OBF 2012

3ª fase · Nível III (3ª série)

Olimpíada Brasileira de Física · 8 questões discursivas · arquivo histórico.

Q01
Mecânica — Dinâmica de rotação — Esfera que rola em um laço (looping)

Uma esfera de raio $r$ e massa $m$ rola sem escorregar sobre a superfície mostrada na figura. Determine a velocidade mínima que a esfera deve ter para completar a curva rolando sem perder contato com a superfície. Dado: momento de inércia de uma esfera $=\dfrac25mr^2$.

Esfera sobre uma superfície horizontal que continua em um laço circular de raio R

Resposta TEF: $v_{min}=\sqrt{\dfrac{27}{7}\,g\,(R-r)}$ ($\approx\sqrt{\tfrac{27}{7}gR}$ para $r\ll R$).

Resolução comentada · Método TEF

O centro da esfera descreve um círculo de raio $R-r$. No ponto mais alto, a condição de contato é $N\ge0$; no limite, a gravidade fornece a força centrípeta: $m\,g=\dfrac{m\,v_t^2}{R-r}\Rightarrow v_t^2=g\,(R-r)$.

Rolamento sem deslizar: $\omega=\dfrac vr$ e a energia cinética total é $\tfrac12m\,v^2+\tfrac12\cdot\tfrac25mr^2\,\omega^2=\tfrac7{10}\,m\,v^2$. Do ponto mais baixo ao mais alto, o centro sobe $2\,(R-r)$:

$$\tfrac7{10}\,m\,v^2=\tfrac7{10}\,m\,v_t^2+2\,m\,g\,(R-r)\ \Rightarrow\ v^2=g\,(R-r)+\tfrac{20}{7}\,g\,(R-r)=\tfrac{27}{7}\,g\,(R-r)$$

$$v_{min}=\sqrt{\frac{27}{7}\,g\,(R-r)}$$

Q02
Mecânica — Estática — Equilíbrio de um disco heterogêneo: razão de densidades e intervalo de θ

O disco, de raio $R$, mostrado na figura é formado por dois semicírculos com densidades de massa $\sigma_1$ e $\sigma_2$. O disco não pode escorregar, mas pode rolar. Para uma determinada posição do disco e para certos valores do ângulo $\theta$, é possível manter o disco em equilíbrio sobre o plano inclinado. Qual deve ser a razão entre as densidades ($\sigma_1/\sigma_2$) para que o disco fique em equilíbrio com o segmento $PQ$ posicionado na vertical? Nessa situação, qual é o intervalo permitido para o ângulo $\theta$? (O centro de massa $C'$ de um semicírculo de raio $R$ é tal que $CC'=\dfrac{4R}{3\pi}$.)

Disco formado por dois semicírculos de densidades σ1 e σ2 sobre um plano inclinado de ângulo θ, com PQ vertical

Resposta TEF: $\dfrac{\sigma_1}{\sigma_2}=\dfrac{1+\frac{3\pi}{4}\,\text{sen}\,\theta}{1-\frac{3\pi}{4}\,\text{sen}\,\theta}$, com $0\le\theta<\arcsin\dfrac{4}{3\pi}\approx25^\circ$.

Resolução comentada · Método TEF

Seja $C$ o centro do disco. Os dois semicírculos, de massas $m_1=\sigma_1\dfrac{\pi R^2}{2}$ e $m_2=\sigma_2\dfrac{\pi R^2}{2}$, têm centros de massa a $\dfrac{4R}{3\pi}$ de $C$, em lados opostos de $PQ$. O centro de massa do disco fica sobre a horizontal que passa por $C$, a uma distância (positiva para o lado de $\sigma_2$)

$$x_{cm}=\frac{m_2-m_1}{m_1+m_2}\,\frac{4R}{3\pi}=\frac{\sigma_2-\sigma_1}{\sigma_1+\sigma_2}\,\frac{4R}{3\pi}$$

O plano desce para a direita; o disco toca o plano no ponto $T$ em que o raio é perpendicular ao plano. Esse ponto fica deslocado de $R\,\text{sen}\,\theta$, horizontalmente, à esquerda de $Q$ (lado de $\sigma_1$). Em equilíbrio, o peso não pode gerar torque em relação a $T$: o centro de massa deve estar na vertical de $T$, isto é, $x_{cm}=-R\,\text{sen}\,\theta$ (do lado de $\sigma_1$, logo $\sigma_1>\sigma_2$).

$$\frac{\sigma_1-\sigma_2}{\sigma_1+\sigma_2}\,\frac{4}{3\pi}=\text{sen}\,\theta\ \Rightarrow\ \frac{\sigma_1}{\sigma_2}=\frac{1+\frac{3\pi}4\text{sen}\,\theta}{1-\frac{3\pi}4\text{sen}\,\theta}$$

Como $\sigma_1/\sigma_2>0$ e finito, exige-se $\dfrac{3\pi}{4}\,\text{sen}\,\theta<1$, ou seja, $\text{sen}\,\theta<\dfrac{4}{3\pi}\approx0{,}42$, o que dá $\theta<\arcsin\dfrac{4}{3\pi}\approx25^\circ$ (com $\sigma_1>\sigma_2$). Para $\theta=0$, $\sigma_1=\sigma_2$.

