que o disco fique em equilíbrio com o segmento $PQ$ posicionado na vertical? (O centro de massa $C'$ de um semicírculo de raio $R$ é tal que $CC'=\dfrac{4R}{3\pi}$.)
Seja $C$ o centro do disco. Os dois semicírculos, de massas $m_1=\sigma_1\dfrac{\pi R^2}{2}$ e $m_2=\sigma_2\dfrac{\pi R^2}{2}$, têm centros de massa a $\dfrac{4R}{3\pi}$ de $C$, em lados opostos de $PQ$. O centro de massa do disco fica sobre a horizontal que passa por $C$, a uma distância (positiva para o lado de $\sigma_2$)
O plano desce para a direita; o disco toca o plano no ponto $T$ em que o raio é perpendicular ao plano. Esse ponto fica deslocado de $R\,\text{sen}\,\theta$, horizontalmente, à esquerda de $Q$ (lado de $\sigma_1$). Em equilíbrio, o peso não pode gerar torque em relação a $T$: o centro de massa deve estar na vertical de $T$, isto é, $x_{cm}=-R\,\text{sen}\,\theta$ (do lado de $\sigma_1$, logo $\sigma_1>\sigma_2$).
Como $\sigma_1/\sigma_2>0$ e finito, exige-se $\dfrac{3\pi}{4}\,\text{sen}\,\theta<1$, ou seja, $\text{sen}\,\theta<\dfrac{4}{3\pi}\approx0{,}42$, o que dá $\theta<\arcsin\dfrac{4}{3\pi}\approx25^\circ$ (com $\sigma_1>\sigma_2$). Para $\theta=0$, $\sigma_1=\sigma_2$.
Q09
Mecânica — Hidrostática — Oscilação vertical de um cilindro flutuante
Um cilindro de comprimento $L$ é feito de um material de densidade $\rho$ e flutua verticalmente num fluido de densidade $\rho_f$ ($\rho<\rho_f$, de modo que parte do cilindro fica emersa). Se dermos um pequeno empurrão no cilindro, este executará um MHS. Desconsiderando todas as formas de atrito, determine o período de oscilação do cilindro.
Seja $A$ a área da seção. No equilíbrio, peso = empuxo: $\rho\,A\,L\,g=\rho_f\,A\,d\,g$ (profundidade submersa $d=\dfrac{\rho}{\rho_f}L$).
Deslocando o cilindro de $y$ para baixo, o empuxo aumenta de $\rho_f\,A\,y\,g$: a força restauradora é $-\rho_f\,A\,g\,y$, de constante $k=\rho_f\,A\,g$. Com massa $m=\rho\,A\,L$:
Termologia — Dilatação térmica — Dilatação linear de cilindros de mesmo material
Três cilindros feitos do mesmo material, o qual pode ser considerado isotrópico, estão inicialmente na mesma temperatura. Os cilindros ($H_1=3a$ com diâmetro $a$; $H_2=2a$ com diâmetro $2a$; $H_3=4a$ com diâmetro $3a$) são colocados sobre uma chapa quente e a mesma quantidade de calor é transferida para cada um. Quais são as relações entre as variações nas alturas dos cilindros após o equilíbrio térmico?
Para o mesmo calor $Q$: $\Delta T=\dfrac{Q}{\rho\,c\,V}$, e $\Delta H=\alpha\,H\,\Delta T=\dfrac{\alpha\,Q}{\rho\,c}\cdot\dfrac HV$. Então $\Delta H\propto\dfrac{H}{V}=\dfrac{1}{\text{área da base}}$.
Áreas das bases: $S_1=\pi\dfrac{a^2}{4}$, $S_2=\pi\,a^2$ e $S_3=\pi\dfrac{9a^2}{4}$, isto é, $S_1:S_2:S_3=1:4:9$.
