OBF 2013

3ª fase · Nível III (3ª série)

Olimpíada Brasileira de Física · 8 questões discursivas · arquivo histórico.

Q01
Mecânica — Hidrostática — Encontro de duas esferas em um fluido (caso geral)

Uma pequena esfera com densidade relativa (razão entre a densidade do corpo e a da água) $\rho_1>1$ é solta na superfície livre de um recipiente com água. No mesmo instante é solta outra pequena esfera, de densidade relativa $\rho_2<1$, do fundo do recipiente. Em que ponto, a partir do fundo do recipiente, as esferas irão se encontrar? Despreze a viscosidade e as dimensões das esferas.

Resposta TEF: $y=H\,\dfrac{\rho_1\,(1-\rho_2)}{\rho_1-\rho_2}$ acima do fundo ($H$ = profundidade da água).

Resolução comentada · Método TEF

Peso menos empuxo: $a_1=g\left(1-\dfrac1{\rho_1}\right)$ (para baixo) e $a_2=g\left(\dfrac1{\rho_2}-1\right)$ (para cima). Partem do repouso e se encontram quando a soma dos deslocamentos é $H$; a esfera 2 percorre a fração $\dfrac{a_2}{a_1+a_2}$:

$$y=H\,\frac{a_2}{a_1+a_2}=H\,\frac{\frac{1-\rho_2}{\rho_2}}{\frac{\rho_1-\rho_2}{\rho_1\rho_2}}=H\,\frac{\rho_1\,(1-\rho_2)}{\rho_1-\rho_2}$$

Para $\rho_1=1{,}5$ e $\rho_2=0{,}5$: $y=0{,}75\,H$ (a $0{,}25\,H$ da superfície).

Q02
Mecânica — Dinâmica — Curva inclinada com atrito

Um carro, movendo-se com velocidade constante, percorre uma pista circular de raio $R$ e inclinada de um ângulo $\theta$. Se o coeficiente de atrito estático entre os pneus e a pista é $\mu_e$, determine em que faixa de velocidades o condutor pode trafegar para que o carro não deslize na pista.

Carro em uma pista circular inclinada de um ângulo θ

Resposta TEF: $\sqrt{g\,R\,\dfrac{\tan\theta-\mu_e}{1+\mu_e\tan\theta}}\le v\le\sqrt{g\,R\,\dfrac{\tan\theta+\mu_e}{1-\mu_e\tan\theta}}$.

Resolução comentada · Método TEF

Na pista de inclinação $\theta$, a normal $N$ e o atrito $f\le\mu_e N$ (ao longo do plano) fornecem a resultante centrípeta (horizontal): $\dfrac{m\,v^2}{R}$.

Velocidade mínima (atrito para cima, no plano): $N\,\text{sen}\,\theta-\mu_eN\cos\theta=\dfrac{m\,v^2}{R}$ e $N\cos\theta+\mu_eN\,\text{sen}\,\theta=m\,g$.

Velocidade máxima (atrito para baixo no plano): $N\,\text{sen}\,\theta+\mu_eN\cos\theta=\dfrac{m\,v^2}{R}$ e $N\cos\theta-\mu_eN\,\text{sen}\,\theta=m\,g$.

Dividindo as equações: $$v_{min}^2=g\,R\,\frac{\tan\theta-\mu_e}{1+\mu_e\tan\theta}\qquad v_{max}^2=g\,R\,\frac{\tan\theta+\mu_e}{1-\mu_e\tan\theta}$$

Se $\mu_e\ge\tan\theta$, o limite inferior é zero (o carro não escorrega nem parado); se $\mu_e\tan\theta\ge1$, não há limite superior.

Q03
Eletricidade — Campo magnético — Elétron entre placas em campo magnético uniforme

Considere uma região limitada por duas placas paralelas $P_1$ e $P_2$, de comprimento $4s$ e separação $2s$, sujeita a um campo magnético uniforme $B$ (saindo da folha). Um elétron entra, com velocidade $v$, pelo ponto médio, paralelamente às placas, como mostra a figura. Qual deve ser o menor valor de $v$ para que ele saia da região de campo, pelo outro lado, sem colidir com as placas? (Despreze a ação da gravidade; carga $e$ e massa $m$ do elétron.)

Duas placas paralelas P1 e P2 de comprimento 4s e separação 2s, com campo magnético saindo da folha e um elétron entrando com velocidade v

Resposta TEF: $v_{min}=\dfrac{17\,e\,B\,s}{2\,m}$.

Resolução comentada · Método TEF

Ressalva: o enunciado diz “desconsiderar a massa do elétron”, o que tornaria $r$ nulo; interpretou-se como desprezar o peso (a massa continua em $r=mv/eB$).

A força magnética no elétron (carga negativa, $\vec v$ para a direita e $\vec B$ saindo da folha) aponta para cima: ele descreve um arco de círculo de raio $r=\dfrac{m\,v}{e\,B}$ curvando-se em direção a $P_1$, que está a uma distância $s$.