Q03
Termologia — Termodinâmica — Calor em um processo com pressão variável (gás sob coluna de água)

Um recipiente cilíndrico de área $A=0{,}01\ \text{m}^2$ e altura $H=2{,}5\ \text{m}$ possui um pistão leve e sem atrito que o separa em duas regiões. A região inferior contém um gás ideal monoatômico e a região superior está cheia de água. O pistão está inicialmente a uma altura $h=0{,}5\ \text{m}$ do fundo. Transfere-se calor para o gás, deslocando o pistão e fazendo a água transbordar. Qual é a quantidade de calor necessária para fazer com que toda a água transborde? O pistão é isolante térmico (a água não troca calor com o ar). Use $P_0=10^5\ \text{Pa}$, $\rho=10^3\ \text{kg/m}^3$ e $g=10\ \text{m/s}^2$.

Recipiente cilíndrico com pistão: gás (ar) na parte inferior, de altura h, e água na superior, de altura H − h

Resposta TEF: $Q\approx5{,}05\times10^{3}\ \text{J}$.

Resolução comentada · Método TEF

Ressalva: o processo é suposto quase estático; a temperatura final do gás é $T_2=P_2V_2/(nR)$, e o fornecimento de calor não precisa ser uniforme no tempo.

Com o pistão a uma altura $y$, a pressão do gás é $P(y)=P_0+\rho\,g\,(H-y)$ e o volume é $V=A\,y$.

Estado inicial: $y=0{,}5$: $P_1=10^5+10^4\cdot2{,}0=1{,}2\times10^5\ \text{Pa}$, $V_1=5{,}0\times10^{-3}\ \text{m}^3$. Estado final: $y=H=2{,}5$: $P_2=P_0=10^5\ \text{Pa}$, $V_2=2{,}5\times10^{-2}\ \text{m}^3$.

Variação da energia interna (gás monoatômico, $U=\tfrac32\,P\,V$): $$\Delta U=\tfrac32\,(P_2V_2-P_1V_1)=\tfrac32\,(2500-600)=2850\ \text{J}$$

Trabalho realizado pelo gás (a pressão é linear em $y$): $$W=\int_{0{,}5}^{2{,}5}P(y)\,A\,dy=P_0A\,(2{,}0)+\rho g A\int_{0{,}5}^{2{,}5}(2{,}5-y)\,dy=2000+100\cdot2{,}0=2200\ \text{J}$$ (equivale à pressão média $1{,}1\times10^5\ \text{Pa}$ vezes $\Delta V=0{,}02\ \text{m}^3$.)

Primeira lei: $$Q=\Delta U+W=2850+2200=5050\ \text{J}$$

Q04
Óptica — Refração da luz — Condição de emergência em uma face adjacente

A figura mostra um raio de luz propagando no ar e incidindo sobre um bloco de material translúcido num ângulo $\theta$ com a normal à face do material. Qual deve ser a condição sobre o índice de refração do material para que tal situação (o raio refratar na face adjacente e sair) seja possível para qualquer $\theta$?

Raio de luz do ar incidindo a um ângulo θ em um bloco de índice n e emergindo pela face adjacente

Resposta TEF: Condição: $n^2<1+\text{sen}^2\theta$, que, no melhor caso ($\theta\to90^\circ$), exige $n<\sqrt2\approx1{,}41$. Nenhum material da lista satisfaz.

Resolução comentada · Método TEF

Ressalva: a questão pede a condição “para qualquer θ”; rigorosamente ela só se cumpriria com $n\le1$. A leitura mais favorável (θ até 90°) dá $n<\sqrt2$, e ainda assim nenhum material da lista serve.

Na primeira face: $\text{sen}\,\theta=n\,\text{sen}\,r$. A face adjacente é perpendicular, então o ângulo de incidência nela é $90^\circ-r$. O raio só sai para o ar se não houver reflexão total: $n\,\text{sen}(90^\circ-r)<1$, isto é, $n\cos r<1$.