Termologia — Gases — Gás sob coluna de água: relação entre temperaturas
A figura mostra um recipiente cilíndrico de área $A$ e altura $H$. O recipiente possui um pistão leve e sem atrito que o separa em duas regiões. A região inferior contém um gás ideal e a superior está cheia de água. O pistão está inicialmente a uma altura $h=H/2$ do fundo. Transfere-se calor para o gás através da parte inferior do recipiente, provocando o deslocamento do pistão e fazendo a água transbordar. Qual é a relação $T_1/T_2$ entre as temperaturas do gás no início e no momento em que toda a água transbordou? O pistão é isolante térmico. Use $P_0=10^5\ \text{Pa}$, $\rho=10^3\ \text{kg/m}^3$ e $g=10\ \text{m/s}^2$.
Resposta TEF: $\dfrac{T_1}{T_2}=\dfrac{P_0+\rho\,g\,H/2}{2\,P_0}=\dfrac12\left(1+\dfrac{H}{20}\right)$ ($H$ em metros).
Resolução comentada · Método TEF
Pressão do gás com o pistão a uma altura $y$: $P(y)=P_0+\rho\,g\,(H-y)$ (peso da coluna de água restante); volume $V=A\,y$.
Estado inicial ($y=H/2$): $P_1=P_0+\dfrac{\rho\,g\,H}{2}$, $V_1=\dfrac{A\,H}{2}$. Estado final (toda a água fora, $y=H$): $P_2=P_0$, $V_2=A\,H$.
Para um gás ideal (mesmo número de mols), $\dfrac{P_1V_1}{T_1}=\dfrac{P_2V_2}{T_2}$:
$$\frac{T_1}{T_2}=\frac{P_1V_1}{P_2V_2}=\frac{P_0+\rho g H/2}{2P_0}=\frac12+\frac{10^3\cdot10\,H}{4\times10^5}=\frac12+\frac{H}{40}$$ ($H$ em metros). Como $\rho g H/2\ll P_0$ para recipientes de poucos metros, $T_1/T_2\approx\tfrac12$: o gás precisa praticamente dobrar de temperatura.
Q12
Óptica — Refração da luz — Condição de emergência em uma face adjacente
A figura mostra um raio de luz propagando no ar e incidindo sobre um bloco de material translúcido num ângulo $\theta$ com a normal à face, refratando na face adjacente (perpendicular). Há uma lista de materiais com seus índices de refração: acrílico $1{,}49$; vidro $1{,}7$; quartzo $1{,}54$; zircônio $1{,}92$; diamante $2{,}42$. Qual deve ser a condição sobre o índice de refração do material para que tal situação (o raio sair pela face adjacente) seja possível para qualquer $\theta$? Que material da lista poderia ser usado?
Resposta TEF: Condição: $n^2<1+\text{sen}^2\theta$, que, no melhor caso ($\theta\to90^\circ$), exige $n<\sqrt2\approx1{,}41$. Nenhum material da lista satisfaz.
Resolução comentada · Método TEF
Ressalva: a questão pede a condição “para qualquer θ”; rigorosamente ela só se cumpriria com $n\le1$. A leitura mais favorável (θ até 90°) dá $n<\sqrt2$, e ainda assim nenhum material da lista serve.
Na primeira face: $\text{sen}\,\theta=n\,\text{sen}\,r$. A face adjacente é perpendicular, então o ângulo de incidência nela é $90^\circ-r$. O raio só sai para o ar se não houver reflexão total: $n\,\text{sen}(90^\circ-r)<1$, isto é, $n\cos r<1$.
Com $\cos r=\sqrt{1-\text{sen}^2\theta/n^2}$: $$n\cos r=\sqrt{n^2-\text{sen}^2\theta}<1\ \Rightarrow\ n^2<1+\text{sen}^2\theta$$
O lado direito é no máximo $2$ (para $\theta=90^\circ$) e vale apenas $1$ para $\theta\to0$. Para que a emergência seja possível em qualquer ângulo de incidência, a condição precisa valer até para o pior caso ($\theta\to0$), o que exigiria $n\le1$, impossível para um material (n > 1). Mesmo no caso mais favorável ($\theta=90^\circ$), $n<\sqrt2\approx1{,}41$.
Todos os materiais da lista têm $n\ge1{,}49>\sqrt2$: nenhum poderia ser usado (o diamante, com $n=2{,}42$, é o pior caso).