Ao atravessar a placa até $x=4s$, o desvio vertical é $y=r-\sqrt{r^2-(4s)^2}$. Para não bater em $P_1$: $yr-s\Rightarrow r^2-16s^2>r^2-2rs+s^2\Rightarrow r>\dfrac{17}{2}\,s$.

$$v_{min}=\frac{e\,B}{m}\,r_{min}=\frac{17\,e\,B\,s}{2\,m}$$

Observação: se $r\le\dfrac s2$ o elétron faz meia volta e sai pelo lado de entrada, sem tocar as placas; o enunciado se refere à saída pelo lado oposto.

Q04
Eletricidade — Indução eletromagnética — Alicate amperímetro: f.e.m. induzida e variação da corrente

Um alicate-amperímetro mede a corrente induzida pelo campo magnético gerado pela própria corrente do cabo. A alça é uma bobina que envolve um núcleo de ferro, que guia o fluxo magnético de modo que praticamente todo o fluxo passe, aproximadamente, perpendicular à bobina. A bobina tem $N$ espiras circulares de raio $R$ e está ligada a um voltímetro. Sabendo que o núcleo de ferro tem eficiência de 80%, determine a variação da corrente elétrica no cabo durante um tempo $\Delta t$ em que a tensão no voltímetro foi $V$. Dado: o campo de um fio com corrente $i$ a uma distância $R$ é $\dfrac{\mu_0 i}{2\pi R}$.

Alicate amperímetro: núcleo de ferro em volta de um cabo, bobina de N espiras ligada a um voltímetro

Resposta TEF: $\Delta i=\dfrac{5\,V\,\Delta t}{2\,\mu_0\,N\,R}$.

Resolução comentada · Método TEF

Campo no núcleo (a uma distância $R$ do cabo): $B=\dfrac{\mu_0\,i}{2\pi R}$. Com eficiência $0{,}80$, o fluxo por espira é $\Phi_1=0{,}80\,B\,\pi R^2=0{,}40\,\mu_0\,i\,R$.

Pela lei de Faraday, a tensão no voltímetro é $V=N\,\dfrac{\Delta\Phi_1}{\Delta t}=0{,}40\,\mu_0\,N\,R\,\dfrac{\Delta i}{\Delta t}$:

$$\Delta i=\frac{V\,\Delta t}{0{,}40\,\mu_0\,N\,R}=\frac{5\,V\,\Delta t}{2\,\mu_0\,N\,R}$$

Q05
Óptica — Refração da luz — Reflexão interna total em um quarto de cilindro

A figura mostra a seção de um elemento óptico de índice de refração $n$, com a forma de um cilindro cuja base é um quarto de circunferência de raio $R$, posicionado sobre uma bancada. Um feixe de luz monocromática, paralela à bancada, incide sobre a face plana do elemento. Determinar a distância $x$, próxima ao elemento, sobre a bancada que não receberá iluminação da fonte luminosa.

Feixe de luz paralelo à bancada incidindo na face plana de um quarto de cilindro de raio R; região x sem iluminação ao lado

Resposta TEF: $x=R\left(\dfrac{n}{\sqrt{n^{2}-1}}-1\right)$.

Resolução comentada · Método TEF

Na face plana (incidência normal) não há desvio. Um raio a uma altura $h$ chega à superfície curva com ângulo de incidência $\alpha$ tal que $\text{sen}\,\alpha=\dfrac hR$. Ele só emerge se $\alpha<\alpha_c$, onde $\text{sen}\,\alpha_c=\dfrac1n$ (os raios mais altos sofrem reflexão interna total).

O raio-limite ($\alpha=\alpha_c$) emerge rasante, tangente ao círculo no ponto $(R\cos\alpha_c,\,R\,\text{sen}\,\alpha_c)$, e desce em direção à bancada, que atinge a uma distância (a partir do centro)

$$d=R\cos\alpha_c+R\,\frac{\text{sen}^2\alpha_c}{\cos\alpha_c}=\frac{R}{\cos\alpha_c}=\frac{R\,n}{\sqrt{n^2-1}}$$

Os demais raios emergentes atingem a bancada mais longe; a região entre a base do cilindro ($d=R$) e esse ponto não é iluminada:

$$x=\frac{R\,n}{\sqrt{n^2-1}}-R$$

Q06
Eletricidade — Eletrodinâmica — Projeto de circuito: lâmpada e resistores em série

Num experimento de laboratório dispomos de: uma lâmpada (tensão máxima $6\ \text{V}$, potência $3\ \text{W}$); um multímetro; uma fonte DC de $10\ \text{V}$; resistores de $3\ \Omega$, $20\ \Omega$ e $30\ \Omega$; e uma placa de montagem. A lâmpada não pode ser ligada diretamente à fonte, pois será danificada. Projete, com os resistores disponíveis, um circuito simples para ligar a lâmpada e obter a maior potência possível. Qual é essa potência? Suponha que a lâmpada tenha resposta ôhmica.

Resposta TEF: Lâmpada em série com os resistores de $20\ \Omega$ e $30\ \Omega$ associados em paralelo ($12\ \Omega$): $P\approx2{,}1\ \text{W}$.