Com $\cos r=\sqrt{1-\text{sen}^2\theta/n^2}$: $$n\cos r=\sqrt{n^2-\text{sen}^2\theta}<1\ \Rightarrow\ n^2<1+\text{sen}^2\theta$$

O lado direito é no máximo $2$ (para $\theta=90^\circ$) e vale apenas $1$ para $\theta\to0$. Para que a emergência seja possível em qualquer ângulo de incidência, a condição precisa valer até para o pior caso ($\theta\to0$), o que exigiria $n\le1$, impossível para um material (n > 1). Mesmo no caso mais favorável ($\theta=90^\circ$), $n<\sqrt2\approx1{,}41$.

Q05
Óptica — Interferência — Fenda dupla com difração: largura e separação das fendas

Luz com comprimento de onda $\lambda$ ilumina duas fendas idênticas. O padrão de intensidade observado num anteparo a uma distância de $3\ \text{m}$ das fendas é mostrado na figura em função de $y$, medido a partir do eixo de simetria das fendas. O que a figura mostra é um padrão de interferência associado a um padrão de difração. Observe a figura e responda: qual é a largura das fendas e qual é a distância entre os centros das fendas em função do comprimento de onda da luz? Note que $y\ll3\ \text{m}$.

Padrão de intensidade de uma fenda dupla em função de y (mm), com envelope de difração com mínimos em torno de ±5 mm

Resposta TEF: $a\approx600\,\lambda$ (largura de cada fenda) e $d\approx6000\,\lambda$ (distância entre os centros).

Resolução comentada · Método TEF

Ressalva: os valores de $y$ foram lidos na figura (±0,1 mm); as larguras resultantes são estimativas.

Difração (envelope). A intensidade do envelope de uma fenda de largura $a$ se anula em $y=m\,\dfrac{\lambda\,D}{a}$ ($m=1,2,\dots$). Na figura, o lóbulo central termina em $y\approx\pm5\ \text{mm}$ (região escura entre $4{,}2$ e $5{,}9\ \text{mm}$) e o seguinte em $\approx\pm10\ \text{mm}$. Com $D=3\ \text{m}$:

$$\frac{\lambda\,D}{a}=5\times10^{-3}\ \text{m}\ \Rightarrow\ a=\frac{3\,\lambda}{5\times10^{-3}}=600\,\lambda$$

Interferência (franjas finas). Máximos consecutivos da interferência de duas fendas com separação $d$ distam $\Delta y=\dfrac{\lambda\,D}{d}$. Pela figura, as franjas brilhantes se repetem a cada $\Delta y\approx0{,}5\ \text{mm}$ (por exemplo, em $0;\ 0{,}5;\ 1{,}0;\dots$):

$$d=\frac{3\,\lambda}{0{,}5\times10^{-3}}=6000\,\lambda$$

Conferência: $d/a=10$, e a ordem $m=10$ da interferência coincide com o primeiro mínimo da difração; dentro do lóbulo central há cerca de $2\,d/a-1\approx19$ franjas brilhantes, compatível com a figura. (Para $\lambda=500\ \text{nm}$: $a\approx0{,}3\ \text{mm}$ e $d\approx3\ \text{mm}$.)

Q06
Eletricidade — Eletrodinâmica — Circuito com diodos ideais e lâmpadas

Diodos são componentes elétricos que permitem que, de maneira aproximada, a corrente os atravesse apenas num determinado sentido. Simbologia: lâmpada 6 V/0,12 W; diodo ideal (a seta indica o sentido permitido da corrente); fonte de tensão ideal de 12 V. Para o circuito mostrado na figura, qual é o estado das lâmpadas: ligada, desligada ou ligada com sobrecarga de tensão?

Circuito com fonte de 12 V, cinco lâmpadas L1 a L5 e quatro diodos

Resposta TEF: L1 e L2: ligadas (6 V cada); L4: ligada com sobrecarga (12 V); L3 e L5: desligadas.

Resolução comentada · Método TEF

Ressalva: considerou-se, pelo desenho da fonte, o terminal positivo (traço longo) no trilho superior; com a polaridade invertida, apenas L5 acenderia (com sobrecarga).

Cada lâmpada (6 V/0,12 W) tem resistência $R=\dfrac{V^2}{P}=\dfrac{36}{0{,}12}=300\ \Omega$ e corrente nominal $0{,}02\ \text{A}$. A fonte tem seu terminal positivo (traço longo) no alto: a corrente sai pelo trilho superior e volta pelo inferior.

L5: o diodo da sua linha aponta para cima (contra o sentido da corrente, de cima para baixo): bloqueado ⇒ desligada.

L4: o diodo aponta para baixo (a favor da corrente): conduz e a lâmpada fica ligada diretamente aos $12\ \text{V}$ da fonte (diodo ideal, sem queda): ligada com sobrecarga (o dobro da tensão nominal; potência $0{,}48\ \text{W}$).

L2 e L1: o diodo do trilho superior aponta para a direita (permite a corrente de cima para o ramo de L2 e L1, em série): $12\ \text{V}$ divididos igualmente entre duas lâmpadas iguais: $6\ \text{V}$ em cada: ligadas normalmente.