Resolução comentada · Método TEF

Resistência da lâmpada: $R_L=\dfrac{V^2}{P}=\dfrac{36}{3}=12\ \Omega$ (corrente nominal $0{,}5\ \text{A}$). Para que a tensão na lâmpada não passe de $6\ \text{V}$ com uma fonte de $10\ \text{V}$, a resistência em série deve ser $R_s\ge8\ \Omega$.

Combinações possíveis: $3$; $20$; $30$; $3+20$; $3+30$; $20+30$; $20\parallel30=12$; $3+(20\parallel30)=15$ etc. As que satisfazem $R_s\ge8\ \Omega$ e dão a maior tensão na lâmpada são as de menor $R_s$ válida: $R_s=12\ \Omega$ ($20\parallel30$). (O resistor de $3\ \Omega$ sozinho deixa $8\ \text{V}$ na lâmpada, que a queimaria.)

Com $R_s=12\ \Omega$: $i=\dfrac{10}{24}\approx0{,}417\ \text{A}$, $V_L=5{,}0\ \text{V}$ e

$$P_L=\frac{V_L^2}{R_L}=\frac{25}{12}\approx2{,}1\ \text{W}$$

Q07
Mecânica — Dinâmica de rotação — Colisões elásticas sucessivas com uma haste articulada

Uma haste homogênea de comprimento $2R$ e massa $M$ está sobre uma superfície lisa, articulada no seu centro e inicialmente em repouso. Pequenas esferas de massa $m$ atingem uma das extremidades da haste: são lançadas de um disparador e liberadas de forma a atingirem a extremidade com velocidade $v$ toda vez que ela completa uma revolução. As colisões são elásticas e as esferas são puntiformes. Encontre a velocidade angular $\omega_{i+1}$ em termos de $\omega_i$ e de $v$ após a $i$-ésima esfera colidir com a haste. Dado: o momento de inércia da haste é $\dfrac{M R^2}{3}$.

Haste articulada no centro sobre uma superfície lisa, com um disparador lançando esferas de massa m com velocidade v

Resposta TEF: $\omega_{i+1}=\dfrac{(M-3m)\,\omega_i+6\,m\,v/R}{M+3m}$.

Resolução comentada · Método TEF

Ressalva: $\omega_i$ é positivo quando a extremidade se move no mesmo sentido da velocidade da esfera no instante do choque; a expressão vale enquanto $\omega_iR

Em cada colisão (extremidade a uma distância $R$ do eixo) o momento angular em relação ao eixo e a energia se conservam. Como o impulso é perpendicular à haste, o problema equivale a um choque elástico unidimensional entre a esfera ($m$, velocidade $v$) e a extremidade da haste, de massa efetiva $m_{ef}=\dfrac{I}{R^2}=\dfrac M3$ e velocidade $u=\omega_i\,R$ (no sentido de $v$).

Choque elástico: $u^{\prime}=\dfrac{(m_{ef}-m)\,u+2\,m\,v}{m+m_{ef}}$. Com $m_{ef}=\dfrac M3$ e $u^{\prime}=\omega_{i+1}R$:

$$\omega_{i+1}=\frac{(M-3m)\,\omega_i+\dfrac{6\,m\,v}{R}}{M+3m}$$

Verificação: $\omega_i=\dfrac vR$ é um ponto fixo (nenhuma troca). Partindo de $\omega_0=0$, o primeiro choque dá $\omega_1=\dfrac{6\,m\,v}{(M+3m)\,R}$.

Q08
Eletricidade — Campo elétrico — Experimento de Millikan: carga de uma gotícula em equilíbrio

Em 1913, Robert Millikan publicou um método para medir a carga elementar. O método baseia-se na ação de um campo elétrico em uma gotícula de óleo, aproximadamente esférica, de densidade $\rho$, raio $R$ e carga $q$, entre duas placas separadas por uma distância $d$. Aplicando-se uma diferença de potencial $V$ apropriada entre as placas, pode-se manter a gotícula em equilíbrio. Determine a carga de uma gotícula de óleo em equilíbrio entre as placas em termos de $\rho$, $R$, $d$ e $V$; use $g$ para a gravidade local e $\rho_{ar}$ para a densidade do ar.

Câmara do experimento de Millikan com pulverizador, placas carregadas, bateria e telescópio de observação

Resposta TEF: $|q|=\dfrac{4\pi\,R^{3}\,g\,d}{3\,V}\,(\rho-\rho_{ar})$.

Resolução comentada · Método TEF

Equilíbrio: peso para baixo, empuxo do ar e força elétrica $q\,E=q\,\dfrac Vd$ para cima.

Volume da gotícula: $\dfrac43\pi R^3$. Peso: $\rho\,\dfrac43\pi R^3\,g$; empuxo: $\rho_{ar}\,\dfrac43\pi R^3\,g$:

$$|q|\,\frac Vd=\frac43\pi R^3\,g\,(\rho-\rho_{ar})\ \Rightarrow\ |q|=\frac{4\pi\,R^{3}\,g\,d}{3\,V}\,(\rho-\rho_{ar})$$

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