L3: está ligada ao nó depois do diodo do trilho, com o seu próprio diodo apontando para cima (bloqueado para a corrente descendente): desligada.

Q07
Física moderna — Relatividade restrita — Dilatação do tempo e distância percorrida por múons

Neste ano comemora-se o centenário da descoberta dos raios cósmicos: em agosto de 1912, o físico austríaco Victor Hess (Prêmio Nobel 1936), usando um balão meteorológico, subiu a uma altitude de aproximadamente 5000 m e concluiu que grande parte da radiação medida na Terra vinha do espaço, não apenas do Sol. Essas partículas, ao colidirem com a atmosfera, produzem outras partículas, píons e múons, também com altas energias. Um múon gerado na atmosfera tem, no seu próprio referencial, vida média de aproximadamente $2\ \mu\text{s}$ e velocidade $0{,}99\,c$, em que $c$ é a velocidade da luz. Para um observador na Terra, que distância, aproximadamente, a partícula percorre antes de se desintegrar? ($c=3\times10^8\ \text{m/s}$.)

Resposta TEF: $d\approx4{,}2\ \text{km}$.

Resolução comentada · Método TEF

Fator de Lorentz: $\gamma=\dfrac{1}{\sqrt{1-0{,}99^2}}=\dfrac{1}{\sqrt{0{,}0199}}\approx7{,}1$. O tempo de vida medido na Terra é dilatado: $t=\gamma\,\tau=7{,}1\cdot2\ \mu\text{s}\approx14{,}2\ \mu\text{s}$.

$$d=v\,t=0{,}99\cdot3\times10^{8}\cdot14{,}2\times10^{-6}\approx4{,}2\times10^{3}\ \text{m}$$

Sem a dilatação do tempo seriam só $\approx600\ \text{m}$; com ela, o múon percorre $\approx4{,}2\ \text{km}$ e pode chegar à superfície.

Q08
Eletricidade — Campo magnético — Campo no centro de uma espira poligonal

Para formar uma espira, um fio condutor de comprimento $L$ é dobrado na forma de um polígono regular de $N$ lados. Qual é o campo magnético no centro do polígono se na espira circula uma corrente elétrica $I$? Usando a expressão encontrada, faça $N\to\infty$ e encontre o campo magnético de uma espira circular. Dados: campo de um fio retilíneo de comprimento $\ell$ num ponto da sua mediatriz a uma distância $d$ do fio: $B=\dfrac{\mu_0I}{2\pi d}\,\text{sen}\,\theta$, com $\text{sen}\,\theta=\dfrac{\ell/2}{\sqrt{d^2+(\ell/2)^2}}$; campo no centro de uma espira circular de raio $R$: $\dfrac{\mu_0I}{2R}$.

Resposta TEF: $B=\dfrac{\mu_0\,I\,N^{2}}{\pi\,L}\,\text{sen}\dfrac\pi N\,\tan\dfrac\pi N$; para $N\to\infty$, $B=\dfrac{\mu_0 I\,\pi}{L}=\dfrac{\mu_0I}{2R}$.

Resolução comentada · Método TEF

Cada lado tem comprimento $\ell=\dfrac LN$. Do centro aos vértices, a distância é $\rho=\dfrac{\ell}{2\,\text{sen}(\pi/N)}$ (triângulo isósceles com ângulo central $2\pi/N$) e a distância ao lado (apótema) é $d=\dfrac\ell2\,\cot\dfrac\pi N$. Além disso, $\text{sen}\,\theta=\dfrac{\ell/2}{\rho}=\text{sen}\dfrac\pi N$.

Campo de um lado no centro: $$B_1=\frac{\mu_0I}{2\pi d}\,\text{sen}\,\theta=\frac{\mu_0I}{\pi\,\ell}\,\text{sen}\frac\pi N\,\tan\frac\pi N$$ Os $N$ lados contribuem na mesma direção e sentido (regra da mão direita):

$$B=N\,B_1=\frac{\mu_0\,I\,N^2}{\pi\,L}\,\text{sen}\frac\pi N\,\tan\frac\pi N$$

Para $N\to\infty$: $\text{sen}\dfrac\pi N\tan\dfrac\pi N\approx\left(\dfrac\pi N\right)^2$, e

$$B\to\frac{\mu_0\,I\,N^2}{\pi\,L}\cdot\frac{\pi^2}{N^2}=\frac{\mu_0\,I\,\pi}{L}$$

No limite o polígono é um círculo de comprimento $L=2\pi R$, logo $B=\dfrac{\mu_0 I\,\pi}{2\pi R}=\dfrac{\mu_0I}{2R}$, o campo conhecido de uma espira circular.

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